Crime organizado pega carona nas rifas de carros de luxo

De uma prática aparentemente inofensiva, as rifas se transformaram em uma das maiores investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que revelou um esquema milionário de jogos ilegais e lavagem de dinheiro. O trabalho culminou com a prisão de dois influenciadores digitais famosos, Klebim e Big Jhow, que utilizavam suas redes sociais e os milhões de seguidores para sortearem veículos de luxo. Nos últimos meses, com a operação Huracán, desencadeada pela Divisão de Repressão a Roubos e Furtos da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (DRF/Corpatri) essa contravenção ganhou os holofotes. Os ganhadores das rifas recebiam os prêmios, mas, sem saber, estavam alimentando diversos crimes.
Popular no YouTube e no Instagram, Kleber Rodrigues de Moraes, 27 anos, conhecido como Klebim, foi alvo da primeira fase da Huracán, em 21 de março. As investigações apontaram que o influencer, do canal Estilo Dub, era o líder de uma suposta quadrilha que explorava jogos de azar. Faziam parte do grupo criminoso Pedro Henrique Barroso de Neiva, 37, Vinícius Couto Farago, 30, e Alex Bruno da Silva Vale, 28. Todos estavam envolvidos na realização dos sorteios ilegais de veículos luxuosos. Entre 2021 e este ano, a polícia calculou que Klebim e os comparsas movimentaram cerca de R$ 20 milhões com a fraude.
Aparentemente, o negócio não parecia ser ilegal. Klebim entrava diariamente nas redes sociais para anunciar os carros e gravar vídeos. Entre as ofertas tentadoras e com baixo preço das rifas — que variava de R$ 5 a R$ 100 — estava um Porsche amarelo e uma camioneta Toyota, ambas com suspensão especial. Nos comentários, os seguidores aplaudiam e admiravam o youtuber pela iniciativa. À época, a PCDF cumpriu quatro mandados de prisão temporária, incluindo o de Klebim, e sete de busca e apreensão, em Vicente Pires e Taguatinga, além do sequestro judicial de nove carros de luxo e o bloqueio de quase R$ 10 milhões das contas dos investigados. Entre os veículos, estavam uma Lamborghini e uma Ferrari, avaliadas em R$ 5 milhões.
Nova fase
A repercussão do caso Klebim não foi o suficiente para impedir as rifas irregulares de outros influenciadores. Em 10 de novembro, Elizeu Silva Cordeiro, o Big Jhow, foi alvo da segunda fase da operação. Morador de Minas Gerais e com mais de um milhão de seguidores no Instagram, Big Jhow agia de maneira semelhante a Klebim. Ele entrou na mira da polícia após anunciar o sorteio de uma Lamborghini Gallardo amarela. Além do superesportivo, os policiais apreenderam, em Minas Gerais, uma lancha e um jet ski, no valor de R$ 700 mil. Também foram bloqueados R$ 12 milhões de reais em contas de pessoas físicas e jurídicas. Mesmo após a apreensão do automóvel, Elizeu comunicou aos seguidores, pelas redes sociais, que entregaria a quantia correspondente à Lamborghini ao vencedor. A atitude foi vista como uma afronta à polícia e ao Judiciário. Com isso, a PCDF solicitou à Justiça, em 13 de novembro, a prisão preventiva do acusado.
Saiba Mais
Na decisão, o juiz Jerônimo Grigoletto Goellner afirmou que o investigado não “respeita as determinações judiciais e os preceitos legais” e “insiste em promover alienação que sabe ilegal”. Ainda segundo o juiz, “não se trata de simples rifa de bem de valor desprezível, mas de operação milionária”.
Em 16 de novembro, Big Jhow foi capturado no condomínio onde mora, na cidade de Esmeraldas (MG), e permanece detido. O Correio apurou que o instagramer comprou uma casa no valor de R$ 1,8 milhão. A mansão, de 1.380 metros quadrados, fica em sua cidade. Também em novembro, a Justiça do DF negou um pedido da defesa de Elizeu para colocá-lo em liberdade. Ele permanece preso no Centro de Remanejamento Gameleira, em Belo Horizonte (MG).
Crime repaginado
A fraude de Big Jhow e Klebim para faturar quantias milionárias, de acordo com a PCDF, pode ser apenas a ponta do iceberg de um novo nicho criminoso. Casos como esses fizeram a polícia estar mais atenta aos golpes recentes aplicados por estelionatários. Mas, afinal, quais são as regras? As rifas são ilegais? E em qual situação elas são autorizadas?
Para entender como funcionam as investigações da polícia nesse sentido, o Correio conversou com o delegado Fernando Cocito, diretor da DRF e responsável pela operação Huracán. O primeiro passo para apurar se alguém está promovendo jogos irregulares pela internet é saber se o site e a modalidade de sorteio têm licença do Ministério da Economia para funcionar. (Correio Braziliense – DF)


