Vorcaro777: bet ilegal com nome do dono do Master usa empresa aberta por ‘laranja’ do Bolsa Família

Blog do Editor I 09.10.26

Por: Magno José

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Vorcaro777: bet ilegal com nome do dono do Master usa empresa aberta por ‘laranja’ do Bolsa Família
Plataforma registrada no exterior tem pagamentos intermediados por empresa ligada a “faraó dos bitcoins” e opera após MP de Lula (Foto: Reprodução)

Um site ilegal de apostas que usa o nome e a imagem do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, entrou no ar por meio de uma empresa registrada em nome de uma beneficiária do Bolsa Família e do programa Gás do Povo. A empresa foi aberta cinco dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinar a Medida Provisória (MP) que proibiu todo o mercado de bets online no país.

Reportagem do Estadão identificou que os pagamentos à plataforma, chamada Vorcaro777, são intermediados pela Sants SCD, instituição financeira autorizada pelo Banco Central. A empresa fictícia usada como fachada, a Flexpix Serviços Digitais, está registrada em Bela Vista do Paraíso, no Paraná, mas consta em nome de uma moradora da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. A mulher afirmou, por telefone, não ser dona de empresa alguma e que seu nome foi utilizado sem autorização.

A Vorcaro777 recebe apostas sobre o resultado das eleições presidenciais brasileiras, modalidade proibida inclusive para as bets autorizadas pelo Ministério da Fazenda. O site também oferece jogos de cassino como “tigrinho” e “aviãozinho”, dois dos mais populares entre plataformas do gênero. A defesa de Vorcaro declarou desconhecer o site e afirmou que o nome do banqueiro está sendo usado de forma indevida. O Ministério da Fazenda informou que “as providências cabíveis estão sendo adotadas”.

Conexão com o ‘faraó dos bitcoins’

O site ilegal está cadastrado no exterior com data de criação nesta terça-feira (6/10). A Sants SCD tem entre seus responsáveis Krosley Cândido dos Santos, ex-sócio de Glaidson Acácio dos Santos, o “faraó dos bitcoins”, condenado a 19 anos de prisão. A reportagem acionou dois diretores da Sants e seu canal oficial de contato, sem obter retorno. O Banco Central foi procurado e também não se manifestou.

Após ser contatada pelo Estadão, a Sants SCD informou ter encerrado imediatamente o relacionamento com a Flexpix. Em nota, a instituição afirmou que “não compactua com apostas ilegais ou qualquer atividade irregular” e explicou que a Flexpix “é um gateway de pagamentos” que contratou sua infraestrutura “para atender seus próprios usuários e estabelecimentos comerciais”. A Sants acrescentou que a atuação da instituição “limitava-se à prestação de serviços de conta de pagamento e ao processamento de transações” e que a antiga cliente “atua com autonomia, por sua conta e risco”. A instituição alertou que, “mesmo após o encerramento do relacionamento, a plataforma mencionada permanece em operação, com pagamentos destinados a diversas empresas, sem intermediação da Sants SCD”.

Proliferação de bets ilegais após a MP

Lula anunciou a proibição total dos sites de apostas em 25 de setembro, nove dias antes do primeiro turno das eleições. A MP foi editada um ano e meio após o início do funcionamento do mercado formal de bets, regulado pelo próprio governo para, segundo a gestão petista, “colocar ordem no caos” deixado pela gestão de Jair Bolsonaro (PL). O dia seguinte à assinatura da MP registrou mais de 1,6 mil novos sites ilegais, segundo o Estadão.

Quatro dias após a edição da MP, o governo federal afirmou ter pedido o bloqueio de 5.209 sites de apostas. Neste sábado (6/10), mesma data de criação da Vorcaro777, o governo anunciou ter solicitado o bloqueio de 13.241 sites ilegais desde 25 de setembro. Técnicos do governo apontam que grupos criminosos por trás das bets clandestinas conseguem substituir links derrubados de forma quase imediata.

A Vorcaro777 se enquadra no perfil das chamadas “bets chinesas”: plataformas lançadas a partir do exterior, que operam fora do alcance da fiscalização e não identificam seus responsáveis. Esses sites não exigem identificação do apostador, liberam registros com cadastros precários, não controlam tempo de tela e não divulgam informações sobre valores de premiações. O Estadão revelou em 2024 que esse tipo de plataforma comete fraudes contra beneficiários de programas sociais, roubando dados pessoais ou oferecendo ganhos em troca de documentos.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) avalia que o mercado ilegal tem sido impulsionado pela “inércia do governo federal no combate e à falta de concorrência do mercado legalizado”. O advogado Bernardo Freire, consultor jurídico da ANJL, disse que “o apostador continua jogando” e que “o único jeito consagrado no mundo de combater a ilegalidade é com a regulamentação, com o mercado regulamentado existindo e sendo fortalecido”. Freire concluiu que “um site desse mostra que o governo não está preparado para combater a ilegalidade”.

 


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