Clubes da Premier League perdem £80 mi/ano com fim de patrocínio de apostas

A última temporada da Premier League com patrocínio de apostas na frente das camisas chegou ao fim. A partir de 22 de agosto, quando a edição 2026/27 tem início, nenhum clube da liga poderá exibir uma casa de apostas como patrocinadora principal no espaço frontal do uniforme. É a primeira vez, em muitas temporadas, que a relação mais visível entre o futebol inglês e a indústria das apostas chega ao fim, ao menos no peito das camisas.
A medida foi aprovada voluntariamente pelos clubes da Premier League em 2023 e concedeu três anos de transição antes de entrar em vigor. A iniciativa surgiu como uma resposta calculada: ao adotar a restrição por conta própria, a liga buscou afastar a possibilidade de uma proibição obrigatória mais ampla, que poderia ir além das camisas, no contexto da revisão da Lei de Jogos de Azar pelo governo britânico. O escopo da medida é preciso e limitado. O que muda é exclusivamente o espaço nobre da parte frontal do uniforme. Patrocínios em mangas, kits de treino, painéis de LED ao redor do gramado, naming rights e outras propriedades comerciais permanecem inteiramente livres para acordos com empresas de apostas.
O impacto financeiro da mudança
A dimensão econômica da proibição é expressiva. Na temporada 2025/26, empresas de apostas patrocinavam a parte frontal da camisa de 11 dos 20 clubes, tornando o setor o mais representado entre os patrocinadores máster da liga. As marcas envolvidas eram Boyle Sports, pelo West Ham; Hollywood Bets, pelo Brentford; Stake, pelo Everton; 96.com, pelo Burnley; Betano, pelo Aston Villa; bj88, pelo Bournemouth; NET88, pelo Crystal Palace; SBOTOP, pelo Fulham; Bally’s, pelo Nottingham Forest; W88, pelo Sunderland; e DEBET, pelo Wolverhampton Wanderers.
Estimativas apontam para uma perda total de receita de aproximadamente £80 milhões por ano em toda a liga, com impacto desproporcionalmente maior sobre clubes fora do chamado “Big Six”, que dependiam fortemente desses contratos. O peso é ainda maior para times recém-promovidos; estimativas indicam que o valor dos acordos de patrocínio para esse perfil de clube caiu cerca de 50% desde que o dinheiro das apostas deixou o mercado da frente de camisa.
A dificuldade em encontrar substitutos à altura fica evidente nos valores já revelados. Os contratos firmados pelo Bournemouth, com a Vitality, patrocinadora do estádio, e pelo Brentford, que deve fechar com a Indeed para o uniforme de treino, valem entre £4 e £5 milhões anuais, bem abaixo dos patamares praticados pelas apostas. Nos extremos opostos, Everton e Fulham negociam acordos com a empresa de serviços financeiros CMC Markets que podem chegar a £50 milhões ao longo de três anos.
Os substitutos e os que ainda buscam acordo
Três semanas antes do início da temporada, três clubes ainda não tinham patrocinador de frente de camisa confirmado; Sunderland, Nottingham Forest e Chelsea. O restante do campo foi ocupado principalmente por empresas de finanças e tecnologia, com participação de setores de alimentação e bebidas, software, seguros, telecomunicações e turismo.
O Crystal Palace anunciou um novo acordo com a Temporal, empresa americana de inteligência artificial, tornando-se o clube mais recente a confirmar substituto. A mudança encerra a parceria com a NET88, que ainda aparecerá na camisa do clube na próxima final europeia do time, em uma despedida acompanhada por controvérsias; o acordo era supervisionado pela RISQ Capital e foi criticado pela ausência de presença da NET88 no mercado doméstico.
O Aston Villa se aproxima de um acordo com a Audi, segundo informações em circulação. Paralelamente, tanto o Villa quanto o Everton encontraram um caminho alternativo ao deslocar seus antigos patrocinadores, Betano e Stake, respectivamente, para as mangas das camisas. O Villa teria dobrado sua receita com o acordo de manga, chegando a £4 milhões; o Everton registraria alta de 30% em relação ao contrato anterior de manga. O movimento ilustra uma tendência; sem poder aparecer no peito das camisas, marcas de apostas migraram para outros espaços permitidos, reduzindo sua visibilidade sem abandonar o futebol inglês.
Burnley, West Ham e Wolverhampton Wanderers foram rebaixados da Premier League e, por isso, podem manter seus contratos de patrocínio com casas de apostas por enquanto. O caminho, porém, não está isento de riscos; acordos com operadores licenciados fora do Reino Unido estão sob crescente escrutínio regulatório.
A pressão por regras mais rígidas
A proibição voluntária não encerrou o debate sobre a presença de apostas no futebol inglês. Pelo contrário, abriu uma nova frente. A Entain, grupo que controla marcas como Ladbrokes e Coral, pressionou o novo Regulador Independente do Futebol Inglês para que clubes da Premier League sejam impedidos de fechar acordos com operadoras de apostas sem licença britânica. A empresa afirma que 18 dos 20 clubes exibiram publicidade de operadoras consideradas ilegais durante a última temporada.
A CEO da Entain, Stella David, afirmou que “os clubes da Premier League estão sendo patrocinados por empresas de apostas ilegais”. A preocupação concentra-se na exposição dessas marcas em transmissões internacionais, via placas de LED, campanhas digitais e ativações promocionais durante as partidas.
O mercado clandestino de apostas no Reino Unido movimenta cerca de £4,3 bilhões por ano, segundo o Betting and Gaming Council. Projeções da H2 Gambling Capital indicam que esse valor pode chegar a £17 bilhões nos próximos anos. Além do impacto financeiro sobre operadores licenciados, empresas não licenciadas operam fora das exigências de proteção ao consumidor, combate à fraude e prevenção ao vício, alimentando preocupações sobre golpes, lavagem de dinheiro e manipulação de resultados.
O Departamento de Cultura, Mídia e Esporte britânico prometeu uma consulta pública sobre a obrigatoriedade da proibição de patrocínio de casas de apostas sem licença, mas o processo não deve acontecer a tempo para a temporada 2026/27. A Premier League, enquanto isso, opera em um equilíbrio instável; os clubes seguem dependentes de receitas do setor de apostas, mesmo que o logotipo tenha saído do peito das camisas, enquanto a pressão política e regulatória por restrições mais amplas continua crescendo.
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Clube |
Ex-patrocinador (apostas) |
Novo patrocinador 2026/27 |
Setor |
Valor estimado/ano |
| Arsenal | — | Emirates (mantido) | Aviação | Não divulgado recentemente (histórico: ~£30M) |
| Aston Villa | Betano | A confirmar (Betano foi para a manga) | Apostas (manga) | Manga: ~£4M/ano (dobro do valor anterior) |
| Bournemouth | Dafabet | Vitality | Seguros/saúde | Não divulgado (contrato descrito como “menos lucrativo” que o de apostas) |
| Brentford | Hollywoodbets | Indeed | Recrutamento/RH | Não divulgado |
| Burnley | TGP Europe | A confirmar | — | — |
| Chelsea | — | A confirmar | — | — |
| Crystal Palace | Marca de apostas | A confirmar | — | — |
| Everton | Stake | CMC Markets | Serviços financeiros | £25–30M/ano (patrocínio de frente + Stake na manga), ante £10M anuais que recebia da Stake.com — outra fonte cita contrato plurianual, com o antigo acordo da Stake avaliado em mais de £10M/ano |
| Fulham | SBOBet/W88 | CMC Markets | Serviços financeiros | Não divulgado |
| Leeds United | SBOTOP/Parimatch | Red Bull | Bebidas | Não divulgado |
| Liverpool | — | Standard Chartered (mantido) | Bancos | Não divulgado recentemente (histórico: ~£20M+) |
| Manchester City | — | Etihad Airways (mantido) | Aviação | Não divulgado recentemente (histórico: ~£35M) |
| Manchester United | — | Snapdragon (Qualcomm) | Tecnologia | Buscava contrato de cerca de £60M por ano |
| Newcastle United | Fun88 (antigo) | Novo parceiro não revelado (substitui a Sela) | Não-apostas | Não divulgado |
| Nottingham Forest | Bally’s | A confirmar | — | — |
| Sunderland | Marca de apostas | A confirmar | — | Estimado ~50% abaixo do valor anterior |
| Tottenham | — | AIA (renovado) | Seguros | £320M ao longo de 8 anos (~£40M/ano) |
| West Ham | Betway | A confirmar | — | — |
| Wolverhampton | Marca de apostas | A confirmar | — | — |


