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Viciado em jogos não tem tratamento especializado.

21/01/2003

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Enquanto os estabelecimentos como loterias, bingos e, mais recentemente, as lan houses espalham-se por todo o Estado, o mesmo não ocorre com o número de locais que ofereçam tratamento especializado àqueles que desenvolvem uma doença reconhecida pelos médicos como jogo patológico. No Paraná, as pessoas que buscam ajuda para se curar desse distúrbio e têm a necessidade de serem internadas, precisam ficar em clínicas ou hospitais voltados ao tratamento de dependentes químicos e alcoólatras.

“Foi o que eu precisei fazer, quando cheguei ao fundo do poço”, lembra o estudante C.M.L., de 24 anos, que não quer se identificar por pertencer à irmandade Jogadores Anônimos. O primeiro contato que C.M.L. teve com o jogo foi aos 15 anos. Na época, ele trabalhava como office-boy e gastava todo o seu salário com raspadinhas. Não demorou muito tempo para que ele começasse a ter problemas no emprego, por causa do jogo. “Chegava atrasado e até peguei dinheiro da empresa para comprar raspadinha. Foi então que fui demitido”, conta C.M.L., dizendo que após o episódio deixou, por três anos o vício, porque não podia mais sustentá-lo.

A vida de C.L.M. começou a mudar em função do jogo, aos 18 anos, quando uma amiga o convidou a ir conhecer o bingo. “Fomos numa noite e perdemos R$ 20,00”, diz o estudante. “Ao sairmos combinamos de voltar após três meses. Na manhã do dia seguinte, porém, eu já estava no bingo jogando novamente.” Daquela data em diante, o envolvimento de C.L.M. tomou proporções enormes e ele passou a colecionar uma série de perdas, não apenas no jogo propriamente dito, mas, principalmente, na vida. “Aos poucos fui me afastando de amigos, parentes, da faculdade, enfim, de tudo que era importante”, lamenta. As situações pitorescas também passaram a fazer parte da sua rotina. “Certa vez, eu ganhei um carro no bingo, no valor de R$ 40 mil e preferi o prêmio em dinheiro. Eles não iriam me entregar todo o valor naquela noite, por não haver todo este dinheiro em caixa. Continuei jogando e em aproximadamente quatro horas o bingo pôde me pagar o que havia sobrado do prêmio, pois só restavam R$ 10,5 mil.”

Neste período, o estudante também começou a utilizar dinheiro dos pais para se manter jogando. “Dos 18 aos 22 anos, meus pais perderam mais de R$ 100 mil comigo. E, não foi em viagens ou estudos. Foi em bingo”, confessa.

C.M.L. só concluiu que precisavam de ajuda, quando roubou R$ 5 mil de seus pais e foi viajar para o Rio, onde pretendia ficar seis meses. Entretanto, o dinheiro só durou 20 dias. “Foi então, que decidi pedir ajuda para os meus pais que decidiram me internar.” De acordo com C.M.L., foi realizada uma verdadeira peregrinação em busca de uma clínica voltada para pessoas que sofrem de compulsão pelo jogo. Contudo, nenhuma foi encontrada.

Problema compartilhado

Conhecido entre os membros da irmandade como JA, o grupo Jogadores Anônimos, há seis anos instalado em Curitiba, promove duas vezes por semana encontros na intenção de minimizar as angústias daqueles que compartilham o mesmo problema. A organização já existe em sete estados brasileiros e no Distrito Federal.

A exemplo de instituições como os Alcoólicos Anônimos (AA), o JA também organiza palestras com especialistas e outros eventos. O programa de recuperação dos Jogadores Anônimos apresenta 12 passos, assim como o AA, só que adaptados para a realidade dos compulsivos por jogo.

As reuniões do JA acontecem todas às terças e sextas-feiras, às 19h30, na Rua Trajano Reis, 457. O telefone do grupo é (41) 354-4020. (MM)

Compulsivos dão mais lucro a bingos.

Pesquisa recente realizada pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP) fornece alguns subsídios para se ter uma noção das proporções do distúrbio sobre a vida do doente e da sua família. O estudo aponta que mais de 50% do capital diário movimentado em bingos, são provenientes dos jogadores compulsivos. Estes, por sua vez, não são muito numerosos. De acordo com o HC-SP, apenas 5% das pessoas que freqüentam bingos e casas de jogos desenvolvem este tipo de patologia. De acordo com C.M.L., no ano passado um vendedor que trabalhava com o comércio dos “jogos de azar”, ganhou na justiça o direito de se aposentar por invalidez, por ter desenvolvido a doença em função do seu trabalho. “Isto é uma prova do quão grave é esta compulsão”, aponta o estudante.

Na opinião do diretor do Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz e do Centro de Atenção às Drogas da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, o médico Dagoberto Requião, a ausência de espaços exclusivos para o internamento de jogadores patológicos se explica por duas razões: o fato de ser uma doença reconhecida pela comunidade científica (ou seja, incluída no Código Internacional de Doenças) há apenas 23 anos e, porque, somente nas situações mais críticas é aconselhada a reclusão total do paciente. “Só é indicada a contenção deste tipo de doente, em casos cujo desespero do paciente é tão grande que ele pode vir a se suicidar”, explica. Segundo Dagoberto Requião, em geral, o tratamento desta compulsão é feito com o emprego de medicamentos e o auxílio de grupos de apoio. “As pessoas que têm propensão a desenvolver a doença têm alterações nos neurotransmissores cerebrais”, explica. Daí ser necessário , na maioria das vezes, o emprego de medicamentos.
Paraná Online – Magaléa Mazziotti