Bandeira antibets não se converteu em votos no 1º turno

O discurso contra as bets dominou a reta final da campanha, mas não entregou o que prometia aos candidatos que o adotaram como bandeira. Do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, quem colou a própria imagem na proibição das apostas terminou o 1º turno derrotado ou em desvantagem.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou em 25 de setembro, nove dias antes da votação, a MP nº 1.394/2026, que tornou ilegais as apostas online. A medida virou mote da última semana de campanha e foi seguida por candidatos a governador em vários estados.
Rio: promessa de fechar a Loterj
O caso mais simbólico é o do Rio. Eduardo Paes (PSD) prometeu extinguir a Loterj e acusou a gestão anterior de transformar o estado no “paraíso das bets”. Liderava as pesquisas da véspera: o Datafolha lhe dava 46% dos votos válidos, contra 38% de Douglas Ruas (PL).
Nas urnas, o resultado se inverteu. Ruas teve 49,27% dos votos válidos e Paes, 42,76%, segundo o TSE. A disputa não chegou ao 2º turno. Em 8 de outubro, o TSE confirmou o indeferimento da candidatura de Anthony Garotinho (Republicanos) e anulou seus 274.411 votos. Na retotalização feita pelo TRE-RJ no sábado (10), Ruas passou a 50,88% dos votos válidos e Paes, a 44,16%. O tribunal regional deve proclamar o resultado definitivo em sessão no dia 15 de outubro.
Aliado de Paes, o deputado Pedro Paulo (PSD) recebeu 1.904.352 votos para o Senado e não se elegeu.
A Loterj, alvo da promessa de extinção, destina 70% de seus recursos a projetos sociais, entre eles as casas de acolhimento a mulheres vítimas de violência doméstica.
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Minas, Sul e Nordeste
Em Minas Gerais, Patrus Ananias (PT) classificou a proibição como “um novo começo” para as famílias e ficou com cerca de 26% dos votos válidos. O governador Mateus Simões (PSD), que proibiu publicidade de bets em estádios e anunciou R$ 32 milhões para os clubes, teve menos de 5%. Venceu no 1º turno Cleitinho Azevedo (Republicanos), com cerca de 55%. Ele é crítico histórico das apostas, mas deixou o tema fora da campanha.
No Rio Grande do Sul, Juliana Brizola (PDT) gravou vídeo em defesa da medida e teve cerca de 32%. Marcelo Maranata (PSDB), que também levou o tema à campanha, ficou abaixo de 2%. Luciano Zucco (PL) foi eleito com cerca de 58% depois de chamar a MP de “claro ato de desespero eleitoral”.
No Paraná, Requião Filho (PDT) foi o único a inserir as bets na campanha e perdeu para Sergio Moro (PL), eleito com 50,10%. Em Pernambuco, João Campos (PSB) segurou um cartaz com a frase “fim das bets” ao lado de Lula e terminou com 44,81%. No Ceará, Ciro Gomes (PSDB), favorável à proibição, teve 46,52%.
Na Bahia, a candidata a deputada federal Juliana Prates (Republicanos) fez da pauta antibets o centro de sua campanha no Instagram. Recebeu apenas 3.493 votos.

As exceções
A regra não vale para todos. Jerônimo Rodrigues (PT), que celebrou a decisão de Lula, foi reeleito na Bahia com 55,80%. Raquel Lyra (PSD), que elogiou o presidente por “encampar esta luta” e anunciou apoio financeiro aos clubes, foi reeleita em Pernambuco com 53,25%. Ambos disputavam a reeleição no cargo.
O que os resultados mostram é que a posição contra as bets esteve dos dois lados de quase todas as disputas. Onde foi usada como diferencial, não decidiu a eleição a favor de quem a empunhou.
O aviso estava nas pesquisas
O que as urnas confirmaram já estava nos levantamentos anteriores ao 1º turno. O BNLData reuniu os dados na reportagem “Números não mentem”: havia apoio amplo à proibição, mas quase nenhum efeito sobre a decisão de voto.
⇒ Cruz Consulting/ANJL, entre beneficiários de programas sociais: 68,1% disseram que a posição sobre bets não mudaria o voto, e apenas 1% migraria para um candidato que defendesse o fim das apostas.
⇒ More in Common/Ipsos-Ipec: 58% do eleitorado brasileiro não muda o voto por causa das bets.
⇒ Indexa/Broadcast: 70% a favor da proibição, mas 63% afirmam que o tema não influencia o voto; só 14% dizem que influencia muito.
⇒ Palver: apenas 1% dos eleitores cogita mudar o voto após a proibição.
Antes disso, em 16 de setembro, nove dias antes do anúncio da MP, o BNLData havia publicado “Por que proibir as bets pode custar a eleição a Lula”. Segundo dados obtidos pelo BNLData junto ao Ministério da Fazenda, por meio da Lei de Acesso à Informação, o Brasil tinha mais de 31 milhões de apostadores em 31 de julho de 2026. A conta do BNLData: bastaria que 10% desses apostadores recreativos — cerca de 3 milhões de eleitores — se incomodassem com a decisão para comprometer a reeleição. No 1º turno, a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro ficou em menos de 2,5 milhões de votos.
O custo para Lula
O efeito mais visível está na disputa presidencial. Lula vai ao 2º turno, em 25 de outubro, atrás de Flávio Bolsonaro (PL). Integrantes da campanha passaram a avaliar que a proibição prejudicou o presidente, e ele deixou o assunto fora das falas públicas após a votação, como o BNLData mostrou.
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O presidente do Instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, classificou a medida como “tiro no pé” em entrevista à Revista Oeste. “Você não tem dúvida hoje de que a medida do presidente Lula na sexta-feira foi um tiro no pé. Pesou negativamente, principalmente em relação às torcidas e aos times de futebol”, afirmou. Para ele, a prova é o próprio governo ter parado de falar no assunto: “Tanto que eles não falam mais sobre isso.” Hidalgo disse ainda que o efeito já aparece como uma onda nas pesquisas estaduais do instituto, embora com força ainda pequena. A fala respondia a uma pergunta sobre a reação das torcidas de futebol, que somam dezenas de milhões de torcedores, à proibição.
O apoio à proibição era alto. O Datafolha de 1º de outubro registrou 78% de eleitores favoráveis, inclusive 70% entre os de Flávio Bolsonaro. Mas, como mostravam as pesquisas da seção anterior, esse apoio não se traduzia em voto. Ainda não há pesquisa que estabeleça relação causal entre a MP e o resultado das urnas.


