Bancada gaúcha vê com cautela debate sobre legalização de jogos de azar no Brasil

Um projeto de lei apresentado há 31 anos para legalizar o jogo do bicho no país é a aposta do governo federal para alavancar a arrecadação e divide a base do presidente Jair Bolsonaro. Prioridade do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), na retomada das votações em fevereiro, a iniciativa pode injetar R$ 20 bilhões ao ano nos cofres federais, mas enfrenta resistência nas bancadas conservadoras. A maioria dos 31 deputados gaúchos está cautelosa e aguarda o texto final para se posicionar.
O projeto original, protocolado pelo então deputado Renato Vianna (MDB-SC) em março de 1991, se limitava a revogar todos os dispositivos legais que proibiam o jogo do bicho no país. Agora, a discussão ganhou contornos bilionários, com a inclusão da liberação de bingos, cassinos e diversas outras modalidades de apostas a dinheiro.
O principal argumento a favor da legalização é a geração de empregos, o estímulo ao turismo e o aumento na arrecadação de impostos. Relator da proposta, o deputado Felipe Carreras (PSB-CE) ainda trabalha na redação do substitutivo que será apreciado em plenário. Ele não quis comentar a abrangência das liberações que irá propor.
— O relatório não está pronto e não tem data, ainda, para a votação — diz Carreras.
Em 2016, data da última movimentação do projeto original, um relatório chegou a ser aprovado em comissão especial criada para debater o tema. Carreras deve aproveitar boa parte das propostas discutidas na ocasião. A principal iniciativa sugerida, à época, foi a criação de uma agência federal de fiscalização e regulação dos jogos. A ideia deve ser mantida, com a inclusão de um cadastro nacional de apostadores.
A proposta de 2016 previa ainda uma lista de crimes relacionados ao sistema, como fraudes nos resultados, apostas clandestinas e punição a quem permitir o jogo a menores de 18 anos. Entre as punições discutidas na ocasião, o parecer trazia multas que variavam de R$ 10 mil a R$ 5 milhões e penas de até 16 anos de prisão a quem burlasse o sistema e envolvesse menores de idade.
Na tributação, a ideia, agora, é estabelecer uma alíquota de 20% incidindo sobre a receita bruta dos jogos em cassinos e online, e de 10% sobre demais estabelecimentos físicos credenciados. Os ganhadores também pagariam imposto de renda de 30% sobre o valor líquido de cada premiação.
Na divisão das receitas, o governo federal destinaria 25% para os Estados e 50% para municípios, além de usar parte da arrecadação em políticas de incentivo a turismo, esporte, proteção animal, cultura e segurança pública, entre outras áreas, além de contemplar ações de combate à compulsão ao jogo.
Não há garantia de que todas essas medidas estejam no texto que irá para votação. Nos últimos meses, grupos de interesse intensificaram o lobby sobre o Congresso com o objetivo de ter suas demandas atendidas no relatório final. Nos bastidores, correm informações de que grandes grupos internacionais estão de olho no mercado brasileiro, sobretudo ante a possibilidade de construir resorts com cassinos em pontos turísticos consagrados. A pressão incomoda até quem, por princípio ideológico, simpatiza com a legalização dos jogos.
— Estão querendo fazer algumas restrições, como só permitir apostas em resorts ou liberar somente empresas com capital social de tantos milhões de reais. Se forem essas as mudanças, não é liberar jogos, mas sim concentrar na mão de poucos e deixar a maioria na ilegalidade. Acho que essa é uma pauta importante, mas não podemos sair do monopólio do Estado para um oligopólio privado — comenta o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS).
A pressão pela aprovação da matéria teve início no ano passado. Ainda em dezembro, por pouco Lira não colocou o tema em votação. Na última sessão do ano, ele pôs em pauta um requerimento de urgência que acabou aprovado por 293 votos, com 138 contra e 11 abstenções. A intenção de Lira era, na sequência, já votar o mérito do texto, mas houve resistências em parte da oposição e nas bancadas evangélica e católica.
Ao final, Lira costurou um acordo pelo qual os conservadores não obstruíam a votação da urgência e ele pautava um projeto de interesse da categoria, isentando de IPTU imóveis alugados por igrejas. Líder do PT à época, Bohn Gass (RS) também negociou com o presidente da Casa.
— Ele queria encerrar a discussão e já votar. Só que sem discussão não seria mais possível apresentar emendas. Então firmamos um acordo que ninguém mais se inscreveria para falar, mas a discussão continua. O PT, por exemplo, votou contra a urgência, mas ainda não tem posição fechada sobre o mérito — afirma.
Na bancada gaúcha, a maioria ainda não firmou posição sobre o tema. Dos 31 deputados, 10 disseram estar esperando a apresentação do relatório para definir o voto. Há seis contrários e seis favoráveis – outros nove não responderam ou não foram localizados (veja quadro). No passado, dos 29 que estavam em plenário em 16 de dezembro, 20 votaram a favor da urgência e oito contra, com uma abstenção.
Pressionado pelas bancadas conservadoras e pelo eleitorado evangélico, o presidente Jair Bolsonaro adiantou que pretende vetar a matéria, caso haja aprovação no Congresso. Nos bastidores, porém, ele já liberou os aliados a derrubarem seu próprio veto. O ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo menos dois filhos do presidente, Flávio e Eduardo Bolsonaro, são entusiastas da iniciativa.
— Nós vamos aumentar a arrecadação, acabar com a lavagem de dinheiro e combater o crime organizado. Teremos resorts, investimentos milionários em turismo. Quem é contra vive na Idade Média, e, se o presidente vetar, a gente derruba o veto — afirma o deputado Bibo Nunes (PSL-RS).
— No tempo dos bingos, vi muita gente perder a casa e o emprego por causa de jogo. Compreendo que agora vem um discurso de que o governo vai arrecadar, precisa de dinheiro e vai gerar emprego, tudo bem. Mas eu voto não. Nem sei o que está escrito, como vai ser o projeto, mas acho que o país tem outras prioridades — rebate o deputado Heitor Schuch (PSB-RS).
A posição da bancada gaúcha
- Deputado Urgência Mérito
- Afonso Hamm (PP) a favor indeciso*
- Afonso Motta (PDT) a favor não localizado
- Alceu Moreira (MDB) a favor a favor
- Bibo Nunes (PSL) a favor a favor
- Bohn Gass (PT) contra contra
- Carlos Gomes (REP) contra contra
- Covatti Filho (PP) a favor indeciso
- Daniel Trzeciak (PSDB) a favor indeciso
- Fernanda Melchionna (PSOL) a favor indecisa
- Giovani Cherini (PL) a favor a favor
- Giovani Feltes (MDB) contra contra
- Heitor Schuch (PSB) contra contra
- Henrique Fontana (PT) contra contra
- Jerônimo Goergen (PP) a favor a favor
- Liziane Bayer (PSB) contra contra
- Lucas Redecker (PSDB) a favor a favor
- Marcel van Hattem (Novo) a favor indeciso
- Marcelo Brum (PSL) contra não localizado
- Marcelo Moraes (PTB) a favor não respondeu
- Márcio Biolchi (MDB) a favor não localizado
- Marcon (PT) ausente indeciso
- Maria do Rosário (PT) ausente indecisa
- Marlon Santos (PDT) a favor não localizado
- Maurício Dziedricki (PTB) a favor indeciso
- Nereu Crispim (PSL) a favor a favor
- Osmar Terra (MDB) contra não respondeu
- Paulo Calefi (PSD) a favor não localizado
- Paulo Pimenta (PT) abstenção indeciso
- Pedro Westphalen (PP) a favor não respondeu
- Pompeo de Mattos (PDT) a favor não respondeu
- Sanderson (PSL) a favor indeciso
*Os indecisos estão esperando discussão interna nas próprias bancadas ou a apresentação do texto final para firmar posição
ARGUMENTOS
De quem é a favor
– Arrecadação de impostos superior a R$ 20 bilhões ao ano
– Geração de 30 mil empregos em cassinos e 450 mil empregos no jogo do bicho
– Atração de investimentos internacionais
– Fomento ao turismo
De quem é contra
– Cria mecanismos de lavagem de dinheiro
– Atrai grupos do crime organizado internacional
– Estimula a ludopatia (vício em jogos)
– Fomenta redes de prostituição
(Zero Hora – Fábio Schaffner)


