Documentário da LOTTOPAR mostra por que videoloteria não é caça-níquel

Loteria I 09.10.26

Por: Magno José

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Documentário da Lottopar mostra por que videoloteria não é caça-níquel
Produção da Loteria do Paraná ouviu o presidente do regulador de jogos de Nevada, laboratórios certificadores, a Polícia Científica do Paraná e empresários do Brasil e dos Estados Unidos. A diferença, segundo o filme, não está na aparência da máquina, mas na matemática, na certificação e na fiscalização do Estado

Para quem olha de fora, todas as máquinas de jogo parecem iguais. As luzes, os rolos, as cores e as animações se repetem num cassino de Las Vegas, num terminal lotérico regulado e num equipamento clandestino escondido no fundo de um bar. Desfazer essa confusão é o objetivo do documentário produzido pela Loteria do Estado do Paraná (Lottopar), que será lançado neste fim de semana com divulgação exclusiva do BNLData.

O filme compara o terminal de videoloteria (VLT, na sigla em inglês) com a máquina caça-níquel. Para isso, ouviu brasileiros e norte-americanos. Pela Lottopar, falam o presidente, Daniel Romanowski, e o colaborador Rodrigo Morosini. Pela fornecedora AGS, falam o CEO e presidente, David Lopez, Marcus Fortunato (vice-presidente para o Brasil), Drew Pawlack (vice-presidente para a América Latina) e o desenvolvedor Bruno Fortunato. Também participam dirigentes dos laboratórios GLI e BMM, a cúpula da Polícia Científica do Paraná, o presidente do Nevada Gaming Control Board, Mike Dreitzer, e empresários de Maryland e Minnesota, nos Estados Unidos, onde a modalidade é operada há décadas. No Brasil, o VLT é uma forma de loteria instantânea explorada pelas loterias estaduais dentro da legislação. O caça-níquel continua proibido e enquadrado como jogo de azar.

“No fim, a diferença nunca esteve apenas nas máquinas. Sempre esteve nas escolhas”, diz a narração no encerramento. “O Paraná fez a sua escolha.”

Raspadinha eletrônica, não cassino

O ponto central do documentário é a norma técnica GLI 14, adotada nos mercados de videoloteria dos Estados Unidos. Segundo Drew Pawlack, ela está presente em 27 estados norte-americanos. A AGS atua nesse mercado há mais de três décadas, em estados como Maryland, Ohio e Indiana, e está chegando a Dakota do Norte. Pela legislação brasileira, um jogo GLI 14 é uma loteria instantânea, ou seja, uma raspadinha eletrônica.

A lógica é a mesma do bilhete físico. A loteria imprime um lote fechado de bilhetes, todos com o resultado já definido, e sabe de antemão quanto vai arrecadar e quanto vai pagar em prêmios. No VLT, o lote é uma série numerada guardada num servidor central. “Uma vez colocada no servidor central, toda a série será jogada antes que uma nova comece. Não existe a possibilidade de um prêmio anunciado ao consumidor não sair”, explica Pawlack.

As máquinas de cassino seguem outra norma, a GLI 11. Nelas, cada jogada é um sorteio independente feito por um gerador de números aleatórios (RNG): o resultado não sai do conjunto de possibilidades, e as chances são sempre as mesmas. Na raspadinha eletrônica, ao contrário, o número de prêmios de cada série é fixo, e todos serão pagos até o fim dela.

Mackenzie Haugh, diretor de Operações da GLI, explica que uma máquina GLI 14 certificada passou por um processo rigoroso de testes. Já as máquinas não certificadas “podem não atender a um padrão mínimo e podem, na verdade, não ser justas com o jogador”.

Marcus Fortunato resume: “Muitas vezes nos prendemos às figuras, às imagens, às cores, às luzes do jogo. Mas, na realidade, o jogador está jogando matemática.” O que faz de um jogo uma loteria, segundo ele, é o que está por trás da tela: um servidor central que distribui resultados numerados em série, aprovados pela loteria, regulados pelo Estado e certificados por laboratório independente.

“Pode parecer um pato, mas não é um pato”

Mary Lanham, dona do Rod N’ Reel, em Maryland, conta como seu pai, Gerald Donovan, defendeu a modalidade na Suprema Corte. Alguém no tribunal disse que, se algo anda como um pato e se parece com um pato, é um pato. “E ele disse: ‘Não, não é’. Alguém levou a máquina ao tribunal e ele explicou por que ela pode parecer um pato, pode andar como um pato, mas não é um pato.”

O Rod N’ Reel é um negócio familiar fundado em 1946 com uma marina e um restaurante. Ganhou um bingo em 1979 e as videoloterias (VLTs) em 1995. Mary Lanham destaca a relação com a Comissão Lotérica de Maryland, que faz auditorias e inspeções periódicas e mantém um Programa de Exclusão Voluntária. A taxa cobrada sobre a operação, diz ela, foi repassada ao estado para escolas e ruas. “Isso nos ofereceu proteção, longevidade. Criou uma base sólida para o nosso negócio.”

Nathan Benefiel, gerente do Bingo World, também em Maryland, lembra o preconceito que enfrentava quando contava aos colegas de faculdade onde trabalhava. “As pessoas diziam: ‘Isso é legal?’. Ter a supervisão da Comissão do Estado nos tirou de qualquer possibilidade de mercado cinza e nos colocou em um mercado de negócios sólido.”

Gary Luckett, dono do Traders, é direto: “Não acredito que eu estaria aberto se não fosse pelas videoloterias (VLTs). Isso nos ajudou a sobreviver por 25 anos.”

A demonstração dos três recipientes

Um dos trechos mais didáticos do filme é a demonstração conduzida por Marcus Fortunato. Ele usa três recipientes, cada um com dez bolas: sete brancas (prêmio zero), duas rosa (prêmio dois) e uma azul (prêmio cinco). Com essa composição, a máquina devolve 90% ao jogador (o chamado RTP, return to player) e premia em 30% das jogadas.

Na máquina de cassino, a bola sorteada volta ao recipiente e as chances nunca mudam. Na  videoloteria (VLT), a bola sorteada é eliminada. O retorno total ao jogador continua o mesmo, mas a chance de tirar o prêmio máximo aumenta a cada jogada: passa de uma em dez para uma em nove, depois uma em oito, até o fim da série. “No jogo de sorteio finito, eu sei que vou ter um número X de ganhadores para uma quantidade Y de bolas. Na máquina de cassino, eu poderia ter uma sequência só de ganhadores ou só de perdedores”, resume Fortunato.

Na máquina ilegal, o operador anuncia RTP de 90%, frequência de 30% e um prêmio máximo de cinco. Depois retira a bola azul e coloca uma branca no lugar. Para manter a ilusão de que a máquina paga, troca ainda uma das bolas de valor dois. “O prêmio máximo só existe na propaganda. Ele não existe na máquina, e não há como ganhar”, diz Marcus Fortunato.

Para o jogador brasileiro, a orientação é simples. A máquina de cassino é chamada no filme de “unicórnio”, porque a legislação brasileira não a permite. Restam a videoloteria e a máquina ilegal, e para diferenciá-los não é preciso conhecimento técnico: basta procurar o equipamento homologado pela Lottopar. “Todos os resultados anunciados vão sair, dos prêmios zerados aos maiores. Está garantido e faz parte da lei.”

Laboratório abre o código-fonte

O documentário também mostra como funciona a certificação. Travis Foley, diretor executivo do laboratório BMM, explica que os técnicos jogam nas máquinas para conferir se os resultados pagam o que prometem. Além disso, analisam o código-fonte, para verificar o modelo matemático, os pagamentos e as probabilidades. “Garantimos que não existem decisões secundárias que possam se desviar da fórmula matemática prevista. Não há possibilidade de que, havendo um valor a ser pago, a máquina decida não pagar”, afirma.

Polícia Científica: caça-níqueis programados para não pagar

O filme trata o combate ao jogo ilegal como questão de segurança pública. “Não estamos falando de uma mera contravenção, de um jogo ilegal divertido. Estamos falando de uma organização bilionária cuja base é arrecadar dinheiro por meio do jogo ilegal”, afirma Luiz Rodrigo Grochocki, delegado-geral da Polícia Científica do Paraná. Segundo ele, o dinheiro tirado do apostador pode financiar outras frentes do crime organizado, como a compra de armas, o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. Ele também alerta os comerciantes: “Você está trazendo para dentro do seu estabelecimento uma organização criminosa.”

O perito Luiz Quadros, da mesma instituição, explica que as máquinas apreendidas passam por engenharia reversa do software, e a maioria desses programas tem a opção de ser configurada para não pagar prêmio nenhum, “apenas arrecadar”. Ele aponta três diferenças entre o caça-níquel e a videoloteria certificado:

⇒ Fabricação: o caça-níquel é fabricado clandestinamente. A videoloteria vem de fabricantes homologados e é testado em laboratório.

⇒ Retorno ao jogador: no caça-níquel, o operador define o RTP como quiser. Na videoloteria, o percentual é fixado em lei e regulamento.

⇒ Auditoria: no caça-níquel, ela não existe. Na videoloteria, todos os registros são invioláveis e acessíveis aos órgãos de fiscalização.

Nevada: “o custo real é a perda de confiança”

Mike Dreitzer preside o Nevada Gaming Control Board (Conselho de Controle de Jogos de Nevada), um dos reguladores de jogos mais influentes do mundo. Ele explica que, em Nevada, o jogo é uma “indústria de privilégio de licença”: ninguém tem direito a uma licença, e todos os candidatos passam por investigação completa. “Os inegociáveis são: que sejam pessoas íntegras, com visão de negócios, e que não haja nada no passado que traga preocupação, má reputação ou vergonha para o estado de Nevada.”

Para Dreitzer, “você não pode regular pela metade”. “Você tem que criar uma estrutura apropriada. Onde não há isso, acaba-se causando todo tipo de prejuízo social para as pessoas que são vitimizadas, que perdem seu dinheiro de forma injusta, que são vítimas de fraude.” E compara: “Se você quer operar uma barraquinha de limonada, não vai ter fricção. Mas, se quer estar na indústria de jogos, tem que seguir as regras.”

Sobre o jogo ilegal, ele afirma que “o custo real é a perda de confiança”. Nevada tem cerca de 3 mil licenciados, “do maior cassino à menor taverna ou loja de bebidas que tenha máquinas”, e o Conselho acaba de completar 70 anos. “Toda vez que um jogador pressiona esse botão para jogar, há confiança. E há 70 anos por trás disso.” Dreitzer lembra ainda a lei estadual que obriga a devolução dos lucros obtidos com jogos ilegais: “Você tem que acertá-los na carteira”. E conclui: “Jogos ilegais e máquinas ilegais corroem o nosso sistema, e temos de continuar a lutar contra isso.”

Minnesota: estádio da NFL pago antes do prazo

Em Minnesota, o filme conta como as raspadinhas eletrônicas em tablets, adotadas em 2012, viraram fonte de financiamento do estádio do Minnesota Vikings, da NFL. “Os títulos emitidos pelo estado para pagar o estádio foram quitados 20 anos antes do previsto, em 2022, depois de apenas dez anos”, conta John Weaver, presidente e CEO da Pilot Games. Para ele, a confiança do jogador não vem do selo de certificação: “Se você diz ‘certificado da GLI’ para um jogador, isso não significa nada para ele. A confiança vem de jogar, da experiência, e de saber que o governo está por trás dos jogos.”

Keith Franke é ao mesmo tempo prefeito e dono de bar com as máquinas. Ele conta que o impacto econômico no seu negócio foi “dez vezes maior” e que a receita destinada a instituições de caridade alivia a carga tributária do município. “Como prefeito, sou ainda mais feliz do que como dono de um negócio.”

PIX e a “última grande fronteira”

O modelo brasileiro de pagamento chama a atenção dos entrevistados estrangeiros. Drew Pawlack compara o sistema cashless do Paraná, baseado no PIX, com o modelo de cartões que a AGS opera no México, com cerca de 7 mil jogos. “Ver a quão rápida e transparente é a transação, para todos, do Banco Central ao operador, com todos os jogadores identificados, é estar literalmente anos-luz à frente de qualquer coisa feita no resto do mundo.”

Ele também elogia a operação paranaense: “O Brasil é um mercado emergente, ainda em evolução. Mas, no Paraná, a Lottopar licenciou um operador com um nível de profissionalismo que muitas vezes supera o mercado americano. O Paraná é um caso atípico.”

David Lopez, CEO e presidente da AGS, explica por que a empresa aposta no país. “Se queremos entrar num mercado, a primeira coisa é que ele precisa ser regulado. Tem que ter transparência, tem que ter algum tipo de fiscalização do governo”, afirma. Para ele, o potencial é único: “O Brasil é a última grande fronteira do mercado de jogos. Não há outra parte do mundo com essa importância, esse tamanho de população e esse apetite pelo entretenimento.”

Lottopar na vanguarda

Criada em 2022, a Lottopar regula, fiscaliza e opera o serviço lotérico no Paraná, abrangendo as modalidades de quota fixa, instantânea, prognóstico e passiva. “Nossa missão é regular, fiscalizar e operar o serviço lotérico no estado do Paraná, garantindo um mercado seguro e livre de fraudes”, afirma Daniel Romanowski, presidente da autarquia. Segundo ele, a Lottopar trabalha com laboratórios internacionais credenciados, como a GLI, e é associada à World Lottery Association (WLA) e à Corporação Ibero-Americana de Loterias e Apostas de Estado (CIBELAE), de cujo conselho diretor faz parte. “Essas associações garantem que a Lottopar esteja alinhada às melhores práticas de jogo seguro e de prevenção à lavagem de dinheiro”, diz. Parte da arrecadação vai para segurança pública, habitação popular e ações sociais. A Lottopar também mantém um programa de jogo responsável, com ações de conscientização para prevenir abusos, proteger menores e combater a ilegalidade.

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