Para apagar o incêndio, é preciso derrubar o prédio?

Levantamento do PoderData/Aya mostra 52% aprovam Lula ter proibido todas as bets no Brasil. Outro estudo, feito pelo Datafolha e divulgado em 1º de outubro, mostra que 78% dos brasileiros são favoráveis à proibição das bets e dos cassinos on-line. Ambas as pesquisas foram feitas poucos dias depois da edição da Medida Provisória 1.394 e revelam uma posição expressiva, que merece ser compreendida em profundidade.
Imagine um prédio em chamas. Pergunte às pessoas na rua se querem acabar com o incêndio. Provavelmente, haverá concordância quase unânime. Mas questione se, para apagá-lo, devemos derrubar o prédio. A discussão será outra.
Essa distinção ajuda a compreender o debate sobre as apostas. A preocupação com a publicidade, as perdas financeiras, o endividamento, o acesso de menores e a proteção das famílias é legítima. O desafio é identificar as medidas capazes de enfrentar esses problemas, considerando também o papel do mercado regulado na proteção dos consumidores.
Os dados do Datafolha mostram que 81% dos entrevistados não apostavam nem conviviam com alguém que apostasse antes da proibição, enquanto 9% afirmaram apostar pessoalmente. Isso não reduz a legitimidade da opinião pública, mas ajuda a contextualizar o resultado: trata-se de uma percepção social.
Percepção importa enormemente em uma democracia. Mas percepção não é estudo de impacto regulatório.
A questão é definir quais objetivos devem ser alcançados e quais instrumentos são capazes de produzi-los. Limites financeiros, restrições à publicidade, autoexclusão, monitoramento de comportamentos de risco e combate aos operadores ilegais são algumas das alternativas que podem integrar uma política de proteção.
Outro levantamento, da Indexa/Broadcast, identificou 70% de apoio à proibição, enquanto 21% defendiam a continuidade das apostas sob regras mais rígidas. Os números mostram que o debate também envolve diferentes visões sobre os caminhos para ampliar a proteção.
A experiência internacional oferece referências importantes. No Reino Unido, a Gambling Commission acompanha o comportamento dos jogadores e as consequências negativas das apostas. Na Holanda, o regulador monitora a canalização, que mede a parcela da atividade mantida no mercado legal. Em 2026, estimou que 91% dos jogadores utilizavam operadores licenciados, mas só 53% do dinheiro perdido permanecia nesse ambiente. Na Suécia, esse indicador também é utilizado para acompanhar a atividade sob controle do Estado.
Esses exemplos evidenciam a importância de avaliar não só o mercado regulado, mas também os possíveis efeitos sobre o mercado clandestino, onde não há os mesmos mecanismos de fiscalização e proteção.
Para o Brasil, o desafio é compreender como as medidas adotadas afetarão o comportamento dos apostadores: quantos deixarão efetivamente de apostar e quantos poderão migrar para plataformas ilegais. A resposta exige dados sobre consumo, vulnerabilidade, endividamento e os resultados das políticas implementadas.
Os 78% de apoio à proibição expressam uma preocupação social que precisa ser levada a sério. Cabe agora aprofundar o debate e acompanhar os efeitos das decisões, buscando conciliar a proteção dos cidadãos com a efetividade da regulação.
Porque uma pesquisa de opinião consegue nos dizer que a sociedade quer apagar o incêndio.
Cabe à política pública descobrir como apagá-lo sem, para isso, derrubar o prédio.
(*) André Gelfi é diretor, conselheiro e cofundador do IBJR. Tem ampla experiência no setor de jogos e apostas, atuando no comando de empresas e no desenvolvimento do mercado regulado no Brasil. Atualmente, também é sócio da Betsson, com atuação global, e passou ainda por Suaposta e Codere. É uma das principais referências no setor de apostas esportivas e jogos on-line no Brasil. O artigo foi veiculado no Poder360.


