Clubes da Premier League perdem £80 mi/ano com fim de patrocínio de apostas

Apostas I 28.07.26

Por: Magno José

Compartilhe:
Proibição de patrocínios de casas de apostas acende sinal de alerta entre clubes de futebol ingleses
Medida voluntária dos clubes visa afastar restrições mais amplas do governo britânico. 11 dos 20 times são afetados com a mudança na parte frontal da camisa, enquanto pressão por regulamentação aumenta; entenda o impacto

A última temporada da Premier League com patrocínio de apostas na frente das camisas chegou ao fim. A partir de 22 de agosto, quando a edição 2026/27 tem início, nenhum clube da liga poderá exibir uma casa de apostas como patrocinadora principal no espaço frontal do uniforme. É a primeira vez, em muitas temporadas, que a relação mais visível entre o futebol inglês e a indústria das apostas chega ao fim, ao menos no peito das camisas.

A medida foi aprovada voluntariamente pelos clubes da Premier League em 2023 e concedeu três anos de transição antes de entrar em vigor. A iniciativa surgiu como uma resposta calculada: ao adotar a restrição por conta própria, a liga buscou afastar a possibilidade de uma proibição obrigatória mais ampla, que poderia ir além das camisas, no contexto da revisão da Lei de Jogos de Azar pelo governo britânico. O escopo da medida é preciso e limitado. O que muda é exclusivamente o espaço nobre da parte frontal do uniforme. Patrocínios em mangas, kits de treino, painéis de LED ao redor do gramado, naming rights e outras propriedades comerciais permanecem inteiramente livres para acordos com empresas de apostas.

O impacto financeiro da mudança

A dimensão econômica da proibição é expressiva. Na temporada 2025/26, empresas de apostas patrocinavam a parte frontal da camisa de 11 dos 20 clubes, tornando o setor o mais representado entre os patrocinadores máster da liga. As marcas envolvidas eram Boyle Sports, pelo West Ham; Hollywood Bets, pelo Brentford; Stake, pelo Everton; 96.com, pelo Burnley; Betano, pelo Aston Villa; bj88, pelo Bournemouth; NET88, pelo Crystal Palace; SBOTOP, pelo Fulham; Bally’s, pelo Nottingham Forest; W88, pelo Sunderland; e DEBET, pelo Wolverhampton Wanderers.

Estimativas apontam para uma perda total de receita de aproximadamente £80 milhões por ano em toda a liga, com impacto desproporcionalmente maior sobre clubes fora do chamado “Big Six”, que dependiam fortemente desses contratos. O peso é ainda maior para times recém-promovidos; estimativas indicam que o valor dos acordos de patrocínio para esse perfil de clube caiu cerca de 50% desde que o dinheiro das apostas deixou o mercado da frente de camisa.

A dificuldade em encontrar substitutos à altura fica evidente nos valores já revelados. Os contratos firmados pelo Bournemouth, com a Vitality, patrocinadora do estádio, e pelo Brentford, que deve fechar com a Indeed para o uniforme de treino, valem entre £4 e £5 milhões anuais, bem abaixo dos patamares praticados pelas apostas. Nos extremos opostos, Everton e Fulham negociam acordos com a empresa de serviços financeiros CMC Markets que podem chegar a £50 milhões ao longo de três anos.

Os substitutos e os que ainda buscam acordo

Três semanas antes do início da temporada, três clubes ainda não tinham patrocinador de frente de camisa confirmado; Sunderland, Nottingham Forest e Chelsea. O restante do campo foi ocupado principalmente por empresas de finanças e tecnologia, com participação de setores de alimentação e bebidas, software, seguros, telecomunicações e turismo.

O Crystal Palace anunciou um novo acordo com a Temporal, empresa americana de inteligência artificial, tornando-se o clube mais recente a confirmar substituto. A mudança encerra a parceria com a NET88, que ainda aparecerá na camisa do clube na próxima final europeia do time, em uma despedida acompanhada por controvérsias; o acordo era supervisionado pela RISQ Capital e foi criticado pela ausência de presença da NET88 no mercado doméstico.

O Aston Villa se aproxima de um acordo com a Audi, segundo informações em circulação. Paralelamente, tanto o Villa quanto o Everton encontraram um caminho alternativo ao deslocar seus antigos patrocinadores, Betano e Stake, respectivamente, para as mangas das camisas. O Villa teria dobrado sua receita com o acordo de manga, chegando a £4 milhões; o Everton registraria alta de 30% em relação ao contrato anterior de manga. O movimento ilustra uma tendência; sem poder aparecer no peito das camisas, marcas de apostas migraram para outros espaços permitidos, reduzindo sua visibilidade sem abandonar o futebol inglês.

Burnley, West Ham e Wolverhampton Wanderers foram rebaixados da Premier League e, por isso, podem manter seus contratos de patrocínio com casas de apostas por enquanto. O caminho, porém, não está isento de riscos; acordos com operadores licenciados fora do Reino Unido estão sob crescente escrutínio regulatório.

A pressão por regras mais rígidas

A proibição voluntária não encerrou o debate sobre a presença de apostas no futebol inglês. Pelo contrário, abriu uma nova frente. A Entain, grupo que controla marcas como Ladbrokes e Coral, pressionou o novo Regulador Independente do Futebol Inglês para que clubes da Premier League sejam impedidos de fechar acordos com operadoras de apostas sem licença britânica. A empresa afirma que 18 dos 20 clubes exibiram publicidade de operadoras consideradas ilegais durante a última temporada.

A CEO da Entain, Stella David, afirmou que “os clubes da Premier League estão sendo patrocinados por empresas de apostas ilegais”. A preocupação concentra-se na exposição dessas marcas em transmissões internacionais, via placas de LED, campanhas digitais e ativações promocionais durante as partidas.

O mercado clandestino de apostas no Reino Unido movimenta cerca de £4,3 bilhões por ano, segundo o Betting and Gaming Council. Projeções da H2 Gambling Capital indicam que esse valor pode chegar a £17 bilhões nos próximos anos. Além do impacto financeiro sobre operadores licenciados, empresas não licenciadas operam fora das exigências de proteção ao consumidor, combate à fraude e prevenção ao vício, alimentando preocupações sobre golpes, lavagem de dinheiro e manipulação de resultados.

O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte britânico prometeu uma consulta pública sobre a obrigatoriedade da proibição de patrocínio de casas de apostas sem licença, mas o processo não deve acontecer a tempo para a temporada 2026/27. A Premier League, enquanto isso, opera em um equilíbrio instável; os clubes seguem dependentes de receitas do setor de apostas, mesmo que o logotipo tenha saído do peito das camisas, enquanto a pressão política e regulatória por restrições mais amplas continua crescendo.

 

Clube

Ex-patrocinador (apostas)

Novo patrocinador 2026/27

Setor

Valor estimado/ano

Arsenal — Emirates (mantido) Aviação Não divulgado recentemente (histórico: ~£30M)
Aston Villa Betano A confirmar (Betano foi para a manga) Apostas (manga) Manga: ~£4M/ano (dobro do valor anterior)
Bournemouth Dafabet Vitality Seguros/saúde Não divulgado (contrato descrito como “menos lucrativo” que o de apostas)
Brentford Hollywoodbets Indeed Recrutamento/RH Não divulgado
Burnley TGP Europe A confirmar — —
Chelsea — A confirmar — —
Crystal Palace Marca de apostas A confirmar — —
Everton Stake CMC Markets Serviços financeiros £25–30M/ano (patrocínio de frente + Stake na manga), ante £10M anuais que recebia da Stake.com — outra fonte cita contrato plurianual, com o antigo acordo da Stake avaliado em mais de £10M/ano
Fulham SBOBet/W88 CMC Markets Serviços financeiros Não divulgado
Leeds United SBOTOP/Parimatch Red Bull Bebidas Não divulgado
Liverpool — Standard Chartered (mantido) Bancos Não divulgado recentemente (histórico: ~£20M+)
Manchester City — Etihad Airways (mantido) Aviação Não divulgado recentemente (histórico: ~£35M)
Manchester United — Snapdragon (Qualcomm) Tecnologia Buscava contrato de cerca de £60M por ano
Newcastle United Fun88 (antigo) Novo parceiro não revelado (substitui a Sela) Não-apostas Não divulgado
Nottingham Forest Bally’s A confirmar — —
Sunderland Marca de apostas A confirmar — Estimado ~50% abaixo do valor anterior
Tottenham — AIA (renovado) Seguros £320M ao longo de 8 anos (~£40M/ano)
West Ham Betway A confirmar — —
Wolverhampton Marca de apostas A confirmar — —

 

Loteria Aldeota 1Loteria Aldeota

Compartilhe: