Crise no mercado de bets: empresas iniciam processo de consolidação

Apostas I 22.06.26

Por: Magno José

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Crise no mercado de bets: empresas iniciam processo de consolidação
Reportagem da Folha de S.Paulo destaca que com dívidas próximas a R$ 100 mi, operadoras buscam venda e fusões em setor com 187 marcas e apenas 10 grandes players

O mercado brasileiro de apostas esportivas registra seus primeiros casos de operadoras com dívidas expressivas, combinando calotes a clubes de futebol e à União com um movimento de consolidação que engole marcas de menor porte. O cenário mais crítico envolve cobranças judiciais próximas a R$ 100 milhões contra uma única empresa, segundo apuração da Folha de S.Paulo.

A crise atinge principalmente bets com faturamento mensal abaixo de R$ 5 milhões, patamar considerado insustentável para operar no país, de acordo com Plínio Lemos, presidente da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias). O mercado conta hoje com 187 marcas regulares, mas dez delas concentram mais de 67% da participação.

Alfa Bet: dívidas e busca por comprador

O caso mais grave é o da Alfa Bet, empresa paulista com cerca de 0,1% do mercado, conforme dados da consultoria H2 Gambling Capital. Depois de deixar de pagar contratos de patrocínio com Grêmio e Internacional em 2025, a companhia acumulou cobranças judiciais próximas a R$ 90 milhões. Em abril de 2026, firmou acordo para quitar parte da dívida com o Grêmio, mas não efetuou os pagamentos previstos.

O fundador e diretor operacional da Alfa Bet, Matheus Antunes, confirmou as dificuldades e a busca por um comprador. “Estamos conduzindo negociações visando a transferência da operação para um novo grupo investidor, com o objetivo de assegurar a continuidade da atividade e a adequada composição das obrigações perante credores”, declarou.

Em processos judiciais, a empresa alegou que as dificuldades financeiras decorrem dos custos da regulamentação, incluindo a licença de operação de R$ 30 milhões e as novas exigências tributárias. O grupo de mídia gaúcho RBS também cobra judicialmente cerca de R$ 200 mil por campanhas publicitárias não pagas pela Alfa Bet. A empresa afirmou que aguarda o pagamento e a conclusão da disputa.

Grêmio e Internacional informaram que só se pronunciariam nos autos judiciais. O faturamento da Alfa Bet era de cerca de R$ 3,5 milhões mensais, abaixo do piso mínimo apontado por especialistas do setor.

“A empresa não consegue fechar a conta, considerando os 12% do governo, todos os impostos normais, a folha de pagamento e a necessidade de continuar crescendo”, afirmou Lemos, da ANJL.

Fusões como saída para marcas pequenas

Além do caso da Alfa Bet, a Folha de S.Paulo identificou dois episódios em que marcas menores foram incorporadas por grupos maiores. O Cade recebeu três notificações de atos de concentração envolvendo bets licenciadas pelo Ministério da Fazenda.

O grupo RNGX, dono da Cactus Tecnologia e da Ana Gaming, controladora da Bet7K, anunciou na segunda-feira (25/3) a compra das concorrentes Donald Bet e Bet Ponto Bet. O Cade aprovou a operação em segunda-feira (6/4). O valor da transação nunca foi divulgado pelas empresas, mas o CEO da Ana Gaming, Marco Tulio Oliveira, afirmou que a compra foi feita com recursos próprios, sem intermediação bancária.

A motivação declarada é a redução de custos. “Já temos uma estrutura de compliance, investimentos e setor financeiro. Quando fazemos a aquisição, ganhamos sinergia”, declarou Oliveira. A Donald Bet detinha cerca de 0,35% do mercado, o equivalente a R$ 10 milhões mensais; a Bet Ponto Bet respondia por 0,2%, ou cerca de R$ 6 milhões por mês. A Ana Gaming soma 4,5% de participação, distribuídos entre as marcas Cassino (2,3%), Bet7K (2%) e Vera Bet (0,2%).

Antes de ser adquirida pelo grupo RNGX, a Donald Bet tentou, sem sucesso, uma parceria com a Bet Gorillas. A Bet Gorillas confirmou que avaliou a possibilidade de fusão com a Donald Bet em 2024, por razões estratégicas. A Bet Ponto Bet era controlada por uma família de Rondônia, dona da Open Gaming.

Apesar das aquisições, a própria Ana Gaming também reduziu gastos com patrocínios. A empresa encerrou contratos com Santos e Vitória, da Bahia, onde era patrocinadora master. Oliveira atribuiu a decisão ao avanço da carga tributária e ao custo operacional imposto pelas regras do Ministério da Fazenda. “Temos que escolher esses investimentos de forma estratégica, alocando recursos e pensando na longevidade e na sustentabilidade do negócio”, declarou.

Risco para apostadores e proteção regulatória

O endividamento das bets levanta uma questão para quem mantém depósitos nessas plataformas; o setor não dispõe de mecanismo equivalente ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito) dos bancos. A regulação estabelece regras de separação dos valores dos apostadores e exige um depósito de segurança de R$ 5 milhões para cumprimento de obrigações financeiras.

O advogado especializado em direito regulatório Sérgio Alves explicou que, se as normas forem cumpridas, o apostador não se torna credor da casa. “No caso das bets licenciadas, os valores das apostas não são ativos das casas e, por isso, não são considerados para fins de falência ou recuperação judicial”, afirmou. Alves ressalvou, porém, que ainda faltam precedentes para esclarecer como ocorreria na prática a separação de ativos. “Ainda precisamos ver um caso concreto para entender melhor como será a separação de ativos e as bases da bet“, afirmou.

O caso mais recente de consolidação no setor envolve a compra de uma bet ligada ao apresentador Luciano Huck, que desistiu de ingressar no mercado regulado pela marca do Grupo Globo, a BetMGM. A maior operação registrada pelo Cade foi a compra de 56% da pernambucana Betnacional pela multinacional Flutter, controladora da Betfair, por R$ 3,8 bilhões.

 


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