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Vidas ameaçadas pela compulsão.

20/04/2005

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A vida de Catarina desmoronou no último dia 1º de março. Casada há quase 30 anos, dois filhos adultos, ouviu do marido a confissão de que ele era viciado em jogo – nas máquinas caça-níqueis existentes em casas de bingo. E o pior: sua dívida já ultrapassava os R$ 170 mil, dinheiro que ele não tem de onde tirar. Ela aceitou contar sua história desde que os nomes fossem preservados.
O marido de Catarina joga compulsivamente há 10 anos e, durante todo este tempo, conseguiu esconder da família o seu problema. Em casa, a mulher e os filhos nunca notaram nada de estranho no seu comportamento.
– Meu marido só decidiu contar o que estava acontecendo porque se viu com a corda no pescoço. Até de morte ele foi ameaçado pelas pessoas a quem deve dinheiro – diz Catarina, apavorada.
Embora ele tenha contado toda a verdade há mais de um mês, Catarina ainda tem muita dificuldade em aceitar a realidade.
– Eu sabia que ele jogava, uma vez ou outra, mas achava que era somente uma diversão inconseqüente, pois nunca demonstrou qualquer tipo de descontrole ou comportamento estranho – comenta.
Segundo Catarina, a confissão desestruturou a família. Os filhos estão revoltados. A menina não fala mais com o pai.
Vícios e compulsões são temas de encontro médico.
Os vícios e as compulsões são muito comuns na sociedade moderna.
O psiquiatra Geder Grohs explica que a compulsão é a necessidade de fazer determinada coisa que a pessoa sabe ser prejudicial, mas que é compelida a fazer. É o caso dos compulsivos por jogo, sexo, comida, internet, compras e exercícios físicos, que não sabem a hora de parar.
O vício, por sua vez, envolve tolerância e dependência (química e psíquica) de substâncias, precisando de doses cada vez mais fortes. Isso acontece com os dependentes de álcool, drogas, fumo e medicamentos.
– Discute-se muito hoje se os comportamentos aditivos pertencem à classe das compulsões ou dependências. Este, aliás, é um dos temas da Jornada de Psiquiatria da Regional Sul, que acontece de 16 a 18 de junho no Costão do Santinho, em Florianópolis – diz o psiquiatra.
Fique atento
O jogador patológico apresenta alguns sintomas:
1- Preocupação com jogo (preocupação com experiências passadas, especulação do resultado ou planejamento de novas apostas, pensamento de como conseguir dinheiro para jogar);
2 – Necessidade de aumentar as apostas para alcançar a excitação desejada;
3 – Esforço repetido e sem sucesso de controlar, diminuir ou parar de jogar;
4 – Inquietude ou irritabilidade quando diminui ou pára de jogar;
5 – Jogo como forma de escapar de problemas ou para aliviar estado disfórico (sentimentos de desamparo e culpa, ansiedade, depressão);
6 – Depois da perda de dinheiro no jogo, retorna freqüentemente no dia seguinte para recuperar o dinheiro perdido;
7 – Mentir para familiares, terapeuta ou outros, a fim de esconder a extensão do envolvimento com jogo;
8 – Cometer atos ilegais como falsificação, fraude, roubo ou desfalque para financiar o jogo;
9 – Ameaçar ou perder relacionamentos significativos, oportunidades de trabalho, educação ou carreira por causa do jogo;
10 – Contar com outros para prover dinheiro, no intuito de aliviar a situação financeira desesperadora por causa do jogo.
Fonte: CID.10 – Classificação Internacional de Doenças da ONU.

 

Hipnotizados na máquina de jogo.

 

Para entender o que acontecia com o companheiro de tantos anos, Catarina decidiu ir às casas de jogos ver de perto seu funcionamento. – É impressionante. As pessoas ficam hipnotizadas na frente daquelas máquinas, agem como se fossem robôs. Com certeza muitos ali jogam por compulsão, como meu marido, e precisam de ajuda urgente – ressalta.
Catarina sabe que o marido tem culpa por ter deixado a situação chegar ao fundo do poço. Ressalta, entretanto, que a facilidade de crédito existente no mercado ajuda muito os jogadores compulsivos, pois eles sempre conseguem obter dinheiro para continuar apostando.
– Como explicar o fato de uma pessoa que recebe um salário de R$ 4 mil conseguir empréstimos de até R$ 170 mil? Somente no Banco do Brasil ele tem mais de 10 empréstimos. Como a gente vai comer se tiver de pagar essa dívida? – pergunta Catarina.
Para poder sanear pelo menos parte das dívidas, a família colocou o apartamento à venda. Catarina descobriu que o marido já perdeu quatro automóveis no jogo.
Procurando respostas para o problema do marido, Catarina foi pesquisar na Internet, onde há vários sites sobre compulsão por jogos.
– Agora sei que o jogo compulsivo é uma doença, sem cura, mas é possível colocar freios se a pessoa realmente quiser parar. O mesmo acontece com o alcoólatra ou dependente químico – diz.
O marido de Catarina participa hoje do Grupo de Ajuda dos Jogadores Anônimos Vida Nova, cujas reuniões são realizadas na Igreja Nossa Senhora da Conceição, no Centro de Florianópolis, nas terças, quintas e sábados. Ela participa das reuniões do Jog-Anon, para familiares de jogadores. Além disso, ele procurou apoio com um psiquiatra e, Catarina, com um psicólogo.
Catarina quer abrir um processo contra o Estado, por permitir o funcionamento das casas de jogos, mas diz não acreditar que algum advogado se interessará pela causa.
– Há muito interesse financeiro e político por trás disso. Mas não acho justo tirar da família seu sustento para pagar dívida de jogo. Essa triste história é a do meu marido, mas sei que existem milhares de outras muito parecidas – finaliza.
Serviço
Jogadores Anônimos em SC – Florianópolis
Contatos: ja-online@floripa.com.br  
Reuniões: Rua Victor Konder, 344 -Centro – Fundos Igreja N. Srª Conceição
Horários: Terça e Quintas -19h Sábados -16h
Apoio para recomeçar.
Os grupos de auto-ajuda propagam-se de forma acelerada no Brasil, onde funcionam diversas associações deste tipo.

Reúnem de alcoólatras a dependentes químicos, de compulsivos por sexo a pessoas que não conseguem parar de comer ou fazer exercícios físicos. São grupos anônimos, freqüentados por pessoas de diferentes idades e classes sociais. O que todos buscam é um apoio mútuo para superar vícios ou comportamentos compulsivos que as levaram a uma vida destrutiva.

Segundo a psicóloga Margareth Mendes, os grupos de auto-ajuda têm se fortalecido porque exercem um duplo papel de ajuda aos dependentes. Primeiro, conseguem fazê-lo interromper o uso de substâncias viciantes ou desistir de determinadas atividades compulsivas. Depois, dão-lhe suporte e orientação para recompor laços familiares e sociais, na maioria das vezes desfeitos pela doença.

Diário Catarinense – Viviane Bevilacqua