Aposta política frustrada gera prejuízos de até R$ 5 mi para investidores da Bolsa

Pessoas físicas que apostaram na vitória de Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições de domingo (25/10) sofreram perdas pesadas no mercado financeiro, com casos que chegam a R$ 1,2 milhão em opções de ações e a mais de R$ 5 milhões em outros relatos. As perdas não se restringiram a grandes investidores: um funcionário de estatal perdeu todo o patrimônio e ainda ficou com dívida de R$ 700 mil com a corretora XP.
Relatado pelo Estadão, o cenário envolve investidores que se posicionaram de forma alavancada em aplicações atreladas à derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com o resultado contrário, a sangria se abateu sobre quem havia apostado com recursos muito além do que poderia perder.
Operação que deu errado
O caso mais extremo documentado envolve um funcionário de estatal que não quer ser identificado. Ele havia depositado R$ 400 mil como margem de garantia na XP e assumiu a obrigação de comprar ações do Banco do Brasil (BBAS3) caso o mercado caísse, apostando que os papéis subiriam com a vitória de Flávio Bolsonaro.
Com a derrota do candidato do PL, as ações do BB despencaram quase 30% no pregão seguinte. O tombo acionou os contratos que ele havia vendido, obrigando-o a honrar a compra dos papéis por um preço muito acima do valor de mercado. O prejuízo engoliu os R$ 400 mil depositados instantaneamente. A XP encerrou a posição por meio de zeragem compulsória, e o investidor ainda ficou devendo R$ 700 mil à corretora. Procurada, a XP não se posicionou.
Hégler Henrique, sócio e gestor da Amplus Capital com mais de 66 mil seguidores no X e especialista em derivativos, foi procurado pelo investidor para indicação de um advogado especializado em contencioso bancário ou mercado de capitais. A orientação que deu foi outra. “A orientação que eu dou é a zerar essas operações para preservar algum valor residual e orientar para que ele evite tentar recuperar os valores a qualquer custo porque muitos acabam perdendo ainda mais”, disse. “Nesse caso, o que dá para fazer é pelo menos buscar algum acordo para negociar e parcelar a dívida que porventura ficou.”
Hégler ressaltou que, caso Flávio tivesse vencido, o ganho máximo do investidor seria de R$ 200 mil, muito abaixo do risco assumido.
Escala do problema
O gestor montou uma força-tarefa com sua equipe para atender quem teve perdas ligadas às eleições e afirma ter sido procurado por mais de 40 pessoas. Para ele, o número real de afetados é bem maior. “Tenho certeza de que são milhares que se deram mal não só no mercado de ações, mas também com dólar e índices futuros”, declarou.
Victor Garcia, educador financeiro especializado em order flow (análise do fluxo de ordens dos grandes investidores em tempo real), relatou ter recebido contatos de pessoas com perdas superiores a R$ 5 milhões. Ele também recebeu relatos de investidores que perderam todo o patrimônio ao apostar na Bolsa e em plataformas internacionais de mercados de previsão, como Polymarket e Kalshi.
Garcia afirmou uma contradição no comportamento desses investidores. “Como você pode tratar uma eleição como praticamente decidida quando as pesquisas eleitorais continuam mostrando uma disputa extremamente apertada, muitas vezes dentro da margem de erro?”, questionou.
Para ele, o ambiente político alimentou uma distorção de avaliação de risco. “A convicção política acabou sendo confundida com uma análise de probabilidade, e muita gente passou a assumir riscos incompatíveis com o próprio patrimônio”, afirmou. Garcia declarou ainda que o mercado financeiro foi usado, nesse contexto, como uma espécie de casa de apostas.
“O que mais me incomodou nesse processo eleitoral não foram apenas as apostas feitas no mercado financeiro, mas principalmente a maneira como muitas pessoas foram expostas a riscos que aparentemente não compreendiam”, declarou Garcia.
A lógica das plataformas de previsão
Nas plataformas internacionais de apostas, Garcia identificou outro mecanismo de distorção. Como a vitória de Flávio Bolsonaro era tratada, em determinados grupos, como resultado praticamente certo, as cotações ofereciam retorno proporcionalmente menor. Para obter um lucro considerado relevante, os apostadores precisavam comprometer volumes muito maiores de dinheiro.
“Por que esses valores eram tão altos? Porque a vitória dele passou a ser tratada, em determinados grupos, como um resultado praticamente certo”, explicou. “Com isso, as cotações oferecidas ofereciam um retorno proporcionalmente menor. Para conseguir um lucro considerado relevante, a pessoa precisava comprometer uma quantidade muito maior de dinheiro.”
“Estamos falando de dinheiro que muitas vezes levou anos, ou até décadas, para ser construído”, afirmou Garcia. “No fim, o problema não foi simplesmente apostar no candidato que perdeu. Foi assumir um risco enorme para buscar um retorno que, muitas vezes, nem sequer justificava a possibilidade de perda.”
Para Hégler, o problema não foi apenas paixão política. Ele aponta o desconhecimento do mercado e a influência de assessores e criadores de conteúdo como fatores determinantes. “As pessoas físicas confiam muito em assessores de investimento e influenciadores que disseminam operações extremamente arriscadas”, afirmou. “O mais importante é conhecer, estudar e entender os riscos de operar num momento tão complexo e de extrema volatilidade.”


