MP das Bets recebe 97 emendas, e Congresso já desenha alternativas à proibição total

Apostas I 14.10.26

Por: Magno José

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MP das bets deve sair nesta sexta; Lula promete "Se preparem" enquanto ministros dizem que tema segue em avaliação
Propostas de 24 parlamentares vão da reabertura do mercado regulado ao endurecimento das regras. Até um dos senadores mais rigorosos escreveu emendas para o caso de as apostas voltarem

O prazo para apresentar emendas à Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe as apostas de quota fixa no Brasil, terminou às 23h59 de terça-feira (13). Ao todo, 24 parlamentares, sendo 18 deputados e 6 senadores, apresentaram 97 emendas. Cinco foram retiradas pelos próprios autores, e 92 seguem para a análise da comissão mista.

O prazo regimental terminaria seis dias depois da publicação da MP, em 25 de setembro. A Mesa do Congresso o prorrogou para depois do primeiro turno das eleições, invocando o “princípio da participação plena e igualitária dos parlamentares em todas as atividades legislativas”. O último dia concentrou o maior volume: 38 das 97 emendas foram protocoladas em 13 de outubro.

O levantamento do BNLData nos textos das emendas mostra que o Congresso não discute se vai mudar a MP, e sim quanto vai mudar. As propostas se organizam em cinco linhas.

Reabrir o mercado regulado

O texto mais completo é o do deputado Mauricio Neves (PP-SP). A emenda 64 é um substitutivo integral, e as emendas 61 a 63 a complementam. A proposta restabelece as autorizações extintas pela MP, com o prazo acrescido do período de interrupção, e troca a proibição por uma regulação mais dura que a da Lei nº 14.790/2023:

⇒ publicidade restrita à marca;

⇒ regras de design responsável para os jogos online;

⇒ obrigação de identificar apostadores com gasto incompatível com a renda;

⇒ registro obrigatório dos fornecedores de tecnologia;

⇒ remoção de anúncios ilegais em até 48 horas;

Taxa de Fiscalização destinada integralmente à fiscalização do setor.

A justificativa sustenta que a demanda por apostas não desaparece com a proibição: “migra para operadores que não cumprem exigências de identificação, proteção de menores e prevenção à lavagem de dinheiro”. A emenda 63 também preserva as loterias estaduais e restabelece as outorgas extintas.

Seguem a mesma linha:

⇒ Bebeto (PP-RJ), emendas 43 e 59. Limitam as vedações ao mercado ilegal. A justificativa estima que cerca de 44% das apostas já ocorrem em plataformas clandestinas.

⇒ Átila Lira (PP-PI), emenda 77, e Capitão Alden (PL-BA), emenda 69. Mantêm válidas as autorizações até o fim do prazo original.

⇒ Capitão Alden, emendas 51 a 53. Permitem aos operadores autorizados explorar tanto as apostas esportivas quanto os jogos virtuais, estes sob regras de “design seguro”.

Proibir cassino, manter as apostas esportivas

A corrente mais numerosa defende separar as modalidades. É a mesma posição pública do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência.

⇒ Senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), emenda 15. Proíbe cassinos e jogos virtuais e restabelece as autorizações das apostas esportivas.

⇒ Senador Dr. Hiran (PP-RR), emenda 38. Admite apenas apostas em “eventos reais de temática esportiva”. Restringe o patrocínio à marca no uniforme e veda pessoas, avatares e vozes geradas por inteligência artificial na publicidade de rádio e TV.

⇒ Pedro Aihara (PP-MG), emenda 14, e Julio Lopes (PP-RJ), emenda 16. Vedam apenas os jogos de slot, como o “tigrinho”. Argumentam que a extinção das autorizações vigentes afronta o ato jurídico perfeito e o direito adquirido.

⇒ Marcos Braz (PSDB-RJ), emenda 10. Proíbe slots e também apostas em lances individuais, como cartões, escanteios e pênaltis, para proteger a integridade das competições. Mantém as apostas em resultados e placares.

O senador Romário (sem partido-RJ) apresentou uma emenda que permitia apostas apenas sobre o resultado final e o saldo de gols. Ele a retirou no último dia do prazo.

Endurecer, mas preparar a volta

O senador Sargento Reginauro (PSDB-CE) apresentou 16 emendas, todas no último dia. A emenda 86 torna permanente, em lei, a proibição de cassinos e jogos online, para que uma futura reabertura não o alcance por ato administrativo.

As demais, porém, valem expressamente “se o Congresso readmitir” alguma modalidade. Nesse caso, propõem:

⇒ vedar apostas e depósitos entre 22h e 5h;

⇒ proibir apostas ao vivo, apostas em lances individuais e o cash out;

⇒ impor limites de sessão e protocolos de risco;

⇒ exigir verificação da capacidade financeira do apostador;

⇒ impedir, por dez anos, nova autorização para empresas sancionadas.

Até um dos parlamentares mais rígidos do debate, portanto, legisla para o dia seguinte à reabertura.

Também endurecem a MP:

⇒ Julio Arcoverde (PP-PI), emenda 29. Prevê a extinção das autorizações sem devolução da outorga e sem indenização.

⇒ Beto Preto (PSD-PR), emendas 1, 3 e 4. A emenda 1 eleva para R$ 500 mil a multa diária do operador que descumprir as regras de encerramento. As emendas 3 e 4 acabam com as promoções com distribuição de prêmios feitas por emissoras de rádio e TV.

⇒ Hildo Rocha (MDB-MA), emenda 60. Estende a vedação e a fiscalização aos municípios.

Outorga, clubes e estoques

A questão financeira das empresas aparece em lados opostos. A emenda 66, do Capitão Alden, prevê a restituição proporcional da outorga, corrigida pela Selic. Cada licença custou R$ 30 milhões por cinco anos. A emenda 29, de Arcoverde, nega qualquer devolução.

Para os clubes, a principal proposta é a emenda 11, de Marcos Braz. Ela permite que as marcas de patrocinadores autorizados continuem em uniformes e arenas até o fim da temporada, por no máximo 24 meses.

Outras propostas tratam do que já foi produzido. Julio Lopes (emenda 17) e Capitão Alden (emenda 50) preservam conteúdos publicados antes da MP e autorizam a venda dos estoques de camisas com marcas de apostas até o esgotamento. A justificativa da emenda 50 menciona cerca de 100 mil camisas.

Bebeto (emendas 45 e 46) admite publicidade para operadores autorizados, mas proíbe novos contratos de naming rights de estádios e competições.

A disputa por um dinheiro incerto

A MP manda para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) os valores declarados perdidos de operadores irregulares. Nove emendas querem dividir esse recurso:

⇒ Bruno Ganem (Podemos-SP): SUS, para o tratamento da ludopatia.

⇒ Marcos Braz: 20% para o Fundo Nacional de Saúde.

⇒ Alessandro Vieira (MDB-SE): Fundo Nacional de Saúde.

⇒ Capitão Alden: em uma emenda, tudo para o Fundo Nacional de Saúde; em outra, divisão de 70% e 30% entre o FNSP e a saúde.

⇒ Julio Cesar Ribeiro (Republicanos-DF): 40% segurança, 40% saúde e 20% esporte.

⇒ Bibo Nunes (PL-RS): um terço para a oncologia pediátrica.

A justificativa de Bibo Nunes reconhece que essa receita só existirá se a fiscalização for eficaz.

Há ainda emendas que só fazem sentido se o mercado voltar a funcionar. A emenda 44, de Bebeto, tira bônus e rodadas grátis da base de cálculo das destinações sociais. As emendas 80 e 81, de Átila Lira, redistribuem o repasse social para saúde, segurança e esporte e criam um sistema nacional de recolhimento para as entidades esportivas.

No campo da saúde:

⇒ Tabata Amaral (PSB-SP) propõe uma linha de cuidado no SUS para pessoas com problemas relacionados a apostas.

⇒ Ana Paula Lima (PT-SC) propõe apoio a famílias endividadas.

⇒ Dr. Francisco (PT-PI) dá 180 dias para entidades como COB, CPB e CBC reclamarem os valores remanescentes.

Os dois deputados do PT que apresentaram emendas não mexeram no núcleo da proibição.

Plataformas, Pix e derivativos

Rodrigo Valadares (PL-SE) e Capitão Alden querem mudar o tratamento das plataformas digitais. A MP obriga os provedores a “impedir” anúncios ilegais. As emendas trocam essa obrigação por um dever de cuidado sobre impulsionamentos pagos e transferem ao Judiciário a aplicação das multas, que podem chegar a R$ 50 milhões.

Felipe Francischini (Podemos-PR) propõe que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF) forneça aos bancos um cadastro oficial das contas e chaves Pix a bloquear. Duas emendas, de Valadares e do Capitão Alden, excluem da proibição os contratos derivativos regulados pela CVM.

Próximos passos

A comissão mista foi designada em 30 de setembro, mas ainda não foi instalada e não tem presidente nem relator.

A MP passa a trancar a pauta do Congresso em 9 de novembro. O prazo de vigência termina em 23 de novembro e pode ser prorrogado por mais 60 dias. O recesso parlamentar suspende a contagem.

O segundo turno da eleição presidencial será em 25 de outubro. Até lá, a tendência é que o tema avance pouco no Congresso. Paralelamente, o ministro Luiz Fux, do STF, relata as ações que questionam a MP.

O conjunto de emendas mostra que, mesmo entre os que apoiam restrições duras, poucos defendem a MP como foi editada. A maioria dos parlamentares que se manifestaram quer regular melhor, e não proibir.

 

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