Com a digitalização do dinheiro, como a parcela mais pobre da população faz transações financeiras?

Lotérica I 18.08.22

Por: Magno José

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Uso cada vez menor de dinheiro vivo cria desafio de incluir a parcela mais vulnerável dos brasileiros no sistema. Renato Meirelles cita pesquisa do Locomotiva: papel-moeda é a forma mais utilizada para pagar contas de consumo nas classes D e E, com 72% das preferências

Reportagem do Valor Econômico registra que no Brasil, o uso do dinheiro vivo resiste entre as classes mais baixas. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, o papel-moeda permanece como a forma mais utilizada para pagar as contas de consumo (como água, luz, aluguel) nas classes D e E, com 72% das preferências. O principal motivo é ter maior controle financeiro sobre o dinheiro, mas também pesa o medo de ser taxado pelos bancos. Segundo o levantamento, 45% dos bancarizados afirmam sacar de uma vez tudo o que recebem para fugir das tarifas.

Quando cada vez mais a parcela da população com poder aquisitivo opta por andar com pouco ou nenhum dinheiro no bolso, o que acontece com a base da pirâmide? A pandemia, ao fazer o governo distribuir auxílios, colaborou para que parte dessa população entrasse de alguma maneira no sistema bancário, mas ainda há obstáculos.

“Nossos estudos mostram que, do total de 1,6 bilhão [de transações por Pix], cerca de 1,5 bilhão são transações que teriam sido feitas em dinheiro”, afirma Leandro Vilain, diretor executivo de Inovação, Produtos e Serviços Bancários da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

A estimativa de Vilain leva em conta a quantidade de papel-moeda em circulação. Em abril deste ano, houve queda de 6% em relação ao mesmo mês do ano passado. Com uma inflação próxima a 10%, seria mais natural que o numerário circulante aumentasse em vez de diminuir. “São pessoas que estavam fazendo transações em dinheiro e migraram para o digital”, analisa. A maior parte das transações foi de pessoa para pessoa. “Tenho muita segurança em dizer que o Pix acabou atendendo um público de autônomos. Estes são os grandes beneficiários do sistema Pix, gerando inclusão financeira”, comemora.

Embora exaltem os benefícios do Pix, alguns especialistas consideram que ainda é cedo para comemorar a inclusão financeira. Os professores de economia Guilherme Mello, da Unicamp, e Antonio Lacerda, da PUC-SP, veem no Pix uma forma louvável de o setor público reduzir os custos de transação para as empresas e as pessoas, a partir de um instrumento da autoridade monetária que é o Banco Central. Isso porque a modalidade ajuda a substituir transferências sobre as quais há cobrança de taxas, como TED e DOC, e também as maquininhas de cartão.

Mas esse advento, que acaba servindo como uma porta de entrada para as finanças digitais e a bancarização, também impõe desafios, na medida em que falta, por grande parte da população brasileira, o letramento necessário para navegar nos produtos bancários sem incorrer em aumento de endividamento. Sem falar no analfabetismo funcional.

Este é um dos motivos pelos quais Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirma que bancarização não é sinônimo de inclusão financeira. Muitas dessas pessoas pobres ou extremamente pobres têm ou poderiam ter conta, mas não veem muita utilidade nela.

A qualidade, portanto, deve ser avaliada quando se olham os números da bancarização no Brasil, que variam de 70% a 75% da população adulta, considerando estudos do Banco Central e do Banco Mundial. Com a pandemia e o pagamento do “coronavaucher”, a Caixa Econômica Federal estima a entrada de 15 milhões a 20 milhões de pessoas novas no sistema, embora não haja divulgações oficiais, segundo Gonzalez.

É um forte impulsionador da economia.” Isso em meio à tendência de redução do papel-moeda que, a seu ver, é irreversível. A federação estima que cerca de 40% das transações no Brasil sejam feitas hoje em espécie, número que em Portugal, a título de comparação, é de 22%. “Não acho que a gente consiga chegar em 22% no curto prazo, mas é extremamente razoável imaginar que pode cair para 30%, o que trará mais efeitos positivos, como maior controle, rastreabilidade e arrecadação de tributos”, afirma Vilain.

Outro ponto que demanda inovação por parte dos bancos é tornar a interface bancária mais amigável e intuitiva do ponto de vista das classes baixas. Ele considera como principal entrave no desenvolvimento do Pix o fato de que o erro cometido na hora da transação é incorrigível. Além disso, golpes, que se tornaram mais frequentes com roubos de celular e o uso do Pix, são fonte de receio também por parte dos mais pobres. Enquanto o cliente de classe média ou alta pode recorrer a um gerente no banco tradicional para resolver um problema, ou se comunicar adequadamente com um robô por meio do chat, os menos alfabetizados têm grande dificuldade em ler, entender e escrever em canais digitais.

Sucesso das lotéricas

Daí vem o sucesso das lotéricas, onde a comunicação se dá diretamente com humanos. “Vou na lotérica, entro em contato com um moço, pago a minha conta de luz, ele me dá o recibo que eu paguei, eu grampeio e guardo esse comprovante”, diz Michel Alcoforado, fundador do Grupo Consumoteca e antropólogo especializado nas relações de consumo, exemplificando por que a materialidade ainda é um elemento tão importante na gestão financeira das camadas populares.

Para Vilain, os bancos já demonstram a capacidade de ajustar os canais de atendimento à realidade do consumidor, tanto que hoje 67% das 103 bilhões de transações anuais já são realizadas por celular ou computador.

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