Com bets proibidas, viciados em apostas veem assédio de sites chineses: ‘Derruba um e criam mil’

Viciados em apostas relatam aumento no assédio de plataformas clandestinas após a proibição das bets no Brasil, em vigor desde esta terça-feira (25/9). Ao mesmo tempo, especialistas e entidades de apoio à dependência avaliam que a medida pode ajudar na superação do vício, registra reportagem do Estadão.
Levantado pelo Estadão, o cenário pós-proibição revela uma corrida paralela: enquanto o governo federal informa ter pedido o bloqueio de 13.241 sites ilegais desde a entrada em vigor da restrição, operadores clandestinos intensificaram a divulgação em grupos de aplicativos de mensagem e redes sociais. O Ministério da Fazenda informa que, dos 188 sites autorizados até segunda-feira (5/10), apenas um ainda estava no ar; o bloqueio do restante já foi solicitado.
O psicólogo Rafael Ávila, fundador da Associação de Proteção e Apoio ao Jogador e consultor do Ministério da Saúde na elaboração de políticas para esse público, observou recaídas entre pacientes nas duas semanas anteriores à reportagem, a maioria para plataformas chinesas especializadas em caça-níqueis. Segundo ele, o movimento começou antes da data oficial da proibição, impulsionado pela intensificação do debate público sobre o tema. “Alguns [pacientes recaíram] por causa da proibição; outros porque já tinham feito a autoexclusão do governo [bloqueio do CPF] e não tinham mais acesso às plataformas regulamentadas, mas conheciam as chinesas”, relata.
Spam e plataformas clandestinas
Com a vigência da proibição, plataformas ilegais passaram a enviar comunicações em massa para usuários. “Com o avanço da proibição, plataformas começaram a enviar spam em massa. Mais forte do que era antes”, afirma Ávila. A reportagem acessou grupos em aplicativos de mensagem onde casas clandestinas são divulgadas de hora em hora, com anúncios prometendo lucros fáceis, bônus altos e garantia de dinheiro pelo simples ato da inscrição.
Gabriel Pedroso, designer gráfico de 32 anos que já teve problemas com vício em jogos, descreveu o aumento do assédio após a proibição. “Não sei se é programado por IA (inteligência artificial), mas basta acessar alguma rede social que as bets aparecem”, conta. “Estou sem jogar há meses e vêm muitas para mim. Não clico, mas sei que tem muita gente perdendo dinheiro em plataformas clandestinas.”
Eduardo Sousa, de 21 anos, relatou um episódio em um grupo de apoio a ludopatas do qual participa; um usuário divulgou uma plataforma ilegal com a alegação de que estava “bugada”, facilitando ganhos. Sousa rebateu publicamente, o conteúdo foi removido e o usuário, banido do grupo.
Bloqueios e tratamento
A empresa de tecnologia Besafe desenvolveu um aplicativo que impede o acesso a sites de apostas, tanto brasileiros quanto estrangeiros. Na última semana, o app registrou 840 novos usuários por dia, alta de 68% em relação à média anterior de 500 cadastros diários. Claudio Henrique, um dos fundadores da empresa, afirma que o volume de plataformas monitoradas saltou de 200 mil para 500 mil nos últimos 30 dias. Ele alerta, porém, para uma brecha estrutural; o governo derruba um site, mas os operadores criam outras mil subunidades e colocam todas para rodar.
O Ministério da Fazenda informou ainda atuar com a pasta da Justiça na fiscalização, com pedido de remoção de 3.552 páginas, perfis, canais, grupos e servidores em plataformas de redes sociais, com alcance estimado para cerca de 17,2 milhões de usuários, podendo incluir uma mesma pessoa em mais de um espaço.
Na área da saúde, o Ministério da Saúde iniciou nesta semana uma campanha sobre os riscos das apostas online e prevê busca ativa de pessoas vulneráveis, com base em dados do Observatório Saúde Brasil de Apostas Eletrônicas, criado pelo governo em dezembro. A pasta também afirma capacitar 40 mil profissionais do SUS sobre ludopatia (vício em jogos) e oferecer teleatendimento pelo aplicativo Meu SUS Digital, em ciclos iniciais de dez sessões por videochamada.
Até esta terça-feira (25/9), mais de 1,3 milhão de brasileiros haviam pedido autoexclusão das plataformas de apostas. Entre eles, 51% declararam relação direta com problemas de saúde.
Marcelo Ribeiro, pesquisador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que a restrição pode surtir efeito. “Há evidências de que uma redução importante da oferta pode diminuir o comportamento de jogo inclusive entre as pessoas de maior risco”, afirma.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, que representava as bets anteriormente autorizadas, cobra ampliação da fiscalização. Carlos Lima, presidente da entidade, argumenta que o mercado clandestino saiu fortalecido. “Enquanto as empresas licenciadas foram obrigadas a interromper suas atividades, os operadores clandestinos continuam anunciando, recebendo pagamentos e assediando brasileiros. O risco é deixar o consumidor ainda mais exposto justamente a quem nunca respeitou as regras. Na prática, proibir não protegeu a população”, diz Lima.


