Sidônio diz que “tava certo” sobre as bets, mas Lula agradeceu a outros pela virada

Apostas I 26.10.26

Por: Magno José

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Sidônio diz que “tava certo” sobre as bets, mas Lula agradeceu a outros pela virada
Um dia depois da reeleição, o ministro da Secom reivindica a autoria da proibição das apostas. No discurso da vitória, porém, Lula creditou a virada a Alckmin, Janones, Camilo Santana e Rafael Fonteles, e não disse uma palavra sobre as bets; Edinho Silva dá a sua versão sobre as bets (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Passada a eleição, Sidônio Palmeira resolveu cobrar a fatura. Em entrevista à CNN Brasil nesta segunda-feira (26), o ministro da Secretaria de Comunicação Social negou ter sofrido pressão durante a campanha e defendeu a proibição das apostas on-line após a vitória de Lula no segundo turno. Perguntado se foi ele quem sugeriu ao presidente acabar com as bets, não fugiu da paternidade: “Disseram que eu sugeri ao presidente proibir as bets. E tava certo”. Também disse não ter sentido nenhuma pressão por causa da discussão e atribuiu o rumor à imprensa.

Há um detalhe que o próprio Sidônio deixou escapar. Ao explicar a vitória, associou o resultado à escala 5×2, à tarifa zero no transporte e ao financiamento para os MEIs. A proibição das bets, a medida da qual ele se orgulha, ficou fora da sua própria lista de causas da vitória.

Quem Lula agradeceu

O discurso do presidente foi ainda mais eloquente. Lula citou o companheiro de chapa, vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o deputado federal André Janones (Rede-MG), o senador Camilo Santana (PT-CE) e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), como peças fundamentais da campanha do segundo turno. Janones foi chamado de “general” e elogiado por manter a militância mobilizada todos os dias. Fonteles foi tratado como “comandante”, em referência ao celular que deu ao presidente para que ele passasse a falar diretamente com o eleitor. Na Avenida Paulista, Lula agradeceu nominalmente a Camilo e a Rafael pelo apoio, ao comemorar a votação no Nordeste.

Na íntegra do pronunciamento publicada pelo Poder360, não há uma linha sobre as bets nem menção a Sidônio. Há, ao contrário, um recado que soa como avaliação do trabalho da Secom. Lula disse que a eleição lhe ensinou muitas lições e prometeu que a comunicação digital vai ganhar espaço muito grande no governo e que vai falar diretamente com a população, sem intermediários. Para quem chefia a comunicação do governo, a promessa tem o peso de uma reprovação.

A campanha que deu certo não era a do Sidônio

A virada não veio da estratégia montada antes do primeiro turno. Veio da reorganização feita depois dele. Foi nesse momento que lideranças do PT apontaram Sidônio como o principal responsável pela derrota de Lula no primeiro turno. A mesma apuração mostrou que a proibição das bets estava no centro da disputa interna: Sidônio defendia o fim total das apostas, enquanto o presidente do PT, Edinho Silva, preferia uma saída gradual pelo Congresso. O partido chegou a avaliar a substituição de Raul Rabelo, braço direito de Sidônio, por João Santana.

Edinho Silva defende tributação de sites de apostas com recursos destinados à educação
Edinho Silva agora dá a sua versão sobre as bets

Edinho Silva agora dá a sua versão. Presidente do PT e coordenador-geral da campanha, ele disse em entrevista exclusiva ao Broadcast Político, do Estadão, que a coordenação funciona como um todo e que acertos e erros são de todos. Perguntado se perdeu os embates internos sobre a taxa das blusinhas e as bets, contou que achou um erro reabrir na campanha o debate sobre as importações. Acabou seguindo a maioria, mas já pediu a Lula que reavalie a medida para proteger os pequenos comerciantes.

Sobre as apostas, foi direto: “Sobre as bets, eu só defendi uma condução que garantisse uma transição racional”. Edinho não sai em defesa do setor. Afirma que as bets não podem continuar como estavam e que o país enfrenta um grave problema social. A diferença, porém, é essencial. O coordenador da campanha queria uma transição organizada, pelo Congresso. Prevaleceu a ruptura por medida provisória, defendida por Sidônio. Ao dizer que apenas defendeu uma transição racional, Edinho deixa no ar a conclusão óbvia: a medida adotada não foi racional.

O que se seguiu ao primeiro turno foi uma campanha com outros comandantes. Camilo Santana passou a dividir a coordenação-geral com Edinho e ficou responsável principalmente pela articulação política e pela aproximação com aliados. Fonteles ganhou espaço na estratégia de comunicação, em especial na presença do presidente nas redes sociais, e foi incorporado à equipe ao lado de Camilo e de Rui Costa, que assumiu a agenda de viagens. Ou seja, a comunicação digital, território natural da Secom, foi entregue a um governador.

Alckmin também mudou de papel. Segundo os bastidores, integrantes da campanha passaram a defender maior presença do vice e menor protagonismo da primeira-dama, avaliação resumida na expressão “menos Janja e mais Alckmin”. A partir daí, o vice intensificou as viagens, participou de atos e passou a rebater as propostas econômicas de Flávio Bolsonaro. O próprio Lula, como o BNLData registrou, deixou de falar das bets na sabatina da TV Globo e no debate da Band. A bandeira que deveria render votos foi guardada na gaveta justamente na reta da virada.

Artista não dá voto, mas tira

A proibição das bets nasceu do encontro entre a tese de Sidônio, o entusiasmo de Janja e a mobilização de artistas liderada por Paula Lavigne. O resultado do primeiro turno deu razão à velha frase atribuída a Leonel Brizola: artista não dá voto, mas tira. A recuperação só veio quando o comando da campanha passou para políticos com voto, capilaridade e trânsito fora da bolha.

Sidônio tem todo o direito de defender suas convicções. O que não se sustenta é transformar a vitória de Lula em atestado de acerto da proibição. As urnas premiaram a articulação de Camilo, a mobilização digital de Janones, a comunicação desenhada por Fonteles e a moderação de Alckmin. Ninguém agradeceu às bets. Nem o coordenador da campanha assina embaixo da forma como a proibição foi feita.

O presidente disse que vai governar com o Congresso que o povo escolheu. É esse Congresso que vai decidir o destino da MP 1.394/2026, e é no STF que estão as ações contra ela. Se as lições da eleição forem levadas a sério, como Lula prometeu, a primeira delas é que a proibição das bets não deu voto, custou caro e merece ser revista.

 


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