Bets levam ao governo parecer que contesta impacto no endividamento

Apostas I 27.07.26

Por: Magno José

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ANJL apresenta nova identidade visual que reflete momento de transformação do setor
Documento da ANJL aponta falhas metodológicas no estudo da CNC que associa apostas online ao aumento da inadimplência no Brasil

A indústria de apostas esportivas levou ao governo um parecer que contesta estudos associando bets ao aumento do endividamento e da inadimplência das famílias brasileiras. O documento foi encomendado pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e aponta falhas no estudo produzido pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), que atribuía às apostas uma piora nas finanças domésticas.

Conforme apuração da Coluna Radar Econômico da VEJA, a crítica metodológica tem fundamento, mas o parecer vai além do que os dados permitem concluir. O documento enfraquece a afirmação de que a CNC comprovou o impacto das bets sobre o endividamento; não demonstra, porém, que esse impacto não existe.

Falhas no estudo original

O problema central identificado no estudo da CNC está na estrutura do modelo utilizado. A entidade apresenta a análise como um exercício de “diferenças em diferenças”, mas sem um grupo de controle. Sem esse elemento, o modelo não oferece um contrafactual capaz de mostrar o que teria ocorrido com o endividamento caso as bets não tivessem avançado no país.

Com apenas 59 observações mensais agregadas, o estudo permite identificar uma coincidência temporal, mas não comprovar causalidade. Outras variáveis presentes no mesmo período — como juros, inflação, crédito, emprego e políticas de transferência de renda — podem ter sido incorporadas à variável atribuída às apostas.

A apuração do Radar Econômico identificou ainda inconsistências nas tabelas do estudo original. Em um dos casos, um coeficiente de -0,305 aparece acompanhado de erro-padrão de 0,348 e, mesmo assim, recebe três estrelas, classificação normalmente reservada a resultados significativos ao nível de 1%. Os números publicados não sustentam essa marcação.

Limites do parecer da ANJL

O documento encomendado pelo setor acerta ao desmontar a alegação de causalidade da CNC. Os limites do parecer, porém, são relevantes. Ele não refaz as estimativas, não apresenta base de dados alternativa e não constrói um estudo independente capaz de medir o impacto das plataformas sobre o orçamento das famílias.

Algumas das inconsistências identificadas nas tabelas da CNC foram reproduzidas pelo próprio parecer sem recálculo. O documento admite não ter realizado auditoria da base da CNC e não apresenta código, replicação econométrica ou apêndice estatístico.

O parecer avança ainda para conclusões regulatórias que não derivam diretamente da crítica metodológica. Entre elas estão a defesa da publicidade como instrumento para direcionar apostadores às plataformas autorizadas e a tese de que restrições mais amplas favoreceriam o mercado ilegal. Os argumentos são sustentados principalmente por estudos e estimativas ligados ao próprio setor.

 

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