A espera do próximo ‘Cachoeira’…

BNL I 11.08.12

Por: sync

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Acompanhando o julgamento do Mensalão no Supremo Tribunal Federal fico refletindo como nossos atores políticos são hipócritas e dissimulados.

Desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder, além de não haver avanços na legislação do setor de jogos e loterias do país, o tema sempre foi tratado pelos parlamentares da legenda como um grande problema e que a legalização deste setor abriria caminho para sonegação fiscal, o tráfico de drogas e armas, além de criar um ambiente propício para a lavagem de dinheiro. Este passou a ser o discurso comum entre os integrantes do partido, inclusive alguns membros que estão sendo julgados pelo STF. De acusadores passaram a réus pelos crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, peculato, gestão fraudulenta e corrupção passiva. A defesa construiu uma saída política para o ‘Caixa 2’ com o belo nome de ‘recursos não contabilizados de campanha’.

Na verdade, com o Partido dos Trabalhadores no poder houve um grande retrocesso no setor, pois os bingos foram fechados e as entidades esportivas responsáveis pela formação de atletas perderam seus preciosos repasses. Tudo isto para preservar membros desta agremiação política depois do escândalo Waldomiro/Cachoeira.

Na área de loterias também não foi diferente, apenas dois produtos foram lançados neste período: a Lotofácil (setembro de 2003), modalidade copiada do finado Totobola e a Timemania (março de 2008), transformada num fracasso retumbante, apesar das pesquisas e estimativas irreais dos executivos do banco. Mas o maior desastre foi a internalização do sistema de captação de apostas, que recebeu o lindo nome de “novo modelo tecnológico e logístico do canal lotérico da Caixa”.

Depois de seis anos de operação o ‘novo modelo’ envelheceu e dá sinais de falência. As recentes manifestações dos lotéricos podem comprovar esta tese: várias paralisações ao longo do dia, com duração de 4 a 6 horas, jogos fantasmas que causam prejuízos aos empresários lotéricos (até o valor de R$ 10,00 o lotérico paga pela aposta e acima deste valor tem que estornar através do 0800), um Call Center (0800) que não funciona já que foi mal dimensionado, problemas na entrega dos insumos e bilhetes das loterias Federal e Instantânea, entre outras mazelas.

Enquanto praticamente todas as loterias do mundo terceirizam todo o processo, os sábios do PT e da Caixa decidiram fragmentar os serviços de guarda, transporte e distribuição dos suprimentos (volantes, bobinas e bilhetes das Loterias Federal e Instantânea), de telecomunicação e transmissão de dados, além da compra dos terminais lotéricos e financeiros. Já o serviço de processamento das loterias federais, incluindo apuração, rateio dos resultados e auditoria ficou sob a responsabilidade da própria Caixa.

A partir destas operações representantes do PT e da Caixa criaram o seguinte discurso ufanista: “com o novo modelo logístico e tecnológico, a Caixa assumiu integralmente a inteligência da operação de loterias e ganhou independência em relação à prestação de serviços e à gestão do negócio, deixando de depender de fornecedor único e livre de qualquer aprisionamento tecnológico”. Inclusive, este modelo chegou a ser apresentado como grande novidade no Congresso Anual da World Lottery Association – WLA, realizado em novembro de 2006, em Cingapura, através de um estande da Caixa Econômica Federal.

O Diário Oficial da União publica todos os dias resultados de licitações para instalação de novas lotéricas, mas a fornecedora da Caixa não tem terminais para entregar. Existem casos de empresários que investiram na concorrência e na montagem da loja e estão amargando prejuízos pela espera na instalação dos terminais lotéricos e financeiros.  

Infelizmente, o setor de jogos e loterias do Brasil não tem motivos para comemorar. Mas a maior indignação de quem trabalha para este setor é a omissão do poder público.

Em um trabalho inédito denominado ‘Estudo do Mercado do Jogo no Brasil’, que está saindo do forno e que foi produzido pela equipe do BNL, levantamos os valores arrecadados com os jogos ilegais operados no país. Anualmente, as apostas clandestinas movimentam mais de R$ 18 bilhões com o jogo do bicho, bingos, caça-níqueis, apostas na internet (esportivas, cassino bingo e pôquer). Portanto, o jogo ilegal no Brasil arrecada quase o dobro dos oficiais da União, das loterias estaduais e do turfe, sem nenhuma contrapartida destes recursos para o Estado e para a sociedade. Além disso, o país tem uma das legislações mais atrasada e antiquada na área de jogos e loterias do mundo. Com o jogo legalizado teríamos um potencial de arrecadação anual, apenas com tributos, de cerca de R$ 20 bilhões anuais.

Cremos que já esgotou este cenário de incompetência e hipocrisia na área de loterias e jogos no Brasil. Já passou da hora de enfrentar a questão e redefinir este modelo falido ou estaremos condenados a ficar brincando de ‘faz de conta’ a espera do próximo ‘Cachoeira’.

 

Magnho José é jornalista especializado em loterias e apostas, editor da revista eletrônica BNL e professor do curso de pós-graduação em Comunicação Empresarial da Universidade Candido Mendes (RJ)

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