Banco Central estima que 20% da massa salarial do país passa por casas de aposta ao menos uma vez ao ano

O Banco Central informou à CPI das Bets que brasileiros enviaram R$ 22 bilhões por mês para plataformas de apostas online durante o primeiro trimestre de 2025. A transferência ocorre enquanto 29% dos entrevistados em pesquisa Datafolha/FGV com 2.600 domicílios admitem destinar ao jogo digital recursos antes usados para lazer de fim de semana.
Se mantido o atual ritmo, o valor anual destinado às apostas alcançará aproximadamente R$ 270 bilhões em 2025. Este montante equivale a 84% de todo o mercado varejista de carne bovina registrado em 2024, que somou R$ 321 bilhões, segundo dados do Anuário CiCarne. Conforme análise publicada por Renato Dolci no InfoMoney, esse redirecionamento de recursos do orçamento familiar representa uma mudança significativa nos padrões de consumo dos brasileiros.
A pesquisa Datafolha/FGV revela que 18% dos participantes reduziram a compra de carnes ou refeições fora de casa para manter suas apostas. O fenômeno atinge com maior intensidade as famílias de menor renda.
Entre pessoas que recebem até dois salários mínimos, 38% apostam todo mês, com gasto médio de R$ 87, valor similar ao custo de uma refeição para quatro pessoas. Nesta faixa de renda, as apostas consomem 8,4% do orçamento familiar.
Nas faixas entre 2-5 salários mínimos, 24% apostam mensalmente, com ticket médio de R$ 118, representando 4,2% da renda. Entre aqueles que ganham acima de 5 salários mínimos, 17% apostam regularmente, com gasto médio de R$ 235, equivalente a 2,5% da renda.
O Banco Central estima que 20% da massa salarial do país passa por casas de aposta ao menos uma vez ao ano. A Sensor Tower aponta que o número de usuários ativos em três grandes plataformas (Bet365, Blaze e PixBet) cresceu 62% no último ano.
O APP Store Ranking Brasil de abril de 2025 coloca dois aplicativos de apostas entre os cinco apps mais baixados. Em 2021, nenhum app de apostas figurava nesta lista. A PicPay Store identifica picos de depósitos em bets às sextas-feiras, entre 15h e 20h, horário tradicionalmente associado às compras para o fim de semana.
O Ibope Repucom identificou R$ 1,1 bilhão em patrocínios de empresas de apostas a clubes esportivos, programas de esporte e influenciadores nos 12 meses encerrados em junho. Este valor supera em 40% o investimento conjunto de frigoríficos e cervejarias nos mesmos canais.
O IPCA de carnes registrou aumento de 6,7% nos últimos doze meses, ficando abaixo do índice geral de alimentos (7,3%). O consumo per capita de carne bovina permanece 18% inferior ao nível de 2014. A Abrasmercado registra queda de 7% no volume de cerveja premium no primeiro semestre, enquanto as vendas de créditos pré-pagos para entretenimento digital, categoria que inclui as bets, cresceram 15%.
Os técnicos do IBGE incluirão pela primeira vez as apostas online na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2024/25. Em nota metodológica, estimam que este item representará inicialmente 4,1% das despesas de lazer das famílias com renda até 3 salários mínimos, percentual próximo ao gasto com cerveja doméstica (5,8%) e carne para churrasco (6,3%).
Economistas do Ipea calculam que cada ponto percentual da renda familiar transferido para apostas retira R$ 5,2 bilhões anuais do varejo de alimentos e bebidas. A promessa política de “colocar carne no prato” enfrenta agora a realocação de recursos para apostas digitais.
A regulamentação recém-aprovada para o setor de apostas, que estabelece alíquota de 15% sobre a receita líquida das casas, deve gerar R$ 7 bilhões em tributos. O Ministério da Saúde discute a implementação de telas de aviso após perdas prolongadas. Um estudo-piloto da Unifesp indica que esta medida resultaria em queda de apenas 6% no ticket médio após 30 dias de alerta.
Enquanto o debate político utiliza símbolos como a “picanha e da cerveja” para ilustrar questões econômicas, o impacto das apostas no orçamento familiar ainda não ganhou destaque proporcional, apesar de representar um significativo redirecionamento de recursos antes destinados ao consumo tradicional como o “churrasco + litrão”.


