Advogado acumula R$ 145 mi em perdas na Blaze; Justiça de SP nega bloqueio

Blog do Editor I 30.09.26

Por: Magno José

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Advogado acumula R$ 145 mi em perdas na Blaze; Justiça de SP nega bloqueio
Willer Tomaz fez 53 mil apostas que somaram R$ 6,6 bi na plataforma e pede a devolução de valores alegando ludopatia; PF investiga lavagem de dinheiro (Foto: Agência Senado)

A Justiça de São Paulo negou, nesta terça-feira (29/9), o bloqueio de R$ 145,5 milhões em bens e ativos da Foggo Entertainment, operadora da plataforma de apostas Blaze. O pedido havia sido feito pelo advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e investigado no âmbito das fraudes ao INSS.

Segundo apuração da Folha de S.Paulo e O Globo, que tiveram acesso aos autos, Tomaz depositou R$ 325,3 milhões na Blaze entre janeiro de 2025 e julho de 2026, distribuídos em 2.145 transações. No mesmo período, sacou R$ 180,3 milhões, acumulando saldo negativo de R$ 145 milhões. Ao todo, realizou 53.310 apostas que somaram R$ 6,6 bilhões em pouco mais de 18 meses, conforme documentação da própria plataforma anexada ao processo.

O pedido de arresto foi protocolado na madrugada de sábado (26/9), horas depois de o presidente Lula assinar medida provisória que proíbe a operação de bets no país. A MP determina a retirada de sites e aplicativos do ar até 5 de outubro e a extinção das autorizações das operadoras em 25 de outubro.

Decisão judicial

O juiz Guilherme Madeira Dezem, da 44ª Vara Cível do Foro Central do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), rejeitou o pedido por entender que ele se baseava em “meras conjecturas” sobre o cenário do setor, com alegações “genéricas e abstratas”. Para o magistrado, a tramitação de medidas provisórias é um evento futuro e incerto, que depende do Congresso Nacional, e não caberia ao Judiciário bloquear patrimônio de empresa privada com base em suposições sobre mudanças na legislação.

Dezem afirmou ainda que “não há nos autos o menor indício material de que a Foggo Entertainment Ltda. esteja praticando atos de dissipação patrimonial, desviando receitas, ocultando patrimônio, alienando bens de forma fraudulenta ou encerrando irregularmente suas operações comerciais”. Na decisão, acrescentou que “o simples receio subjetivo de não satisfação de futuro e eventual crédito não se confunde com o perigo de dano concreto exigido pela legislação processual civil”.

O juiz citou como sinal de boa-fé da empresa o cumprimento de uma liminar de agosto que bloqueou a conta de Tomaz na plataforma e proibiu o envio de publicidade a ele.

Ação principal e tese da defesa

Tomaz abriu ação contra a Blaze em 1º de agosto, pedindo a devolução dos valores perdidos na plataforma e R$ 500 mil de indenização por danos morais. A tese central da defesa é que a lei das apostas, de 2023, proíbe que pessoas diagnosticadas com ludopatia apostem e declara nulas as apostas realizadas nessa condição. Um laudo psiquiátrico com o diagnóstico foi apresentado no processo.

O advogado afirma ter solicitado o bloqueio de sua conta à Blaze sem sucesso e diz ter continuado recebendo bônus e publicidade após o pedido. A defesa relata ainda que links de autoexclusão apresentavam erro e que a plataforma manteve um canal individualizado de contato com ele.

A Blaze contesta a versão. A empresa afirma que só tomou conhecimento formal do laudo com a citação judicial, em agosto, e que ofereceu a Tomaz limites de depósito e a opção de autoexclusão em setembro de 2025 e em junho de 2026, recusadas por ele por escrito.

Pelos dados da empresa, cerca de um em cada três pedidos de saque não foi processado; 1.335 de 4.068 solicitações, somando R$ 86,2 milhões. Nesses casos, os valores retornaram ao saldo de apostas em vez de serem transferidos para a conta bancária do apostador. A defesa de Tomaz sustenta que isso servia para incentivá-lo a continuar jogando. A Blaze afirma que a maioria das reversões foi feita pelo próprio advogado, por meio de um botão de “reembolso” disponível na plataforma.

Tratamento especial e investigação da PF

A defesa de Tomaz descreveu no processo a existência de um grupo de mensagens criado em 2023 por um representante da Blaze, por meio do qual o advogado teria recebido atendimento personalizado. Mesas exclusivas de blackjack foram criadas para ele, com limite por aposta que subiu de R$ 200 mil para R$ 400 mil em um mês e chegou a R$ 500 mil. Em setembro de 2025, quando Tomaz cogitou encerrar a conta, o gerente teria pedido que ele aguardasse o recebimento de um bônus de fidelidade antes de fazê-lo.

Em outubro daquele mesmo ano, segundo a defesa, o responsável pelo atendimento teria sugerido operar com criptomoeda para escapar de limites de pagamento; proposta que Tomaz afirma ter recusado. A lei das bets proíbe pagamentos fora de contas em instituições autorizadas pelo Banco Central, o que exclui criptomoedas. Nesse mesmo período, um saque de R$ 6 milhões foi realizado em 400 transferências de R$ 15 mil cada.

Paralelamente, a Polícia Federal abriu investigação sobre possível lavagem de dinheiro por meio das apostas de Tomaz. Comprovante anual da plataforma apresentado no processo indica que ele registrou R$ 4,8 bilhões em ganhos e cerca de R$ 5 bilhões em perdas nos jogos de cassino ao longo de 2025, com resultado líquido negativo de R$ 163,2 milhões. A PF aponta que Tomaz teria atuado como “hub financeiro, patrimonial e logístico” no esquema de fraudes ao INSS. Ele nega envolvimento.

A conexão entre Tomaz e Flávio Bolsonaro também está sob escrutínio. A PF identificou ao menos cinco viagens internacionais realizadas em conjunto no primeiro semestre de 2025, incluindo um safári na África do Sul. Em janeiro daquele ano, os dois retornaram dos Estados Unidos em jato do qual Tomaz era cotista junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em agosto de 2026, o advogado cedeu um apartamento na Vila Nova Conceição, em São Paulo, para que Flávio utilizasse durante a campanha eleitoral; uso que foi questionado por adversários do senador no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Procurado, Tomaz afirmou, por meio de sua assessoria, que “os valores divulgados não correspondem à realidade” e que, “por se tratar de assunto de natureza estritamente pessoal, não fará outros comentários sobre o tema”. A Foggo Entertainment disse não comentar processos judiciais em andamento e reiterou seu compromisso com a transparência e a observância da legislação.

 

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