Azarão de sorte: Seabiscuit
Um milionário que começou a vida com 21 centavos no bolso, um velho caubói que só conseguia se comunicar com seus cavalos, um rapaz criado sozinho em meio às desventuras da Grande Depressão, um cavalo de pernas tortas que todos davam como refugo: os quatro protagonistas de Seabiscuit – Alma de Herói (Seabiscuit, Estados Unidos, 2003) são tão arquetípicos do folclore capitalista americano, e sua história de sucesso é tão perfeita, que se corre o risco de tomá-los como clichês ficcionais. O que empresta grandeza ao filme que estréia nesta sexta-feira no país, no entanto, é o fato de que esses são personagens reais, e que sua inacreditável trajetória se deu num momento – a década de 30 – em que os americanos não tinham por que se sentir esperançosos. Com seu porte pequeno demais para um cavalo de corrida, suas patas dianteiras que pareciam as pás de uma batedeira e seu temperamento errático – fruto de maus-tratos em páreos baratos –, Seabiscuit encontrou três pessoas que precisavam voltar a acreditar em alguma coisa e decidiram acreditar nele. Sob os cuidados de seu dono, o milionário Charles Howard, de seu treinador, o taciturno Tom Smith, e de seu jóquei também muito sofrido, Red Pollard, Seabiscuit se tornou um dos maiores fenômenos do turfe em todos os tempos, acumulando vitória atrás de vitória sobre animais de linhagem muito mais distinta e convertendo-se num ídolo das multidões. Enquanto narra essa história, a escritora Laura Hillenbrand – em cujo best-seller homônimo o filme se baseia – traça um painel fascinante da América do início do século XX até os anos 40. Vista de uma perspectiva mais geral, a ascensão do cavalo azarão é também uma luta do arrivismo do Oeste contra a aristocracia do Leste, e da imaginação contra a lógica do lucro. Seabiscuit, o filme, tem seus próprios trunfos: cenas de corridas de cavalos empolgantes e muito bem filmadas e um elenco que se mostra no seu melhor – nunca pouco no caso de Jeff Bridges, Tobey Maguire, Chris Cooper e William H. Macy. Mas o escopo, aqui, é decididamente menor que o do livro. Se o instinto da escritora é afiar as arestas, o do diretor Gary Ross (de A Vida em Preto-e-Branco) é arredondá-las. Laura mostra que o que move seus personagens é menos o desejo da vitória – aquilo que Ross, de olho no Oscar, trata de enfatizar – que o medo da perda, que já haviam experimentado e tinham bons motivos para temer. Seabiscuit, para eles, não era uma segunda chance: era a última. A diferença é sutil, mas de forma nenhuma insignificante. É ela que transforma a história de perdedores que Laura escreveu na história de – como sempre – vencedores que Ross filmou.
Veja – Isabela Boscov

