Em Sorocaba, pelo menos 900 pessoas freqüentam as salas de jogos todos os dias.
Embora considerados clandestinos, os bingos funcionam com o amparo de liminares expedidas pela Justiça e todo dia aproximadamente 900 pessoas freqüentam os bingos sorocabanos, segundo dados divulgados pelas gerências dos três bingos em funcionamento na cidade e estimativa dos administradores de outros dois bingos que estão prontos para serem inaugurados. Apesar do excelente movimento, e em funcionamento devido a um amparo em brechas na legislação municipal e na federal, os empresários do setor aguardam a aprovação de uma lei que regulamente a atividade para investir na expansão do negócio.
A Associação Brasileiras de Bingos (Abrabin) informa que há no Brasil cerca de 1.100 casas, que mantém 120 mil empregos formais e uma receita estimada de R$ 20 milhões por mês. Todas as casas de bingo do país operam na clandestinidade desde 31 de dezembro do ano passado, devido à revogação da Lei Pelé (nº9.615/1998), pela Lei 9.981/2000. Desde então, a atividade é apenas contravenção penal e a Caixa Econômica Federal (CEF) não mais se responsabiliza pela concessão das licenças de funcionamento.
Lucrativo e promissor
Os gerentes das casas de bingos de Sorocaba destacam que o segmento é lucrativo e promissor. Porém, não informam de quanto é a movimentação financeira no setor e preferem por enquanto não arriscar em fazer novos investimentos para atrair novos clientes. Isso por temer que o governo federal baixe nova lei que discipline o funcionamento dos bingos e que esta seja contrária aos interesses dos administradores.
A reclamação maior dos responsáveis pelas casas é que a falta de garantias para a realização de investimentos, tem atrapalhado a busca de novos clientes. Denílson Bataglin gerencia o bingo que opera no Largo do Líder e declara interesse em expandir seus negócios, tendo até adquirido outro imóvel na avenida Afonso Vergueiro. Enquanto não há legislação específica, Denílson tenta segurar a freguesia ao oferecer atendimento diferenciado e promoções periódicas.
Luiz Quesada é gerente do novo bingo de Sorocaba, montado próximo ao largo do Canhão, cujo empreendimento só aguarda a liberação do alvará da Prefeitura para funcionar; a inauguração estava prevista para 6 de março, mas foi adiada por tempo indeterminado. Ele se diz favorável a uma regulamentação das casas de bingo. O gerente do bingo situado na rua Padre Luiz, Eduardo Gianoni Júnior, cancelou os investimentos em propaganda e troca do mobiliário, mas anuncia para este mês a inauguração de uma sala exclusiva para não-fumantes.
Polêmica
Outro assunto polêmico é quanto à Lei Municipal 6.347/2000, que proíbe a instalação de casas de jogos, diversões eletrônicas e similares dentro de um a raio de mil metros a partir do portão de acesso de qualquer escola. A exceção fica apenas para as lotéricas e casas de bingo, que podem se instalar em quaisquer pontos da cidade, mesmo perto de unidades escolares. Os gerentes entrevistados dizem que os bingos não são ameaça ao desenvolvimento de estudantes.
A entrada de menores de 18 anos nessas casas é proibida, mesmo acompanhada de pais. Funcionário de um bingo na rua 15 de Novembro, Elias Nascimento disse que raramente menores insistem em entrar ou mentem a idade. "Em dez anos nenhum caso do tipo foi registrado", comentou. Ele acrescentou que seguranças já barraram a entrada de pessoas que insistiam em entrar acompanhadas de filhos menores.
Eduardo aponta que os bingos são alvos de preconceitos, o que também atrapalha os negócios: "Por falta de informação, muita gente acha que é um crime". Luiz complementa que o bingo é um jogo de prognóstico e não de azar. Os bingos de Sorocaba empregam 141 funcionários, mais 160 de maneira indireta, por meio da terceirização de serviços, como equipes de limpeza e de segurança. Luiz selecionou 45 pessoas para trabalhar no bingo a ser inaugurado; mais de 600 comparecerão para a seleção.
O projeto de lei 1.037, que disciplinaria o funcionamento e a fiscalização dos bingos, tramita no Congresso, já tendo recebido pareceres favoráveis das comissões internas. A Abrabin acredita que a votação possa ocorrer em esquema de urgência ou que seja antecipada na forma de uma Medida Provisória. Caso essa segunda hipótese se concretize, acredita-se que a medida seja aprovada em 60 dias; em seguida seria elaborada uma regulamentação para o setor, por meio de decreto.
Pelo menos 35% dos clientes são fregueses assíduos.
Mesmo a ausência de investimentos não tem atrapalhado os negócios e os bingos têm mantido sua clientela. O público é bem variado e estima-se que 35% dos clientes sorocabanos sejam assíduos: estes consideram a atividade como lazer e entretenimento. Diante do quadro, surge o dilema de que as casas estimulariam a compulsão do ato de jogar e por conseqüência o vício. Os bingos funcionam diariamente.
O perfil dos "jogadores" varia: identifica-se o predomínio de aposentados, principalmente mulheres e casais acima dos 40 anos de idade. À tarde, o grupo da terceira idade impera e das 18h às 21h prevalecem os homens que saem do trabalho; a partir das 21h é a vez dos casais e do povo que não gosta de dormir cedo. Já os jovens não têm muito interesse e a participação deles é discreta.
Os picos de movimento ocorrem em dias úteis, no horário comercial, sobretudo no período da tarde. No final de semana o movimento é mais fraco, mas no bingo que funciona no Largo do Líder há boa procura de clientes, a maioria membros da classe média. As duas outras casas atraem um público mais popular, com menor poder aquisitivo.
O aposentado Narciso Santana, 47 anos, joga diariamente e prefere os bingos eletrônicos aos convencionais, por ser mais difícil ganhar. Apesar de não se considerar viciado, chega a gastar quantias volumosas, ainda mais quando está ganhando. "Outro dia estava com sorte e faturei R$ 250,00, mas em seguida perdi tudo", contou dando risadas.
A Associação Brasileira de Bingos (Abrabin) defende o funcionamento dos bingos e considera que, se há compulsivos, certamente são exceções. Para a associação, o negócio gira em torno do lazer, de uma diversão familiar de apostas baixas, que nada tem a ver com os cassinos, onde se arrisca muito dinheiro e se oferece uma gama de jogos.
CruzeiroNet – Redação Cruzeiro do Sul – Eduardo Santinon


