R$ 1,3 bilhão não foi reclamado nas bets: 86 milhões de contas têm menos de R$ 1 de saldo

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, apresentou nesta terça-feira (6) um novo balanço da proibição das apostas de quota fixa. Segundo ele, foi o primeiro dia sem nenhum site legalmente autorizado a operar no país, com os 188 endereços antes habilitados fora do ar. O informe divulgado pela própria pasta, porém, registra que um dos 188 sites continuava em funcionamento e que o bloqueio já havia sido solicitado.
Saldo retido
O prazo para a retirada voluntária dos recursos terminou às 23h59 de segunda-feira (5). Segundo o boletim da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), R$ 1,325 bilhão ainda aguarda devolução a cerca de 26,5 milhões de apostadores. O cronograma é o seguinte:
⇒ até 7 de outubro: as empresas encaminham aos bancos o saldo de cada apostador, por CPF, e a conta bancária usada para os depósitos;
⇒ de 9 a 14 de outubro: as instituições financeiras fazem a devolução;
⇒ a partir de 14 de outubro: os valores cuja restituição encontrar impedimento são transferidos à Caixa, que fica responsável pelo pagamento.
Durigan destacou a concentração do saldo: 1% dos apostadores, cerca de 200 mil pessoas, detém 80% do valor pendente, e 3,4% respondem por 90%. O informe oficial mostra o outro lado dessa conta: 86,2 milhões de contas têm entre R$ 0,01 e R$ 0,99, somando R$ 15,5 milhões. Os 20% do saldo que não estão com o grupo de 1%, cerca de R$ 265 milhões, divididos entre mais de 26 milhões de pessoas, dão em torno de R$ 10 por apostador.
Os números descrevem um público majoritariamente recreativo, com valores residuais nas plataformas, e não o retrato de famílias com a poupança presa nas casas de apostas.
Há ainda uma inconsistência aritmética na fala do ministro. Se 200 mil apostadores equivalem a 1% do total, a base seria de 20 milhões de pessoas, e não de 26,5 milhões.
“Poupança popular”
A frase de maior impacto do ministro foi a de que entre R$ 600 milhões e R$ 650 milhões por dia saíam da poupança popular para as bets e que esse dinheiro passa a ficar com as famílias. Na sexta-feira (2), o valor citado por ele era de R$ 600 milhões, com base em dados do Banco Central sobre transferências para contas de casas de apostas.
O número mede depósitos, não perdas. A maior parte do que o apostador deposita retorna a ele na forma de prêmios. O que fica com os operadores é o GGR (receita bruta de jogo), que, segundo dados da própria Fazenda obtidos pelo BNLData via Lei de Acesso à Informação, somou R$ 36,9 bilhões em 2025 e R$ 20,07 bilhões no primeiro semestre de 2026. Isso equivale a cerca de R$ 101 milhões por dia em 2025 e R$ 111 milhões por dia neste ano, aproximadamente um sexto do valor apresentado pelo ministro como dinheiro que “saía” das famílias.
Bloqueios e números divergentes
Durigan afirmou que a Anatel bloqueou 11.740 sites ilegais. O informe da Fazenda fala em 13.241 sites encaminhados para bloqueio pelo Ciberlab/Senasp, do Ministério da Justiça, e pela SPA entre 25 de setembro e 6 de outubro, média de 1.103 por dia. A diferença indica que cerca de 1.500 endereços já denunciados ainda não haviam sido derrubados.
Nas redes sociais, o ministro citou 3.489 páginas, perfis e grupos com pedido de remoção. O informe contabiliza 3.552: 1.974 páginas no Facebook, 560 perfis no Instagram, 900 canais e grupos no Telegram, 103 perfis no TikTok, 14 grupos no WhatsApp e um servidor no Discord.
O ministro disse também que esse conjunto impactava 17,2 milhões de usuários e seguidores. O informe é mais cauteloso: o número se refere apenas a Telegram, TikTok, WhatsApp e Discord e pode incluir uma mesma pessoa em mais de um espaço.
O volume de bloqueios reforça o alerta feito pelo setor desde a edição da MP 1.394: a proibição retirou do ar os sites que pagavam outorga, recolhiam tributos e identificavam apostadores por CPF, enquanto a oferta ilegal se renova a um ritmo superior a mil endereços por dia.
Contas investigadas
Cerca de 40 contas com saldos acima de R$ 500 mil e de R$ 1 milhão foram encaminhadas ao Ministério da Justiça e à Polícia Federal para apuração de eventual lavagem de dinheiro. Na sexta-feira, o ministro havia falado em 48 contas e ressalvado que nem todas seriam necessariamente casos de lavagem. Vale registrar que essas contas só são identificáveis porque estavam em operadores regulados, sujeitos a regras de prevenção à lavagem de dinheiro.
Big techs
Durigan cobrou que as grandes empresas de tecnologia passem a remover conteúdos ilícitos de forma proativa, sem depender de demanda do governo ou da Justiça.
Contexto
Em junho, o mesmo Durigan avaliava que uma eventual proibição das bets poderia ser prejudicial por estimular e ampliar o mercado ilícito. A MP 1.394 ainda precisa ser aprovada pelo Congresso e é alvo de ações no STF, sob relatoria do ministro Luiz Fux.


