Após a MP, governo e setor contam sites; ninguém mede para onde foram os apostadores

Apostas I 17.10.26

Por: Magno José

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Proibir publicidade de apostas fortalece o mercado ilegal, mostram cinco países
Dados do Ministério da Justiça, da Legitbet e da CNN mostram milhares de endereços clandestinos, mas medem a oferta, não a audiência. O único indicador de tráfego sugere que a maioria parou de apostar, e uma parte migrou para os “.com”

Onze dias depois que as bets autorizadas saíram do ar, em 6 de outubro, três fontes diferentes tentam dimensionar o mercado clandestino que ficou no lugar. O Ministério da Justiça contabiliza 16.627 sites encaminhados para bloqueio. A Legitbet, plataforma de monitoramento mantida pela ANJL, registra 30.844 sites ilegais ativos. A CNN Brasil identificou ao menos quatro plataformas com domínio internacional operando abertamente para brasileiros.

Os números impressionam, mas respondem a outra pergunta. Todos contam endereços, links e canais, ou seja, a oferta. Nenhum deles mede quantos apostadores deixaram as plataformas “.bet.br” e passaram a apostar nos “.com”.

O BNLData cruzou as três fontes com o único levantamento de tráfego disponível e com os estudos sobre o tamanho do mercado ilegal antes da MP. O resultado indica que a maior parte do público regulado parou de apostar, ao menos por ora, e que uma fatia menor, ainda sem tamanho conhecido, migrou para operadores internacionais.

O que o Ministério da Justiça conta

O governo mede endereços encaminhados para bloqueio, não sites efetivamente fora do ar. No primeiro balanço, de 2 de outubro, o MJSP e a SPA/MF informaram 10.435 sites encaminhados entre 25/9 e 1/10, além de 3.040 páginas, perfis e grupos em redes sociais (MJSP).

O número cresceu a cada balanço. Em 7/10 eram 13.241 sites; em 15/10, 16.627. Somados os canais em redes sociais, o total chegou a 20.318, alta de 21% em oito dias. Só os grupos de Telegram listados reúnem mais de 18,4 milhões de usuários (balanço de 15/10).

Há uma divergência a esclarecer com o ministério. Em 16/10, a CNN citou balanço de 24.783 sites, páginas, perfis e grupos retirados do ar, alcançando 19,5 milhões de usuários. Não está claro se a diferença para os 20.318 de 15/10 é atualização ou outro critério de contagem.

O dado financeiro do MJSP é o mais próximo de uma medida de demanda: antes da MP, os apostadores movimentavam cerca de R$ 600 milhões por dia nas plataformas autorizadas. Não há número equivalente para os sites clandestinos.

O que a Legitbet conta

A Legitbet mede links e domínios suspeitos nos canais que monitora. Entre 8 e 23 de setembro, antes da MP, detectava em média 77 links suspeitos por dia. Entre 1 e 7 de outubro, a média subiu para 549, cerca de sete vezes mais, com pico de 948 em 7/10.

Na semana de 22 a 28/9, que inclui a edição da MP, a plataforma confirmou 6.401 novos sites ilegais. No feriado de 9 a 12 de outubro, foram 221 novos sites e 1.439 links, sobretudo no Telegram. Ao fim do feriado, 30.844 sites clandestinos seguiam acessíveis.

A própria ANJL faz duas ressalvas. A classificação de um site como suspeito não equivale a declaração de ilegalidade. E os dados não permitem afirmar que houve migração de apostadores do mercado regulado para o clandestino.

Há ainda limites de método. Em 5/10 a plataforma passou a contar só sites voltados ao público brasileiro, o que afeta a comparação antes e depois. A média anterior cobre 16 dias e a posterior, sete. E a Legitbet é mantida por uma associação que contesta a MP no STF.

O que a CNN encontrou

O levantamento da CNN Brasil, divulgado em 16/10, mostra como o mercado se reorganizou. As plataformas “.br” autorizadas saíram do ar no prazo. Sites com extensões internacionais, porém, continuam acessíveis, e ao menos quatro foram encontrados operando, alguns divulgados por influenciadores (CNN).

Segundo o analista Elijonas Maia, cerca de 10 mil endereços foram derrubados entre 6 e 16 de outubro. Ele mesmo pondera que isso não corresponde a 10 mil empresas, porque um operador pode manter vários domínios para contornar o bloqueio.

O caso mais visível é o da Stake. Reportagem do ge, mostrou que o stake.com segue em português, aceita cadastro com documentos brasileiros e oferece apostas no Brasileirão. O depósito em reais não funcionou, mas o em criptomoeda, sim, meio que era vedado no mercado regulado. A liminar que permitia à empresa operar até 25/10 foi derrubada pelo TRF-3 em 9/10.

Os dados da Legitbet indicam o mesmo padrão: em 8/10, 43,6% dos domínios suspeitos usavam a extensão “.com”, contra 7,3% com “.bet”.

O que os números dizem, e o que não dizem

A resposta curta: ninguém sabe quanto da audiência foi para os “.com”. Os indicadores disponíveis apontam que a maior parte parou de apostar e uma parte menor migrou.

O único dado de tráfego vem da Blask, empresa de inteligência de mercado. Em 1º de outubro, o alcance dos sites “.bet.br” estava 74% abaixo do normal, e as buscas por marcas reguladas caíram 83%. No mesmo período, o tráfego dos sites não licenciados subiu no máximo 11% na primeira semana. A fatia dos operadores offshore nas buscas de apostas no país passou de 4% para 16%.

A conclusão do próprio relatório é que a maioria dos apostadores regulados simplesmente parou, por enquanto. Mas a Blask não divulgou metodologia, e o dado de 1º/10 é anterior à saída definitiva dos sites autorizados, em 6/10. Os números absolutos de usuários também não foram publicados.

O ponto de partida importa. Antes da MP, o mercado ilegal já tinha 38% a 44% das apostas online no primeiro semestre de 2026, segundo a LCA Consultores com dados do Instituto Locomotiva, encomendados pelo IBJR (ABJR). A Blask aponta que 57% dos apostadores brasileiros haviam visitado uma plataforma não licenciada nos 90 dias anteriores à proibição. Ou seja, boa parte do público dos “.com” não é nova: já estava lá. A LCA projeta que as apostas ilegais movimentem de R$ 26 bilhões a R$ 30 bilhões em 2026.

O precedente citado pela Blask é a Índia, que proibiu os jogos online a dinheiro em agosto de 2025. Lá, as plataformas domésticas perderam 73% do alcance em três meses, e 63% dos usuários seguiram ativos, a maioria em operadores estrangeiros. É uma referência, não uma previsão para o Brasil.

 

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