Por dentro da Ludopatia: quando parar de jogar se torna difícil

Quando jogar deixa de ser diversão e passa a ser uma obrigação, eis um sinal de alerta. Obrigação de ser contemplado com uma premiação, obrigação de resolver situações por meio do jogo, obrigação de recuperar o dinheiro investido. A expressão Ludopatia consiste na junção de duas palavras: ludus (do latim, jogo) e patia (do grego pathos: doença). Trata-se de um transtorno, classificado tanto no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5-TR) quanto na Classificação Internacional de Doenças (CID) como Transtorno do Jogo, sendo, dessa forma, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma patologia.
O Transtorno do Jogo cresce silenciosamente e afeta todas as áreas da vida do indivíduo: financeira, social, profissional, familiar, emocional e até mesmo física. Não há uma única dimensão que não seja impactada quando o jogo se tornou o centro da vida de uma pessoa.
O primeiro relato de problemas com jogo aparece na literatura em 1886, na obra “O Jogador” de Dostoiévski, na qual o jovem Alexei Ivánovitch faz autorrelatos sobre seu endividamento com jogos.
Os principais sintomas que se manifestam no comportamento do jogador, de acordo com o DSM, são:
⇒ Direcionar ao jogo quantias financeiras cada vez maiores;
⇒ Jogar para tentar recuperar o dinheiro investido (sensação de urgência em continuar a jogar);
⇒ Comprometer com o jogo o orçamento que seria destinado a outras finalidades;
⇒ Tentar parar sozinho e não conseguir;
⇒ Pensar constantemente no jogo (seja para revisitar experiências passadas ou planejar como poderá obter dinheiro para jogar novamente);
⇒ Mentir para esconder a extensão do seu envolvimento com o jogo;
⇒ Prejudicar ou perder um relacionamento significativo, o emprego ou uma oportunidade educacional ou profissional em decorrência do jogo;
⇒ Depender de outras pessoas financeiramente.
As formas de apresentação do Transtorno do Jogo podem ser três: leve, moderada ou grave. De um modo geral, apenas um em cada dez jogadores busca por tratamento e, quando isso ocorre, a pessoa já se encontra no estágio moderado ou grave da patologia. A prevalência geralmente é maior nos indivíduos do sexo masculino e o início do transtorno geralmente se dá durante a adolescência ou na vida adulta; podendo se apresentar também na meia idade ou na idade adulta avançada. Há um padrão de aumento gradual tanto na frequência do jogo quanto no valor das apostas, podendo estar associado ou não ao uso de bebida alcoólica.
Negação, superstição, sentimentos de poder e controle sobre o resultado de eventos regulados pelo acaso e excesso de confiança são distorções do pensamento que costumam estar presentes.
Grande parte das pessoas que desenvolvem o transtorno acreditam que o dinheiro é, ao mesmo tempo, a origem e a solução de seus problemas. É comum que esses indivíduos apresentem comportamentos como impulsividade, competitividade, inquietação e uma permanente necessidade de estímulo. Essas pessoas podem buscar aprovação social em demasia, e, ao vencerem no jogo, demonstram excessiva generosidade. Em contrapartida, há também aqueles em que prevalecem os sentimentos de solidão, tristeza ou desesperança – e que recorrem ao jogo como uma tentativa de fuga ou alívio emocional.
A frequência dos jogos pode seguir um padrão regular ou se apresentar de forma esporádica. A recorrência ao jogo pode ser intensificada em algumas situações como durante episódios de depressão ou períodos de uso ou abstinência de substâncias (como álcool e outras drogas, por exemplo). Em alguns momentos, pode haver períodos de remissão espontânea, em que o indivíduo consegue ficar determinado tempo sem jogar. Porém, este evento pode ser seguido por uma recaída.
Distinguindo o Jogo Patológico de outras formas de jogo
É importante, contudo, distinguir o Transtorno do Jogo de outras práticas, como o jogo profissional e o jogo social. Jogadores profissionais atuam em um contexto específico, com disciplina e limites bem definidos quanto ao risco. O jogo social, por sua vez, é aquele realizado ocasionalmente, entre amigos ou familiares, com tempo delimitado e no qual as perdas refletem valores aceitáveis.
Impactos na vida social e na saúde física e mental
As repercussões do transtorno do jogo, como dissemos, são amplas e afetam diversas dimensões da vida do indivíduo. Relações afetivas e familiares, por exemplo, são frequentemente impactadas por comportamentos como mentiras persistentes, manipulação ou pedidos recorrentes de dinheiro emprestado para saldar dívidas ocasionadas pelo jogo. Em contextos profissionais ou acadêmicos, observa-se um aumento do absenteísmo, queda no desempenho e até o uso do tempo que seria destinado ao trabalho ou estudo para jogar ou pensar sobre o jogo e suas consequências.
Além disso, a saúde física e mental muito comumente fica comprometida. Pessoas nesta condição patológica geralmente apresentam um quadro geral de saúde fragilizado e recorrem com maior frequência a atendimentos médicos, muitas vezes motivados por somatizações ou agravamento de quadros clínicos preexistentes.
É comum que indivíduos com Transtorno do Jogo apresentem outros transtornos associados, como transtornos por uso de substâncias (álcool, por exemplo), Transtornos Depressivos, Transtornos de Ansiedade e Transtornos da Personalidade. Além disso, pode aparecer também a ideação suicida, com evolução para tentativas de fato de retirar a própria vida.
Portanto, a prevenção e o cuidado são a melhor opção. No Brasil, existem entidades específicas para o cuidado do jogador compulsivo como os Jogadores Anônimos, existente desde 1993 e cujo acesso é facilitado e gratuito. Abaixo, depoimento de um jogador que, com o suporte adequado, conseguiu superar o Transtorno do Jogo:
“Hoje levo uma vida totalmente diferente, já não preciso do jogo para resolver meus problemas, vivo com qualidade de vida e o que ganho em dinheiro é oriundo do meu trabalho. Hoje já paguei todas as dívidas relativas ao jogo. Vale a pena ficar sem jogar, conheci pessoas maravilhosas.” JRS – Girau do Ponciano – AL (Depoimento retirado do site: https://jogadoresanonimos.com.br, acessado em 18/06/2025).
O Jogo Responsável deixa a sua mensagem: diversão sim, patologia não!
Além dos Jogadores Anônimos, é possível encontrar ajuda também nas seguintes entidades:
⇒ Rede de Atenção Psicossocial (RAPS): Serviço público de saúde mental via SUS, com atendimento gratuito para comportamentos compulsivos, incluindo o jogo. Você poderá consultar a unidade mais próxima pelo Disque Saúde 136.
⇒ Ambulatório do Jogo – Instituto de Psiquiatria da USP (Hospital das Clínicas): Programa especializado no tratamento de jogadores com comportamentos de risco. Telefones: (11) 2661-7805 ou (11) 99004-6247.
⇒ CVV (Centro de Valorização da Vida): Atendimento emocional gratuito, sigiloso e disponível 24h por dia. Ligue 188.
(*) Luciana Castro, Assistente de Diretoria do Consórcio Mineira da Sorte Loteria – CMSL e estudante do 10º período de psicologia da PUC-MG, e Douglas Fonseca, estagiário de Geste e Gestão e estudante do 10º período de psicologia da PUC-MG.
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Bibliografia
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5.ª ed. revista de texto. Porto Alegre: Artmed, 2023.
SOUZA, Cristiane Cauduro de; SILVA, Jaqueline Garcia da; OLIVEIRA, Margareth da Silva; BITTENCOURT, Simone Armentano; FREIRE, Suzana Dias. Jogo patológico e motivação para mudança de comportamento. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 21, n. 2, p. 345–361, 2009.
JOGADORES ANÔNIMOS. Jogadores Anônimos Brasil. Disponível em: http://jogadoresanonimos.com.br. Acesso em: 18 jun. 2025.
MSL – Consórcio Mineira da Sorte Loteria
Fruto de um consórcio entre os dois principais fornecedores globais de loteria, a IGT e a Scientific Games, com mais de 35 anos de experiência e estrutura para operar sistemas lotéricos em mais de 100 países, o MSL conta também com a expertise da empresa nacional da SAGA BGI. O segmento segue em expansão em outros mercados do mundo. Na Itália, a IGT e SG lançaram uma loteria nacional de bilhetes instantâneos em 2004 e aumentaram as vendas de aproximadamente US$ 400 milhões (quatrocentos milhões de dólares) para mais de US$ 11 bilhões (onze bilhões de dólares). Em Nova Jersey (EUA), IGT e SG administram conjuntamente a loteria desde 2013 e tiveram um aumento nas vendas anuais em 20%, desde o início do contrato.


