Abaixo-assinado “Bets Nunca Mais” alcançou menos de 18% do público do Exército de Lula, e sem nenhuma verificação de CPF

O manifesto “Bets Nunca Mais”, organizado pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao vice-presidente Geraldo Alckmin na quarta-feira (5). Segundo os organizadores, ele teria mais de 1,8 milhão de assinaturas. O fundador do ICL, Eduardo Moreira, levou o documento pessoalmente ao Palácio. O ato serviu de apoio político ao Planalto, que está pressionado pelo STF, pelos clubes e pelas empresas do setor por causa da MP 1.394/2026.
A campanha prometia “o maior abaixo-assinado da história do Brasil”, e o número foi apresentado como prova de apoio popular à proibição. Basta olhar para onde ele foi divulgado para ver que não há nada de extraordinário. O abaixo-assinado circulou no canal Exército de Lula, que tem mais de 10,5 milhões de participantes, além de ser impulsionado por parlamentares e perfis governistas. Mesmo com essa estrutura de mobilização, o resultado ficou abaixo de 18% do público de um único canal.
Em outras palavras: mais de 80% da base mais engajada do presidente não assinou. E isso considerando que todas as assinaturas sejam verdadeiras, o que não é possível comprovar.
Teste: três CPFs, nenhum bloqueio
Um assinante do BNLData testou o formulário e mandou o resultado em vídeo. “Fiz a assinatura de três pessoas, sem qualquer problema, ou seja, não existe verificação de CPF e sim CPFs reais. Uma pessoa, com uma base de dados, pode assinar quantas vezes essa base permitir”, disse.
O site pede o número do CPF, mas, pelo teste, não confere se quem digita é o dono do documento. Não há confirmação por e-mail, SMS ou login no gov.br. Com isso, qualquer pessoa com uma lista de CPFs válidos, e o país já sofreu vazamentos de dados em massa, pode multiplicar as adesões.
O ponto é importante porque o próprio Eduardo Moreira já usou o CPF como prova de credibilidade. Ao entregar a Lula outro manifesto do ICL, o “Somos 99%”, ele o apresentou como “o maior manifesto das últimas décadas do Brasil, em termos de número de assinaturas confirmadas com CPF”. Pedir o CPF não é a mesma coisa que confirmar a identidade de quem assina.
“Aceitam qualquer coisa”
O influenciador Ricardo Fulltrader foi mais longe no Instagram e chamou a iniciativa de “uma das maiores fraudes já vistas”:
“Vai lá e testa lá fazer o abaixo-assinado. Pega o CPF da tua mãe, do teu pai, do teu irmão, cadastra lá pra você ver, aceitam qualquer coisa. Cara, é impressionante o país que a gente está.”
Ver esse post no Instagram
O BNLData não recomenda o teste: usar o CPF de outra pessoa sem autorização pode configurar falsidade ideológica e infringir a LGPD. Mas o que o influenciador e o assinante descrevem é o mesmo: o sistema não impede assinaturas múltiplas nem o uso de dados de terceiros.
Peça política, não documento oficial
Do ponto de vista jurídico, o manifesto não tem valor formal. Ele não é um projeto de lei de iniciativa popular, que exigiria conferência rigorosa das assinaturas pela Justiça Eleitoral. Também não obriga o STF nem o Congresso a nada. É um instrumento de pressão, e só tem força se o número for confiável.
O problema é duplo. A adesão ficou longe do potencial da rede que divulgou o manifesto, e mesmo esse número não pode ser auditado. Ainda assim, o presidente e o vice receberam Moreira no Palácio e permitiram a gravação do encontro, dando o selo da Presidência a uma contagem que ninguém conferiu.
O pano de fundo
Enquanto Lula e o governo usam as bets como alvo de críticas diárias e prometem lutar até o fim pela proibição, a economia brasileira sofre com a imprevisibilidade e a falta de uma política fiscal efetiva. Falta justamente o que daria a investidores e empresas a segurança necessária para retomar os investimentos e acreditar que o Brasil está no rumo certo. Um abaixo-assinado sem verificação, que nem a própria base abraçou, não resolve nenhum desses problemas.


