Identificação de apostadores adictos e o papel dos profissionais financeiros nas operadoras de apostas

O conceito de vício tem evoluído ao longo do tempo. Inicialmente o vício era diretamente atrelado a substâncias químicas, como entorpecentes e remédios, porém com o passar do tempo comportamentos compulsivos não relacionados a substâncias, como jogo patológico, uso problemático de celulares e computadores e outros comportamentos que se assemelham a estes, foram também classificados como comportamentos de dependência.
Como definição, o conceito de vício pode ser definido como uma condição crônica e recorrente caracterizada por uma busca compulsiva por um comportamento ou substância, mesmo que essa busca cause prejuízos ao usuário. (American Psychiatric Association [APA], 2013). Segundo Goodman (2021), para a identificação de uma pessoa com comportamento aditivo os critérios a serem analisados são dificuldade persistente de controle, desejo intenso (craving), continuidade do comportamento mesmo após prejuízos ao indivíduo, além de sintomas de abstinência em caso de interrupção do uso.
Quando tratamos o vício em jogos e o comparamos com os vícios em substâncias psicoativas, reside principalmente na natureza do estímulo reforçador e nas alterações neurobiológicas envolvidas. O vício em jogos ocorre sem a introdução de substâncias externas, sendo mediado por um sistema de recompensas psicológicas, como a excitação e a gratificação social. (Griffiths, 2005; Kuss & Griffiths, 2012)
Embora compartilhem mecanismos neuropsicológicos semelhantes como o envolvimento de dopaminérgico de recompensa, os vícios comportamentais apresentam desafios diagnósticos distintos, especialmente no que diz respeito a limites entre uso recreativo, uso excessivo e comportamentos patológicos, por isso a compreensão dessas diferenças é essencial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenções eficazes. (Brand et al., 2019).
Diante do desafio apresentado na identificação de jogadores adictos em jogos e apostas, a identificação prévia desses comportamentos se torna um aliado na luta contra os vícios. Segundo Griffiths (2005), um dos principais critérios do modelo dos “componentes do vício” é o uso saliente e a repetição compulsiva do comportamento, características essas que podem ser identificadas pela frequência de ganhos do apostador e volume de compras. Por todas as características apresentadas, o especialista financeiro responsável pelos pagamentos da companhia ocupa posição estratégica na identificação precoce de apostadores com comportamentos compulsivos.
Com acesso direto ao histórico transacional dos usuários, esses profissionais conseguem observar padrões atípicos de movimentação financeira que sugerem descontrole emocional e perda de autorregulação (Griffiths, 2005; Auer & Griffiths, 2015). Os principais sinais que podem ser identificados pelo especialista em questão são solicitações frequentes e urgentes de saques, aumento súbito no volume de apostas seguidas de atividades intensas de retiradas de valores e premiações recorrentes para os mesmos usuários, que não se convertem em pausas ou retiradas dos ganhos, mas sim em novas apostas compulsivas (Griffiths, 2005; Auer & Griffiths, 2015).
Cabe ao especialista não apenas identificar tais padrões, mas também encaminhar para o setor interno responsável por políticas de jogo responsável, que deve aplicar medidas preventivas e restritivas, conforme previsto na portaria SPA/MF nº 1.231/2024. O processo de conciliação e revisão das compras de bilhetes, análise dos pagamentos de prêmios e a manutenção de um banco de dados completo e atualizado sobre as transações de cada apostador são atividades essenciais não apenas para fins operacionais e contábeis, mas também para detecção de risco comportamental (Pontes & Griffiths, 2015). O analista financeiro, ao identificar inconsistências entre o padrão de renda e o volume de apostas, ou mesmo a frequência de solicitações de aumento de limites de depósito, pode atuar como um agente de intervenção inicial, funcionando como elo entre o comportamento financeiro e a saúde mental do jogador.
A literatura especializada já reconhece que o uso de dados financeiros e comportamentais integrados é uma das ferramentas mais eficazes na prevenção do jogo problemático (Brand et al., 2019; King & Delfabbro, 2018). Com o crescimento do mercado de apostas no Brasil e no mundo, torna-se primordial a adoção de estratégias eficazes para a prevenção e enfrentamento ao comportamento adicto relacionado aos jogos.
Este artigo evidencia que o vício em apostas não se restringe a aspectos psicológicos, mas envolve também padrões financeiros observáveis. Para o gerenciamento e controle desses comportamentos o profissional especialista financeiro desempenha um papel estratégico ao acessar dados que revelam alterações comportamentais de apostadores. O arcabouço normativo brasileiro, especialmente por meio da portaria SPA/MF nº 1.231/2024 impõe às empresas de jogos a responsabilidade ética e legal de implementar medidas de proteção aos jogadores, reforçando a necessidade de integração entre as Áreas financeira e psicossocial. A atuação preventiva e colaborativa entre os setores da empresa tem potencial de reduzir significativamente os danos causados pelo jogo compulsivo, promovendo um ambiente saudável e sustentável.
Conclui-se, portanto, que o enfrentamento ao vício em apostas demanda, além de políticas públicas bem estruturadas, o comprometimento efetivo das companhias que operam no setor de jogos e apostas. Esse comprometimento deve se traduzir na adoção de iniciativas concretas de identificação de comportamentos adictos, por meio do uso de ferramentas financeiras, análise de padrões de jogo e atuação integrada entre áreas técnicas e operacionais. Mais do que identificar, é essencial que essas empresas intervenham de forma responsável e encaminhem os usuários em situação de risco para os recursos de apoio adequados, zelando pela proteção de sua saúde mental, emocional e financeira.
(*) Rafael Delabrida Fernandes da Silva é analista financeiro e de controladoria no Consórcio Mineira da Sorte Loteria
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Referências:
- American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed.). Arlington, VA: American Psychiatric Publishing. • Goodman, A. (2001). What’s in a name? Terminology for designating a syndrome of driven behavior. Journal of sexual & Marital Therapy, 27(3), 245–260.
- Griffiths, M. D. (2005). A ‘components’ model of addiction within a biopsychosocial framework. Journal of Substance Use, 10(4), 191–197.
- Brand, M., Young, K. S., Laier, C., Wölfling, K., & Potenza, M. N. (2019). Integrating psychological and neurobiological considerations regarding the development and maintenance of specific Internet-use disorders: An Interaction of Person-Affect-Cognition- Execution (I-PACE) model. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 71, 252-266.
- Griffiths, M. D. (2005). A ‘components’ model of addiction within a biopsychosocial framework. Journal of Substance Use, 10(4), 191–197.
- Auer, M., & Griffiths, M. D. (2015). Testing normative and non-normative markers of gambling-related harm using player tracking data. Journal of Gambling Studies, 31(4), 923– 939
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MSL – Consórcio Mineira da Sorte Loteria
Fruto de um consórcio entre os dois principais fornecedores globais de loteria, a IGT e a Scientific Games, com mais de 35 anos de experiência e estrutura para operar sistemas lotéricos em mais de 100 países, o MSL conta também com a expertise da empresa nacional da SAGA BGI. O segmento segue em expansão em outros mercados do mundo. Na Itália, a IGT e SG lançaram uma loteria nacional de bilhetes instantâneos em 2004 e aumentaram as vendas de aproximadamente US$ 400 milhões (quatrocentos milhões de dólares) para mais de US$ 11 bilhões (onze bilhões de dólares). Em Nova Jersey (EUA), IGT e SG administram conjuntamente a loteria desde 2013 e tiveram um aumento nas vendas anuais em 20%, desde o início do contrato.


