Jockey Club do Paraná e Codere divulgam projeto internacional
Tendo como palco o Salão Bento Munhoz da Rocha Netto, situado no 2º andar do Hipódromo do Tarumã, um grupo de turfistas, criadores, proprietários, treinadores e cronistas de turfe assistiu na última 5ª feira a uma explanação das Diretorias do Jockey Club do Paraná e da empresa CODERE cujo escopo é um projeto de internacionalização que estaria sendo implantado em Curitiba imediatamente. Como estive presente, a pedido do Rizzon passo aos leitores do JT o que vi e ouvi naquele evento.
A apresentação durou cerca de 2 horas, e, apesar do calor insuportável (o ambiente – um dos mais elegantes do Jockey – necessita urgentemente de um sistema civilizado de ar-condicionado), foi bastante interessante, pois apresentou um novo horizonte para o Turfe Paranaense.
Está previsto, inicial e quase que imediatamente, um aumento no valor dos prêmios, e – tão ou mais importante – a garantia de que serão pagos em dia. A CODERE se responsabilizará tanto pela majoração quanto pelos pagamentos, o que é, certamente, a melhor notícia de curto prazo que se poderia desejar no Tarumã. Este item é a óbvia condição “sine qua non” para que o projeto como um todo funcione.
Em síntese, o plano apresentado se apóia em 3 pontos básicos: aumento do número de páreos e reuniões (para o que são necessários mais cavalos, que só virão com bons prêmios sendo pagos), adequação das corridas paranaenses aos padrões americanos (transmissão, segurança, totalização de apostas, modelos de jogos e de retrospecto, transparência, etc), e exportação/importação das imagens das corridas do Paraná para o exterior, e vice-versa. Trata-se do famoso “simulcasting internacional”. Deseja-se criar, em pouco tempo, um turfe de alto padrão, o que poderia beneficiar e fomentar muito não apenas as corridas, mas toda a indústria do cavalo no Paraná.
A CODERE se propôs a reconstruir as cercas das pistas do Tarumã com o material flexível e mais seguro adotado nos países adiantados, a adquirir novos equipamentos que finalmente possibilitem uma transmissão das corridas em HD (ufa!), e a instalar um totalizador que “converse” com os sistemas de apostas americanos. Faria ainda uma ampliação considerável no número de agências de apostas (“betting-points”) e necessitará, evidentemente, adaptar as linhas de retrospecto das nossas corridas ao modelo americano – que, diga-se de passagem, é muito mais completo e técnico que o nosso.
Um dos pontos-chave, e que sem dúvida seria primordial para que as corridas de Curitiba sejam bem-vindas nas agências de apostas e hipódromos estrangeiros, é o reconhecimento do Tarumã como hipódromo “credenciado” pela poderosa NTRA (National Thoroughbred Racing Association), entidade que monitora os hipódromos dos Estados Unidos. Eis aí um passo que já seria, se concretizado, de considerável importância para o Paraná, pois abriria paralelamente um novo mercado exportador para os nossos animais, entre outras vantagens.
Também fez parte da apresentação da CODERE uma mais do que necessária divulgação profissional e ampla do turfe, e não apenas o famoso marketing restrito ao hipódromo (dentro da Vila Hípica sabe-se de cor a data do GP Paraná, quando haverá corridas, como se aposta, etc). Também se propuseram a desenvolver tecnologias para o uso de canais remotos na captação de imagens e nas apostas, como é comum nos USA, Canadá e outros países. Assim, poderíamos ter um dia as nossas corridas acompanhadas ao vivo e em HD de smartphones, tablets ou iphones/ipods, com apostas, em qualquer lugar do planeta.
Mais prêmios, mais cavalos, mais espetáculo, mais divulgação, mais jogo. A conta não é complicada, e, no resto do mundo, ela sempre fecha. Se tivermos uma premiação maior e paga em dia, certamente o resto será conseqüência. Sempre segundo as explicações dadas, a CODERE não vai “bancar” o jogo do Tarumã, mas sim assessorá-lo técnica e profissionalmente e agenciar a exportação e importação de imagens para o mercado norte-americano e latino-americano.
Na maior parte do mundo em que o turfe dá certo, ou se tem o modelo francês, dependendo da vitalidade e pujança ímpares de empresas como a PMU com seus mais de 80 anos de tradição e 11.000 (isso mesmo, você leu certo: onze mil) betting-points, ou o modelo americano com “simulcasting” internacional e inúmeras opções de apostas para o turfista. Ou isto ou “slot-machines”, o que é uma impossibilidade no Brasil (nação seriíssima, à prova de corrupção, roubalheiras e jogatinas duvidosas como as de Las Vegas dos anos 60, e, portanto, justamente livre de cassinos e afins…).
Se o turfe vai bem aqui na América do Sul em países de economia e população muito inferiores que as nossas, e Argentina, Chile e Uruguai são excelentes exemplos, alguma coisa precisa ser feita no Brasil, que não pode, até por uma questão de obviedade, andar a reboque de seus irmãos menores neste aspecto. Lembrem que a população chilena é 10% da brasileira, e que o Uruguai inteiro é pouco maior que Curitiba, logo não dá pra entender que no Chile se jogue mais nas corridas do que aqui, ou que os movimentos de apostas de Maroñas sejam maiores que os nossos, muito menos que os prêmios na Argentina sejam quase o triplo dos brasileiros!
É provável que alguns achem tudo isto impossível, indevido, impraticável, e mais provável ainda que outros tenham ideias muito melhores e soluções mais criativas e lucrativas. Não podemos duvidar que realmente existam soluções melhores. Só que o fato é que tais alternativas ainda não foram apresentadas no Jockey Club do Paraná, e esta proposta pode representar uma saída para o Tarumã no momento particularmente complicado que vivemos, sem caixa para fazermos nós mesmos os investimentos necessários, começando como sempre pelo aumento e pagamento em dia dos prêmios, além de todas as melhorias supracitadas. Uma lástima. Para sermos bem francos, estamos, hoje, numa situação econômica que raramente produz bons negócios.
Ainda que tudo o que foi dito pela CODERE e pelos Diretores do Jockey Club do Paraná seja não apenas factível mas usual em inúmeros Hipódromos do mundo, não há mal algum em se ter certa cautela, pois nos últimos anos o que não faltou no nosso turfe foram notícias teoricamente maravilhosas que infelizmente não se concretizaram, aliado ao fato de não se saber, ainda, todos os detalhes e cláusulas do negócio proposto na última quinta-feira.
Em síntese, pelo menos uma questão se apresenta, e ela é bastante importante. Se a CODERE se dispõe a fazer todos estes investimentos e a gastar tanto dinheiro, evidentemente que espera algum retorno através das corridas locais, o que é muito bom. Significa que estudos foram feitos e levantamentos concluíram que transmitir as imagens do Tarumã para o exterior pode ser um bom e lucrativo negócio. Maravilha. Nenhuma empresa faria tudo isto pela beleza do Tarumã ou pela simpatia dos turfistas paranaenses. Obviamente a CODERE irá receber pelas apostas captadas lá fora sobre as imagens das corridas paranaenses, como também pelas apostas captadas no Paraná sobre as imagens das corridas estrangeiras. Mas qual será a contrapartida para o Tarumã? Sabe-se que usualmente os hipódromos que geram as corridas – ou seja, que produzem o espetáculo – recebem percentuais que giram de 4% a 6% sobre o total de apostas captado em suas corridas pelo mundo afora. E pagam algo similar sobre as apostas para os demais hipódromos que as enviam. Mesmo que (como seria justo) sejam deduzidos depois os gastos iniciais que a CODERE se propõe a fazer agora pelo Jockey Club do Paraná, seria fundamental saber quanto sobraria para o Tarumã depois. Como sabemos todos nós, não existe almoço grátis…
Seguimos aguardando para que o nosso “Esporte dos Reis” saia do marasmo e da mesmice em que se encontra há tanto tempo e encontre finalmente um caminho que efetivamente o leve pelo menos ao mesmo patamar de desenvolvimento de outros centros turfísticos modernos.
Ao fim e ao cabo de tudo, fica pelo menos a nítida impressão de que o turfe também é viável no Brasil. E quem está dizendo isso, claramente, são os estrangeiros! (Jornal do Turfe)


