Nove dias após proibir as bets, Lula chega às urnas sem ganho nas pesquisas e atrás no mercado de previsão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega ao primeiro turno das eleições, neste domingo (4), nove dias depois de editar a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa no país, sem que a iniciativa tenha se convertido em votos. As últimas pesquisas Quaest e Datafolha, divulgadas no sábado (3), mostram o petista estacionado, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) avançou na reta final. No mercado de previsão Polymarket, a distância a favor do adversário é a maior da campanha.
A proibição foi anunciada em 25 de setembro e adotada como mote da última semana de campanha. O cálculo do Planalto era que o tema, popular entre mulheres e evangélicos, ampliaria o alcance de Lula sobre segmentos em que Flávio leva vantagem. Os números da véspera indicam que isso não aconteceu.
O que mostram as pesquisas
Na Quaest, a simulação de segundo turno traz Flávio Bolsonaro com 44% (eram 42%) e Lula com 42% (eram 42%). Brancos, nulos e quem não vai votar somam 13%, mesmo índice da rodada anterior, e os indecisos caíram de 3% para 1%. É empate técnico, mas com o senador de volta à frente numericamente.
No primeiro turno, em votos totais, Lula oscilou de 39% para 40% e Flávio subiu de 34% para 38%. Em votos válidos, o placar é de 46% a 45%.
No Datafolha, Lula aparece com 47% (eram 48% em 1º de outubro) e Flávio com 46% (eram 45%) no segundo turno. Brancos e nulos ficaram em 6% e os indecisos passaram de 1% para 2%.
Em ambos os institutos, portanto, o presidente não cresceu no segundo turno desde a edição da MP.
Apoio à proibição não virou voto
O dado chama atenção porque a medida é majoritariamente aprovada. Pesquisa Datafolha divulgada em 1º de outubro mostrou 78% dos eleitores favoráveis à proibição das apostas on-line, 18% contrários e 4% sem opinião. O apoio chega a 82% entre as mulheres e a 81% entre os evangélicos. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 70% apoiam a proibição.
Ou seja: sete em cada dez eleitores do senador concordam com a medida de Lula, e mesmo assim não mudaram de candidato. A proibição teve adesão como política pública, mas não funcionou como argumento eleitoral.
Quaest atribui alta de Flávio ao voto útil
Nenhum dos dois institutos relaciona o movimento da reta final às bets. Para Felipe Nunes, diretor da Quaest, a explicação é a migração de eleitores de outras candidaturas de direita. “É verdade que Lula até oscila um ponto, mas o movimento que a gente captura é um movimento de voto útil de direita”, disse à GloboNews.
Segundo a pesquisa, 60% dos eleitores de Renan Santos (Missão), 43% dos de Ronaldo Caiado (PSD) e 34% dos de Augusto Cury (Avante) votariam em Flávio em um segundo turno contra Lula. Nunes afirmou que não se surpreenderia se o senador terminasse o primeiro turno numericamente à frente.
Não há, até aqui, cruzamento público entre a opinião sobre a proibição e a mudança de voto. A hipótese de que a MP tenha mobilizado contra o governo os 18% contrários à medida, entre eles apostadores e torcedores de clubes afetados pelo fim dos patrocínios, permanece sem medição.
Mercado de previsão amplia vantagem do senador
Na Polymarket, às 10h45 deste domingo, Flávio Bolsonaro tinha 63% de probabilidade de vencer a eleição, contra 38% de Lula, com volume acumulado de cerca de US$ 165,3 milhões. Na noite de sábado, a plataforma chegou a registrar 64% a 36%, a maior diferença da campanha. Em 1º de outubro, eram 62% a 37%.
A virada do senador nesse mercado, porém, é anterior à MP: ocorreu no começo de setembro.
Os percentuais não são pesquisa eleitoral nem intenção de voto, e devem ser lidos com cautela. Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que as próprias plataformas reconhecem distorção nas projeções brasileiras: os mercados de previsão foram proibidos no país em abril, o volume apostado na eleição brasileira equivale a 4,5% do registrado na disputa entre Donald Trump e Kamala Harris em 2024, e a média diária de transações na Polymarket caiu 89,6% após o veto. O professor Glauco Peres, da USP, avalia que as plataformas não comprovaram seu poder de predição em estudos independentes.
Efeito inverso segue como hipótese
O balanço da véspera permite uma afirmação e deixa uma pergunta. A afirmação: a proibição das bets, tratada pelo governo como trunfo da reta final, não alterou a posição de Lula nas duas principais pesquisas do país. A pergunta, que só as urnas e os dados detalhados da apuração poderão responder, é se a medida, além de não ajudar, atrapalhou.


