Quanto vale o sonho de um brasileiro?

Você já parou para pensar em quantos brasileiros precisaram deixar o próprio país porque aqui não encontravam oportunidades de construir uma vida digna, estudar ou conquistar uma formação profissional?
Já pensou em quantos venderam o pouco que tinham, abriram mão da convivência com os filhos, deixaram pais envelhecendo, famílias esperando e atravessaram o oceano sem saber quando poderiam voltar?
Não foram embora porque queriam abandonar o Brasil. Foram embora porque sonhavam em voltar um dia, oferecer uma vida melhor às suas famílias e conquistar, com o próprio trabalho, a dignidade que não conseguiram encontrar em seu país.
Muitos passaram anos na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, estudando, trabalhando, aprendendo novas tecnologias e construindo uma carreira em um mercado que, durante muito tempo, não encontrava espaço regulado no Brasil e era tratado com preconceito e desconhecimento.
Enquanto outros acompanhavam de perto o crescimento dos filhos, eles precisavam acompanhar tudo por uma tela. Enquanto suas famílias celebravam aniversários, o Natal ou a chegada de um novo ano, eles estavam longe, trabalhando ou estudando. Enquanto seus pais envelheciam, eles alimentavam a esperança de construir um futuro que justificasse tantos anos de ausência.
E tudo isso sustentado por um sonho: um dia, o Brasil vai oferecer essa oportunidade. Vou poder voltar para casa, encontrar um emprego, abraçar minha família e viver dignamente no meu próprio país.
Então, o Brasil regulamentou o mercado, concedeu autorizações e estabeleceu as condições para o exercício legal da atividade.
Aquilo que parecia distante tornou-se possível. Surgiu a oportunidade de regressar, trabalhar legalmente, aproveitar o conhecimento adquirido, construir patrimônio, sustentar a família e, finalmente, viver no país onde nasceram.
Imagine o significado desse momento para quem passou anos longe de tudo o que amava. Imagine a emoção de desembarcar no Brasil, reencontrar os pais, abraçar os filhos e dizer à família: agora eu voltei. E, desta vez, é para ficar.
Agora, imagine o que significa ver essa perspectiva desaparecer, da noite para o dia, por força de uma medida provisória.
Senhores governantes, será que alguém pensou nessas pessoas antes de tomar essa decisão?
Não estamos falando apenas de empresas, licenças, impostos, plataformas de apostas ou milhões de reais.
Estamos falando de vidas. De famílias. De sacrifícios. De sonhos. De anos de ausência que ninguém poderá devolver. Estamos falando de pessoas que apostaram no próprio conhecimento, na força do estudo e do trabalho, não na sorte. Que investiram na própria formação, não em um bilhete premiado. Que acreditaram que estudar, trabalhar honestamente e adquirir experiência seriam suficientes para construir um futuro digno no Brasil, para si e para suas famílias.
O debate sobre as apostas é legítimo. Os riscos sociais precisam ser enfrentados. Mas nenhuma política pública pode ignorar as pessoas que organizaram suas vidas, fizeram investimentos e assumiram compromissos confiando nas oportunidades profissionais surgidas com a regulamentação estabelecida pelo próprio Estado.
Porque uma empresa pode encerrar uma operação. Um investidor pode redirecionar seu capital. Mas quem devolve a um pai os anos que passou longe dos filhos? Quem devolve a uma mãe os momentos que perdeu? Quem devolve a um profissional a esperança de finalmente ter encontrado seu lugar?
Quem vai olhar nos olhos dessas pessoas e explicar que todo aquele sacrifício, toda aquela saudade e todos aqueles anos longe de casa podem não ter sido suficientes?
O que mais dói não é simplesmente perder um emprego. É ter passado tantos anos tentando voltar para casa e descobrir que talvez seja preciso ir embora novamente.
É olhar para os filhos e não saber o que dizer. É olhar para os pais, agora mais velhos, e perceber que talvez seja necessário deixá-los outra vez. É ter de recomeçar quando se acreditava, finalmente, que os anos mais difíceis haviam ficado para trás.
E há uma pergunta que precisa chegar ao Governo Federal: Quantas vezes um brasileiro terá de abandonar sua família, deixar sua terra e recomeçar a própria vida para conseguir viver dignamente no país em que nasceu? Quantas vezes um partido político que se denomina defensor dos trabalhadores jogará trabalhadores na sarjeta por meio de uma medida provisória?
Antes de discutir apenas o destino das apostas, precisamos discutir o destino dessas pessoas.
Porque, por trás de cada CNPJ que encerra suas atividades, existem trabalhadores, famílias e histórias que não cabem em uma planilha de arrecadação. Pode existir um brasileiro que levou anos para conseguir voltar para casa e que, agora, não sabe se poderá ficar.
Ao Governo Federal, olhe para essas pessoas. Compreenda que, por trás de uma decisão eleitoral, existem seres humanos que confiaram neste governo e no próprio país para reconstruir suas vidas.
Não se trata de pedir privilégios. Trata-se de pedir respeito à segurança jurídica, ao trabalho, à dignidade humana e à confiança de quem acreditou nas regras estabelecidas pelo próprio Estado.
Como advogado, vou lutar por essas pessoas. Talvez eu nunca tenha conhecido pessoalmente muitas delas. Talvez jamais tenha ouvido suas histórias ou saiba quantas noites passaram longe de casa, quantas dificuldades enfrentaram ou quanto precisaram sacrificar para chegar até aqui.
Mas não preciso conhecer cada uma dessas histórias para compreender a dimensão dessa injustiça que denuncio.
São meus amigos. São pessoas dignas. São trabalhadores. São pais, mães, filhos e irmãos. São brasileiros que tiveram a coragem de sair pelo mundo em busca de oportunidades e que merecem ter o direito de construir seu futuro na própria terra.
E, enquanto houver caminhos jurídicos para defender seus direitos, estarei ao lado deles.
Porque nenhum brasileiro deveria precisar escolher, mais uma vez, entre permanecer em seu país e ter de sair dele por força de uma medida provisória.
(*) Joberto Porto é advogado, Diretor Jurídico da CDA Gaming, Lotese e Embralote


