Pesquisa da FGV usa metodologia equivocada e distorce números do mercado de jogos

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A coluna do Ancelmo Gois deste domingo no O Globo veicula a nota ‘Façam o jogo, senhores’, que informa que “num momento em que o Congresso volta a discutir a reabertura dos cassinos, uma pesquisa que está saindo do forno pela FGV, com base em números do IBGE, mostra o tamanho da jogatina no Rio. Veja só. De longe, as loterias da Caixa são as preferidas. Faturam em torno de R$ 1,5 bilhão por ano. Depois, vem o jogo do bicho, com uns R$ 400 milhões anuais. E, na, lanterna a tímida Loterj, a loteria estadual, com uns R$ 200 milhões”.

Dados do IBGE de 2008/2009

Aos poucos vão sendo reveladas a metodologia e os resultados da pesquisa contratada junto a Fundação Getúlio Vargas (FGV) pela Caixa Econômica Federal, a pedido da Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE) do Ministério da Fazenda sobre o mercado de jogos e loterias no Brasil.

A nota veiculada no O Globo revela que o estudo da FGV sobre o jogo do bicho teve como base os números do IBGE. O problema é que os números da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), sobre hábitos de consumo dos brasileiros, do IBGE sobre o setor de jogos de azar do país, também contém dados equivocadíssimos sobre esta atividade. A partir das informações prestadas pelos brasileiros, o instituto estimou em R$ 4,2 bilhões o montante gasto em apostas no país, envolvendo 9,7 milhões de apostadores (5% da população) entre os anos de 2008 e 2009.

Ou seja, como o Estado do Rio de Janeiro representa 11,5% do PIB do Brasil, “uns R$ 400 milhões” ficam dentro da zona de conforto acadêmico, sem considerar o índice inflacionário do período posterior a divulgação da POF.  

Como as loterias da Caixa e da Loterj são oficiais não existe margem de erro da pesquisa da FGV.

IBGE: ‘resultado subestimado’

O próprio IBGE admitiu em reportagem veiculada no O Globo (18.11.2012), que o resultado é subestimado, dado o formato da pesquisa, que desconsidera despesas de turistas e não residentes, além de depender da memória e da disposição dos entrevistados de responder às perguntas. Evidência disso é que só o faturamento com loterias da Caixa Econômica Federal totalizou R$ 5,7 bilhões, em 2008, e R$ 7,3 bilhões, em 2009. Acima, portanto, dos R$ 4,2 bilhões estimados pela POF na mesma época.

“Os resultados nunca vão bater”, disse o gerente da POF, Edilson Nascimento, chamando a atenção para a metodologia da pesquisa, que registra as despesas com jogos relatadas pelos entrevistados num intervalo de sete dias.

Outra distorção é a dificuldade de o entrevistado admitir para um recenseador do IBGE – devidamente identificado como uma pesquisa oficial do governo federal –, que pratica um ato contravencional.  

Caixa admite ‘conservadorismo’

 

 

O conservadorismo dos números da pesquisa da FGV já tinha sido observado pelo ex-vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa Econômica Federal, Fábio Ferreira Cleto durante a Audiência Pública da Comissão Especial do Marco Regulatório dos Jogos no Brasil da Câmara dos Deputados, realizada no último dia 2 de dezembro.

Segundo as estimativas da fundação, anualmente os bingos arrecadariam entre R$ 620 milhões e R$ 1,8 bilhão, as apostas esportivas R$ 114 milhões, os cassinos (máquinas de caça-níqueis) entre R$ 1,2 e R$ 3,1 bilhões e o jogo do bicho entre R$ 1,3 e R$ 2,8 bilhões.

“Estes números são extremamente conservadores eu só o estou citando porque acredito que teve uma metodologia de análise com um critério bem definido, mas existem outros bem mais agressivos com relação estes números aqui apresentados”, comentou Fábio Cleto durante a reunião.

Realidade de mercado

O estudo do BNL/IJL que se baseou em pesquisa de campo, análise de registros de ocorrências policiais, entrevistas com operadores e empregados do ‘mercado tolerado’ aponta para uma outra realidade. Somente no Estado do Rio de Janeiro o jogo do bicho teria movimentado no ano de 2014 cerca de R$ 934 milhões em seus 35 mil pontos de vendas. Isto representa um movimento geral de apostas diário de R$ 73,11 para cada PDV contra os R$ 31,31 do estudo da FGV.

Legalização poderá esclarecer

Brevemente, essas diferenças de valores poderão ser esclarecidas com a definição do Marco Regulatório dos Jogos no Brasil e a legalização dos bingos, cassinos, jogo do bicho, videojogos e jogos pela internet. A regulamentação tornará os números do setor em oficiais e o Estado poderá informar o movimento geral de apostas do país.

Em tempo…

Sempre que cita algum estrangeirismo, a coluna de Ancelmo Gois brinca com o bordão “…é o cacete”, inspirado no slogan "Halloween é o cacete", criado pelo MV-Brasil, um movimento nacionalista e quase xenófobo, que surgiu no Rio, no final da década de 1990.

Parafraseando Ancelmo, “jogatina é o cacete”!!!

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