BNLData – FactCheck: Como o estudo do IEPS transformou uma suposição em R$ 38,8 bilhões de “prejuízo” das bets?

Apostas I 29.09.26

Por: Magno José

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BNLData – FactCheck: Como o estudo do IEPS transformou uma suposição em R$ 38,8 bilhões de "prejuízo" das bets?
Nota técnica escondida no próprio dossiê revela o que a cobertura sobre o estudo omitiu: os autores admitem que não há como provar que apostas causaram os suicídios e depressões usados para chegar à cifra bilionária

O setor de apostas esportivas e jogos online tem sido alvo de críticas baseadas em estudos duvidosos e suspeitos, que acabam virando narrativas e que são citados em várias reportagens, artigos e discursos de políticos, principalmente quando tem um viés negativo.

Atualmente, um dos mais citados e que tomou conta do debate sobre regulação de apostas no Brasil nas últimas semanas e o número R$ 38,8 bilhões. Este é o valor que o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), em parceria com a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM) e a Umane, atribuiu ao “custo social” das bets no Brasil — mais do que o triplo do que o setor arrecada em impostos. A cifra virou manchete em dezenas de veículos, foi citada em audiências no Congresso e passou a circular como prova definitiva de que o país paga um preço alto demais pela liberação das apostas online.

O BNLData – FactCheck foi aos documentos originais do estudo e encontrou um problema que nenhuma das reportagens que repercutiram o número mencionou: os próprios autores do dossiê reconhecem, em nota técnica anexada ao gráfico que sustenta a cifra, que não é possível provar que os danos contabilizados foram causados pelas apostas.

A frase que ninguém reproduziu

O relatório “A Saúde dos brasileiros em jogo: análise político-econômica da regulamentação de apostas online e seus impactos para a saúde da população brasileira”, divulgado em 2 de dezembro de 2025, é a fonte de todo o número. Ele detalha que R$ 30,6 bilhões dos R$ 38,8 bilhões vêm de danos à saúde — sendo R$ 17 bilhões atribuídos a mortes por suicídio e R$ 13,4 bilhões a depressão. É exatamente ao lado desses números, no rodapé do gráfico oficial do dossiê, que está a ressalva que mudaria a leitura de toda a cobertura subsequente:

“Pessoas com uso problemático de apostas e jogos de azar sofrem maior incidência de depressão e suicídio, dentre outros eventos. As estimativas representam os custos relativos aos casos de suicídio e depressão associados ao jogo. São associados ao jogo, porque, dadas as evidências limitadas, não é possível afirmar que tais danos foram causados diretamente pelo jogo problemático.” — Nota técnica do dossiê IEPS/FPSM/Umane

Na linguagem da própria pesquisa, “associado” e “causado” não são sinônimos — e a diferença entre os dois conceitos é o que separa uma hipótese de um fato. Ainda assim, o resultado final do cálculo foi apresentado, e amplamente replicado, como se fosse um custo real e mensurado que as bets impõem à sociedade brasileira.

Uma fórmula importada da Inglaterra

Se o dado não vem de casos brasileiros comprovadamente causados por apostas, de onde vem? A resposta está na metodologia descrita pelo próprio IEPS: os valores de custo por perfil de apostador — baixo risco, risco moderado e jogo problemático — foram retirados de um estudo de 2023 do Office for Health Improvement and Disparities (OHID), órgão do governo britânico.

Esses valores em libras foram convertidos para reais por uma taxa de paridade de poder de compra (R$ 3,40/£) e depois multiplicados pela proporção de brasileiros em situação de risco com jogos, medida pelo terceiro Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas (LENAD III) — uma pesquisa sobre consumo de substâncias, não um estudo desenhado para medir o impacto causal de apostas sobre saúde mental. O resultado é uma extrapolação de três camadas: dado britânico, convertido por câmbio, aplicado a uma proporção brasileira obtida por analogia.

Não há, nesse caminho, nenhum ponto em que o Brasil tenha medido diretamente quantos suicídios ou diagnósticos de depressão decorrem de apostas. O número é uma projeção — legítima como exercício técnico, mas tratada pela cobertura como um levantamento de campo.

QALY: estatística vestida de fato consumado

Os R$ 10,4 bilhões atribuídos à “perda de qualidade de vida por depressão” usam o conceito de QALY (anos de vida ajustados por qualidade), ferramenta padrão em economia da saúde para comparar o impacto de diferentes doenças. O problema não é a ferramenta, mas a forma como o resultado foi comunicado: um QALY perdido vira reais a partir de premissas — valor monetário atribuído a um ano de vida, taxa de desconto, expectativa de vida — que o material de divulgação não detalha e que, se alteradas, mudam o resultado final em bilhões. Apresentar esse valor como “custo” ao lado de gastos diretos como tratamento médico (R$ 3 bilhões, esse sim um desembolso real) embaralha duas naturezas de dado muito diferentes sob um único rótulo.

A comparação que não fecha

O contraste mais repetido pela cobertura — “o custo social é o triplo da arrecadação” — compara uma estimativa estatística (R$ 38,8 bi) com um valor fiscal real e auditável (R$ 6,8 bi arrecadados entre janeiro e setembro de 2025, segundo a Receita Federal). São grandezas de natureza diferente: uma é medida, a outra é projetada. Colocá-las lado a lado sem essa ressalva cria a impressão de uma “conta que não fecha” que é, na verdade, uma comparação entre uma certeza contábil e uma hipótese estatística.

O que resiste à checagem

Nem tudo no dossiê é frágil. É verificável e correto que apenas 1% da arrecadação tributária das bets tem destinação vinculada à área da Saúde — ante 50% no Reino Unido, segundo o próprio estudo. Também é fato que o jogo problemático existe e demanda política pública de prevenção e tratamento, independentemente de qualquer cálculo de custo social. O erro não está em apontar a existência do problema, mas em vesti-lo com uma precisão numérica que a própria pesquisa não sustenta.

Conclusão

R$ 38,8 bilhões é o resultado de uma extrapolação estatística de três etapas, construída sobre uma relação que os próprios autores classificam como associação, não causa. Tratá-la como fato consumado — como fez a quase totalidade da cobertura sobre o estudo — não é um erro de digitação nem um exagero editorial isolado: é a transformação de uma hipótese em munição política, sem que a incerteza reconhecida pelos próprios pesquisadores chegasse ao público.

 

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