GLP-1: remédio para emagrecer pode reduzir compras e apostas impulsivas

Pesquisadores da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, vão investigar se medicamentos da classe GLP-1 podem reduzir comportamentos financeiros impulsivos, como apostas e compras compulsivas. A hipótese é que essas substâncias, popularmente conhecidas como canetas emagrecedoras, interfiram no sistema de recompensa do cérebro e alterem a forma como as pessoas tomam decisões de alto risco.
Conforme informações publicadas pela Globo Online com base em reportagem da emissora americana CBS, os efeitos dos GLP-1 podem ir além da perda de peso. Um número crescente de pesquisas já sugere que esses medicamentos, usados no tratamento da obesidade e de outras condições, produzem efeitos sobre o comportamento humano de forma mais ampla.
Metodologia do estudo
A equipe pretende recrutar cerca de 180 participantes para a pesquisa, conduzida no laboratório MindCORE da Universidade da Pensilvânia entre meados de outubro de 2026 e março de 2027. O estudo será financiado pela Noom, empresa de saúde digital.
Os voluntários responderão a perguntas sobre características demográficas, saúde mental e uso de medicamentos GLP-1 e realizarão exercícios cognitivos. Em seguida, serão submetidos a exames de ressonância magnética enquanto executam quatro tarefas; duas relacionadas à alimentação e duas a decisões financeiras.
Durante os exames, os pesquisadores vão monitorar a atividade cerebral para identificar como o sistema de recompensa responde a diferentes estímulos. As regiões analisadas incluem estruturas ligadas ao processamento de valor, recompensa e tomada de decisões, com participação de neurotransmissores como a dopamina.
Tarefas financeiras
Em uma das etapas, os participantes verão 14 imagens de produtos, serviços, experiências e oportunidades de gastos, incluindo o prêmio de uma loteria. As imagens não terão marcas ou logotipos reconhecíveis para evitar que a familiaridade com alguma empresa influencie as respostas. Segundo os pesquisadores, “a tarefa financeira passiva nos permite comparar as respostas a compras práticas, baseadas em necessidades, com recompensas mais discricionárias e voltadas para o prazer”.
Em outra etapa, os participantes escolherão entre opções financeiras com gratificação imediata ou postergada. Um exemplo é decidir entre receber US$ 20 imediatamente ou US$ 50 após dois meses. Michael Platt, neurocientista e professor da Wharton, descreveu a lógica da tarefa à CBS News; “É uma troca entre a gratificação imediata e obter algo que você sabe que tem um valor maior, mas que teria que esperar”.
Para garantir a autenticidade das respostas, os participantes precisarão cumprir uma das escolhas feitas durante o experimento. Quem optar por receber US$ 50 após dois meses, por exemplo, de fato aguardará o prazo para receber o valor. “Isso garante que você seja honesto e imparcial em relação às suas preferências. Você terá de arcar com as consequências da sua decisão”, afirmou Platt.
Impacto potencial
Caso a hipótese seja confirmada, os medicamentos poderiam ajudar algumas pessoas a controlar impulsos e priorizar objetivos financeiros de longo prazo, como economizar dinheiro. “Acreditamos que os GLP-1 levarão, em última análise, a alguma remodelação estrutural do cérebro, que é onde alguns desses impactos de longo prazo na escolha alimentar podem se manifestar, mas também na tomada de decisões financeiras”, disse Platt.
O pesquisador também apontou um benefício potencial para o cotidiano; “Pode ser muito bom financeiramente para a pessoa comum; talvez ela passe a poupar mais dinheiro”. Os resultados do estudo poderão indicar se a relação entre o uso dos GLP-1 e a redução de comportamentos impulsivos, como apostas e compras por impulso, de fato existe.


