Editorial: O meu partido é o jogo. E o PT nunca esteve do lado dele

Os grandes jornais norte-americanos têm uma tradição saudável: durante uma eleição presidencial, dizem com clareza ao leitor os candidatos que apoiam e por quê. O BNLData, primeiro veículo digital especializado em jogos, apostas e loterias da América do Sul, segue essa tradição. Faltando poucos dias para o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, é hora de assumir uma posição.
Costumo dizer que o meu partido é o jogo. Há 30 anos dedico minha vida profissional a uma única causa: tirar o jogo da clandestinidade e trazê-lo para o mercado legal e regulamentado. Já votei em muitos candidatos, inclusive em Lula, na última eleição. Não voto mais. E explico por quê.
2004: a primeira punhalada
Comecei no setor em 1996, no tempo dos bingos. Em 2002, o candidato Lula repetia em entrevistas que legalizaria o jogo do bicho e que não entendia por que ele era proibido. A expectativa era a melhor possível.
Veio 2004, e com ele o escândalo Waldomiro Diniz, que atingia o coração do governo, na Casa Civil de José Dirceu. A resposta do Planalto foi a Medida Provisória 168: os bingos foram proibidos da noite para o dia. Cerca de 120 mil pessoas perderam o emprego. O Senado rejeitou a MP, mas o estrago estava feito: uma atividade organizada se desestruturou, e o Supremo Tribunal Federal, ao julgar a Loteria Social do Distrito Federal, fechou a porta das loterias estaduais operarem a modalidade de bingo.
Foi a primeira vez que o PT usou o jogo como bode expiatório para desviar a atenção de uma crise política. Não seria a última.
Dezoito anos de nada
Somem-se os 12 anos de Lula e os seis de Dilma: nenhum avanço para o setor. Os avanços vieram de outros lados. Foi no governo Michel Temer que a Lei 13.756/2018 criou as apostas de quota fixa. Foi em 2022, sob a liderança de Arthur Lira, que a Câmara aprovou o PL 442/91, parado desde 1991. O então presidente Jair Bolsonaro não ajudou, é verdade — mas também não atrapalhou, e poderia ter atrapalhado.
No atual mandato de Lula, o único passo foi a aprovação do marco legal dos jogos na CCJ do Senado sob o comando do então presidente Davi Alcolumbre. Depois disso, o projeto empacou no plenário. Não por acaso: o ambiente político contra o jogo foi envenenado a partir do próprio Palácio do Planalto.
2026: o segundo golpe
A Lei 14.790/2023 abriu um ciclo promissor. Em menos de dois anos, o mercado regulado amadurecia: autoexclusão, KYC (conheça seu cliente), controle de menores, prevenção à lavagem de dinheiro, arrecadação crescente. Foi exatamente nesse momento que Lula, por cálculo eleitoral, editou a medida provisória que proíbe as bets.
O resultado era previsível — e o BNLData previu. O mercado migrou, de forma agressiva, para a ilegalidade. O Brasil voltou a dezembro de 2024, quando o jogo era permitido, mas não regulamentado. A oferta de plataformas ilegais é hoje absurda, e mesmo que a operação legal seja restabelecida, o mercado jamais será o mesmo.
O governo dizia querer proteger o apostador. Fez o contrário: retirou dele todas as proteções e o empurrou para sites sem nenhum controle de idade, de lavagem de dinheiro ou de autoexclusão. Quem vai lesar o povo que o presidente diz defender é o mercado ilegal — que segue livre, sob o silêncio cúmplice de Brasília.
De empresários a “ladrões”
Há, porém, algo pior do que o erro de política pública: o discurso. Em uma passeata em Natal, após o primeiro turno, o presidente da República disse que aquele ato era de quem não quer mais “bet roubando o povo deste país”.
Os empresários dormiram licenciados pelo governo e acordaram ladrões pela boca do do mandatário do mesmo governo.
Nenhum chefe de Estado deveria tratar com tamanha leviandade uma atividade que ele próprio autorizou, tributou e fiscalizou. O preconceito tem consequências concretas: trabalhadores demitidos pelo setor hoje enfrentam dificuldade de recolocação, marcados por uma pecha que lhes foi colada pelo Planalto. A campanha contra as bets, embalada pela primeira-dama Janja da Silva, transformou um setor econômico inteiro em vilão de palanque.
Minha posição
Jogos, apostas e loterias são atividades econômicas legais e regulamentadas em praticamente todo o mundo democrático. Como repetimos há décadas: o jogo é legal ou ilegal; o não jogo não existe. Proibir não elimina a aposta — apenas entrega o apostador ao crime.
Com o PT no poder, o setor só conheceu retrocesso, preconceito e insegurança jurídica. Foi assim em 2004. É assim em 2026. Por isso, o editor do BNLData não pode recomendar o voto em Lula. Que as urnas cobrem a conta de quem gerou desemprego para milhares de pessoas e desconfiança na sociedade.
(*) Magnho José, 66 anos, é jornalista e especialista em jogos, apostas e loterias, setor em que atua há 30 anos. É fundador e editor do BNLData e presidente do IJL – Instituto Brasileiro do Jogo Legal.


