Nativos americanos jogavam com dados de osso há 12 mil anos, revela estudo

Blog do Editor I 06.04.26

Por: Magno José

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Nativos americanos jogavam com dados de osso há 12 mil anos, revela estudo
Pesquisa do arqueólogo Robert Madden da Universidade Estadual do Colorado identificou mais de 600 artefatos em Wyoming, Colorado e Novo México que datam entre 12.800 e 12.200 anos atrás, recuando origem dos jogos em 6,5 mil anos (Foto: Robert Madden )

A Universidade Estadual do Colorado divulgou estudo que identifica prática de apostas entre nativos americanos no fim da última glaciação. O arqueólogo Robert Madden catalogou mais de 600 artefatos que funcionavam como dados binários em 57 sítios do período Folsom. A pesquisa foi publicada nesta quinta-feira (2) na revista American Antiquity.

Os objetos analisados datam entre 12.800 e 12.200 anos atrás. Eles foram encontrados em regiões que hoje correspondem aos estados de Wyoming, Colorado e Novo México. Conforme reportado pela Revista Galileu, a descoberta representa um marco significativo na compreensão das práticas culturais dos povos ameríndios, revelando aspectos sofisticados de suas interações sociais em períodos remotos da pré-história.

Artefatos de osso geravam resultados aleatórios

Os dados identificados são peças de osso trabalhadas com duas faces distintas. Esses exemplares eram pequenos, planos ou levemente arredondados, frequentemente ovais. As faces apresentavam diferenciação por marcas ou tratamentos de superfície.

O funcionamento dos objetos produzia resultado binário, similar ao sistema de “cara ou coroa”. Quando utilizados em conjunto, permitiam sistemas de pontuação baseados na quantidade de faces específicas voltadas para cima.

A catalogação abrangeu diferentes culturas e modos de vida ao longo da pré-história norte-americana. A distribuição geográfica dos achados evidencia a amplitude dessa prática cultural entre grupos de caçadores-coletores.

Metodologia permitiu reinterpretação de materiais conhecidos

Madden desenvolveu teste específico aplicado a centenas de peças previamente catalogadas. Esse método possibilitou reconhecer padrões que anteriormente não haviam sido identificados por gerações de arqueólogos.

“Na maioria dos casos, esses objetos já haviam sido escavados e publicados”, observa o especialista. “O que faltava não eram as evidências, mas sim um padrão claro e abrangente em todo o continente para reconhecer o que estávamos analisando.”

A ausência de estrutura interpretativa adequada impediu a compreensão da função desses artefatos. A nova abordagem metodológica permitiu reinterpretar materiais já conhecidos sob perspectiva diferente.

Cronologia recua origem dos jogos em 6,5 mil anos

A cronologia anteriormente aceita situava o surgimento dessas práticas há cerca de 5,5 mil anos. As novas evidências recuam essa origem para pelo menos 12 mil anos atrás.

O estudo demonstra que o uso desses objetos formou tradição cultural contínua. Essa prática atravessou milênios, desde o Pleistoceno Superior até períodos posteriores ao contato europeu.

“Os historiadores tradicionalmente tratam os dados e a probabilidade como inovações do Velho Mundo”, afirma Madden, em comunicado. “Mas o que o nosso registro arqueológico mostra é que antigos grupos nativos americanos estavam deliberadamente criando objetos projetados para produzir resultados aleatórios e usando esses resultados em jogos estruturados muito antes.”

Jogos funcionavam como tecnologias sociais

Os jogos de azar desempenhavam funções sociais relevantes além do entretenimento. “As apostas criaram espaços neutros e regidos por regras para os antigos nativos americanos”, relata Madden. “Eles permitiam que pessoas de diferentes grupos interagissem, trocassem bens e informações, formassem alianças e lidassem com a incerteza”.

Relatos etnográficos mais recentes corroboram essa interpretação, destaca a revista Scientific American. Observadores europeus descreveram as partidas de jogos como eventos coletivos, muitas vezes barulhentas, com regras complexas e forte engajamento comunitário.

Sobre as características dos artefatos, o arqueólogo aponta: “São ferramentas simples e elegantes, mas também são inegavelmente funcionais. Não são subprodutos casuais do trabalho com ossos. Foram feitas para gerar resultados aleatórios”.

Descoberta impacta história da probabilidade

A descoberta possui repercussões que ultrapassam o campo arqueológico. Historicamente, os jogos de dados são reconhecidos como o primeiro contato sistemático da humanidade com o conceito de acaso. Essa prática representa precursor do desenvolvimento da teoria da probabilidade e da estatística.

“Essas descobertas não afirmam que os caçadores-coletores da Era do Gelo estavam aplicando teoria formal de probabilidade”, pondera Madden. “Mas eles estavam intencionalmente criando, observando e se baseando em resultados aleatórios de maneiras repetíveis e regidas por regras, que aproveitavam regularidades probabilísticas, como a lei dos grandes números.”

 

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