Tema em discussão: Bingos
Não há atualmente argumento mais conclusivo contra a legalização do bingo no Brasil do que o escândalo Waldomiro Diniz. Provocado, como todos sabem, pela divulgação de uma conversa entre o então presidente da Loterj e um bicheiro, o caso confirma o velho ditado segundo o qual uma imagem vale mil palavras. A câmara oculta registrou com chocante clareza o que se passa quando ninguém está olhando.
Por trás da fachada de diversão inocente, os bingos escondem interesses escusos, disputas encarniçadas pelo controle de um negócio extremamente lucrativo e difícil de fiscalizar. Os interesses são tão poderosos, sua capacidade de contaminação é tão ampla e penetrante, que até a vida política do país está sujeita a sua influência deletéria.
Proprietários e jogadores naturalmente têm uma visão mais amena, quase romântica. Para os primeiros, a atividade é honesta; para os outros, é apenas uma diversão a mais.
Mas a sociedade não pode se dar ao luxo de fechar os olhos. Os ganhos fabulosos, que por si já deveriam servir de alerta para os freqüentadores, despertam, previsivelmente, os piores instintos. E, na zona de sombras entre o legal e o ilegal, vale tudo: mentir, subornar, matar. Para os de memória curta, lembre-se que há três anos um dos sócios do Bingo Arpoador foi assassinado no portão de sua casa em Búzios.
O argumento de que essa modalidade de jogo oferece empregos em época de desemprego crescente é indefensável: o tráfico e a prostituição também. Um dos mais hábeis disfarces do crime é justamente usar a máscara da inocência e da honestidade.
Outra OpiniãoFicha limpa.
Olavo Sales da Silveira*
As imensas fachadas cheias de luzes piscando em lojas situadas nas áreas mais nobres das cidades deixam claro que os bingos não querem fazer parte de um submundo e nem ficar à margem da economia regular do país.
De uma hora para outra, os bingos foram fechados e 120 mil empregos diretos — além de 200 mil indiretos — estão ameaçados se eles não reabrirem as portas rapidamente. As muitas propostas de regularização da atividade foram esquecidas, inclusive a que havia sido apresentada pelo governo, em meio a uma confusão política que fez dos bingos e seus funcionários as primeiras — e até agora únicas — vítimas.
Desde 1993 os bingos estão em funcionamento. São, portanto, 10 anos de convivência com a sociedade, proporcionando emprego, diversão e entretenimento aos brasileiros, com raríssimas reclamações registradas em Procons pelos clientes. Os bingos têm orgulho de pagar os prêmios.
Durante todo esse tempo, embora tão visíveis, os bingos convivem com insinuações de que estariam ligados à prostituição ou confundidos com a máfia dos caça-níqueis. Há também a acusação de que fariam parte de um esquema de lavagem de dinheiro.
São, portanto, 10 anos de investigações em que nada foi encontrado de irregular, nenhum dos 1.100 bingos existentes no Brasil jamais foi pilhado explorando ou acobertando prostituição. Igualmente, nunca foi provada qualquer ligação de nenhum dos bingos com máfias de caça-níqueis. Falou-se muito também na lavagem de dinheiro, que nunca foi nem nunca será comprovada.
Ao fechar os bingos, o governo agiu de forma precipitada. Encontrou numa atividade que emprega 320 mil brasileiros uma vítima para tentar conter uma crise que, injustamente, envolveu o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. É preciso lembrar que este mesmo governo é favorável à regulamentação dos bingos, conforme atesta mensagem enviada pelo Executivo ao Congresso Nacional, no último dia 17 de fevereiro.
Há um componente social que deve ser observado pelas autoridades federais que é a preservação de 320 mil postos de trabalho, principalmente num momento em que a economia enfrenta problemas e o desemprego aumenta em todo o país. Os trabalhadores do bingo não querem e não precisam entrar no fim dessa fila.
(*) Olavo Sales da Silveira é presidente da Associação Brasileira dos Bingos (Abrabin).
O Globo


