Lula reclama da Globo, mas sabia quem perderia com a proibição das bets

Em ato de campanha em Ipatinga (MG), nesta sexta-feira (16), o presidente Lula atacou a Globo após o almoço de Flávio Bolsonaro com a direção do grupo, no dia da sabatina do candidato. Entre as razões que, segundo ele, explicariam a contrariedade da emissora, citou a MP que proibiu as apostas online: “Eu acabei com as bets e ela tinha a bet”. Em seguida, declarou a emissora sob suspeição de sua candidatura. A Globo respondeu que o encontro teve caráter institucional e que Lula também seria recebido se tivesse pedido.
O presidente está certo num ponto. O Grupo Globo é sócio da MGM Resorts na Boa Lion, joint venture que opera a BetMGM no Brasil com licença da Secretaria de Prêmios e Apostas desde fevereiro de 2025. Mas a frase revela algo maior: o governo sabia, antes de editar a MP, quem seria atingido pela proibição.
E a lista não se resume à Globo. Band e SBT também mantêm parcerias com operadoras de apostas, e suas afiliadas e repetidoras em todo o país perderam patrocínios e receita publicitária. Os clubes de futebol perderam seus patrocinadores máster, e o protesto de Flamengo e Fluminense no Fla-Flu mostrou que torcidas e dirigentes não aceitaram a medida em silêncio. Pesam ainda os milhares de trabalhadores diretos das operadoras e os prestadores de serviço da cadeia, e os milhões de apostadores recreativos que perderam a proteção do mercado regulado e passaram a ser empurrados para os sites ilegais.
Nada disso era imprevisível. O setor, os clubes e a imprensa especializada alertaram para o custo econômico e político da medida. Ao transformar a perda de um negócio em suspeita contra uma emissora, Lula admite o tamanho do estrago que preferiu ignorar quando decidiu usar a proibição das bets como bandeira de campanha.


