Por que Neymar virou um jogador de pôquer competitivo e lucrativo

Neymar pratica pôquer há 12 anos, acumula mais de R$ 2,4 milhões em premiações e participou do Brazilian Series of Poker (BSOP) Winter, em São Paulo, enquanto o Santos disputava os playoffs da Copa Sul-Americana. Poupado da partida, o atacante treinou pela manhã antes de viajar para o torneio. Na temporada atual, soma pouco mais de R$ 300 mil em premiações em torneios com resultados públicos registrados.
A trajetória do jogador no esporte mental foi reportada por O Globo. Neymar descobriu o pôquer em 2014, durante a concentração da seleção brasileira para a Copa do Mundo. Desde então, passou a frequentar etapas do BSOP, da World Series of Poker (WSOP) e do European Poker Tour (EPT), em Barcelona. Tornou-se embaixador da PokerStars e, segundo dados documentados, acumulou mais de R$ 2,4 milhões em premiações ao longo dos anos.
O envolvimento ganhou consistência fora das mesas também. Neymar costuma revisar mãos, discutir estratégias com Rafael Moraes, CEO do BSOP, e com André Akkari, campeão mundial de pôquer e um dos responsáveis por introduzi-lo profundamente na modalidade. Estuda posicionamento na mesa, tamanho dos stacks (quantidade de fichas) e perfil dos adversários.
A visão de quem joga com ele
Para Moraes, primeiro brasileiro a superar US$ 1 milhão em premiações on-line, a dedicação de Neymar vai além do hobby casual. “Neymar é o cara que conheço, em mais de 20 anos em torneios, que mais tem vontade de ganhar. Quando conheceu o pôquer, percebeu que era um jogo mental, que podia estudar, treinar e evoluir. O futebol continua sendo sua grande paixão. O pôquer virou a segunda”, afirmou o CEO do BSOP.
Moraes declarou ainda o estilo de jogo do atacante. “Neymar é um atacante total, leva o jeito dele na vida para o pôquer. É agressivo, blefa bem, e é muito difícil blefar contra ele. Nos momentos de maior pressão, cresce. É igual a um pênalti decisivo. Ele não sente essa pressão”. Os dois criaram juntos o BSOP ONE Neymar Jr, torneio realizado em dezembro, após o fim da temporada, apenas para convidados.
O ambiente das mesas também oferece algo raro para Neymar. “É o lugar onde ele menos tira foto. Tudo o que faz vira um evento. No pôquer, Neymar senta à mesa e é tratado como mais um jogador. Isso pesa para que goste tanto. Ele consegue reunir amigos e família, fazer torneios privados e competir”, disse Moraes.
Debate sobre rotina e desempenho
A presença de Neymar em torneios durante jogos do Santos reacendeu o debate sobre os limites do hobby. No ano passado, ele foi visto disputando partidas on-line em um camarote da Vila Belmiro enquanto o clube jogava. O Santos informou que os atletas têm autonomia durante as folgas ou quando não são relacionados para as partidas. A assessoria de Neymar não respondeu à reportagem.
Para o fisiologista Gabriel Espinosa, do Laboratório de Performance Humana da Casa de Saúde São José, o problema não está na escolha da atividade. “Se ocupar horas que deveriam ser destinadas ao sono e ao descanso, passa a afetar recuperação, desempenho e prevenção de lesões”, afirmou. “O descanso restaurador é a chave. Quando esse período é ocupado por atividades muito estimulantes, há prejuízo para a qualidade do sono, aumento do cortisol e impacto no desempenho do dia seguinte. Por isso, os clubes costumam orientar que os atletas diminuam esse tipo de exposição à noite”, completou.
O psicólogo do esporte Yan Cintra, sem analisar especificamente o caso de Neymar, avaliou que atletas de elite frequentemente buscam novos espaços para exercer a competitividade fora de suas modalidades principais. “Quando toda a identidade está concentrada no papel de atleta, momentos como lesões, derrotas ou aposentadoria costumam ser vividos com mais sofrimento. Ter outros interesses amplia essa identidade e ajuda a pessoa a perceber que vale mais do que apenas seu desempenho esportivo”, afirmou. Cintra também ponderou que “o importante é que a segunda atividade complemente, e não substitua, a principal.”
O BSOP, circuito no qual Neymar é um dos milhares de participantes, reúne entre 20 mil e 30 mil jogadores por temporada e distribuiu R$ 134 milhões em premiações em 2025, terceiro maior volume do esporte brasileiro, atrás apenas da Copa do Brasil e do Brasileirão.
Neymar ainda não definiu os próximos passos na carreira. Moraes não acredita que o atacante vá seguir o caminho profissional. “Não acho que ele vá virar profissional. Ele é empresário, tem muitos compromissos, e o dinheiro nunca foi o que o atraiu para o pôquer. Mas acredito que, quando se aposentar, vai jogar muito mais. O que move o Neymar é competir”, disse o CEO do BSOP.


