Entenda por que o Tropicana, hotel-cassino preferido de James Bond em Las Vegas, fechou as portas

Faz uma semana que ninguém mais joga nas mesas de pôquer ou dorme nos 1.467 quartos do Tropicana, um dos hotéis-cassinos mais tradicionais de Las Vegas. A sorte do estabelecimento, que abriu as portas pela primeira vez em 4 de abril de 1957 e fechou de vez no último dia 2 de abril, dois dias antes de seu 67º aniversário, estava traçada há tempos, e não resistiu às mudanças de direção que a cidade tem tomado nos últimos anos. Palco de shows icônicos e locação de filmes como “007 – Os diamantes são para sempre” (1971) e “O poderoso chefão” (1972), o Tropicana dará espaço a um novo estádio de beisebol.
O hotel será demolido em outubro, quando começará a construção do novo estádio do Oakland Athletics, time de beisebol baseado em Oakland, na Califórnia, mas que se mudará para Las Vegas quando sua nova arena para 30 mil espectadores estiver concluída, entre 2027 e 2028. Curiosamente, será a segunda franquia esportiva a deixar a cidade californiana para a “Sin City”, seguindo os passos da equipe de futebol americano Oakland Raiders, que desde 2020 joga em Las Vegas.
Com a construção estimada em US$ 1,5 bilhão, a nova arena é mais uma etapa da nova aposta de Las Vegas nos grandes eventos esportivos. Além de ter recebido provas da Fórmula 1, com corridas de rua, a cidade sediou a edição de 2024 do Super Bowl, a final do campeonato nacional de futebol americano e o maior evento esportivo do país. O palco foi o novíssimo Allegiant Stadium, casa do Raiders, que fica numa quadra a oeste da Strip e receberá um jogo da Seleção Brasileira (sim, de futebol) na Copa América. A partida acontecerá em 28 de junho, pela fase de grupos da competição.
A cidade já tem também o time de hóquei no gelo Golden Knights, que, apesar de estar localizado em pleno deserto, foi campeão da Stanley Cup (o torneio nacional da modalidade) em 2023. Com a chegada em breve da equipe de beisebol, Las Vegas terá representante em três das quatro principais ligas esportivas dos EUA, garantindo um movimento de torcedores de todo o país durante o ano inteiro.
Shows e celebridades
Quando tudo era mato (ou, neste caso, deserto), o Tropicana ajudou a formar a Las Vegas que o mundo conhece hoje. Foi o terceiro hotel-cassino a surgir na Strip, o nome popular do trecho mais agitado da Las Vegas Boulevard, num momento importante de crescimento da cidade. Antes da Strip, os cassinos se concentravam na Fremont Street, em Downtown Las Vegas.
Quando abriu as portas, em 1957, o Tropicana era o maior e mais luxuoso hotel-cassino de Las Vegas. Apelidado de “Tiffany of the Strip”, o novo empreendimento chamava atenção pela opulenta decoração de seus 300 quartos (todos com varanda) e de suas áreas comuns. A piscina, em forma de lua crescente, era outro ponto que chamava a atenção dos primeiros hóspedes. Segundo os jornais da época, mais de 12 mil pessoas compareceram à inauguração.
A primeira atração de seu teatro foi o cantor Eddie Fisher, que se tornou figura carimbada no hotel, ao lado de sua primeira esposa, Debbie Reynolds, e da segunda, Elizabeth Taylor. Ambas grandes estrelas da cultura popular dos EUA na época e cujo escândalo (Fisher trocou Debbie por sua amiga Liz) ajudou a colocar o Tropicana ainda mais em evidência nas revistas de celebridade da época.
Ricos e famosos, aliás, não faltavam nos corredores do Tropicana. O hotel era um dos endereços preferidos do Rat Pack, com Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr dando as caras por lá com frequência. Muhammad Ali também gostava do hotel, tanto que se hospedou nele durante a preparação para a disputa do mundial de pesos pesados do boxe contra Ron Lyle, em 1975.
Outro hóspede famoso, desta vez na ficção, foi James Bond. “‘Ouvi que o Hotel Tropicana é bem confortável”, disse o mais famoso dos espiões à serviço de Sua Majestade, interpretado por Sean Connery, numa célebre cena do filme “007 – Os diamantes são eternos” (1971). No cinema, o cassino serviu de locação também para as cenas de jogatina de “O poderoso chefão” (1972).
No final de 1959, o Tropicana estreou seu teatro de revista “Folies Bergere”, inspirado pelo teatro burlesco de Paris. As vedetes, com pouca roupa e muitas penas, acabaram se tornando um símbolo do tipo de entretenimento que Las Vegas oferecia a seus visitantes, e se tornaram ainda mais populares ao aparecer no filme “Viva Las Vegas” (1964), com Elvis Presley.
Em suas cinco décadas de duração, o show apresentou figurinos e cenários elaborados, música original que já foi tocada por uma orquestra ao vivo, dançarinos, shows de mágica, acrobatas e comédia. Serviu também como plataforma de lançamento de novos artistas, como a dupla de mágicos Siegfried e Roy, famosos por seus números com animais, e que se apresentaram pela primeira vez nos EUA no “Folies”. A última apresentação do cabaré aconteceu em 2009, em plena recessão causada pela crise econômica global do ano anterior, e também às muitas mudanças pelas quais a cidade passava.
Ligações com a máfia
Desde seus primeiros dias, o Tropicana conviveu com o glamour e o lado sombrio da “Sin City”. A relação com o crime organizado foi explicitada semanas após sua inauguração, quando o mafioso Frank Costello levou um tiro na cabeça, em Nova York. Ele sobreviveu ao ferimento, mas a polícia, ao revistar seus bolsos, encontrou anotações sobre o faturamento do cassino, como a quantidade de dinheiro arrecadada com o jogo e quanto deveria ser repassado para cada sócio “oculto” do negócio.
Nos final dos anos 1970, o cerco à máfia se fechou ainda mais, e, novamente, envolveu o Tropicana. Durante uma investigação de 1979, batizada de Operation Strawman, o FBI gravou um executivo do hotel, Joe Agosto, confessando que pagava propina ao responsável por fiscalizar os jogos de azar em Nevada, Harry Reid. Essa operação inclusive, aparece na trama do filme “Cassino” (1995), de Martin Scorcese – na tela, no entanto, o fictício hotel-cassino Tangiers foi inspirado no extinto Stardust e não no Tropicana, e a maioria das cenas foi rodada em outro cassino, o Riviera, demolido em 2016.
A operação revelou que muitos dos sócios ocultos do Tropicana faziam parte de uma família de mafiosos de Kansas City. Por causa disso, as autoridades do estado de Nevada exigiram que o hotel fosse vendido para donos sem ligação com o crime organizado, e o hotel-cassino foi adquirido pelo grupo Ramada Inn.
As expansões continuaram acontecendo com os novos proprietários. Nos anos 1980, o hotel ganhou seu formato definitivo, com duas imensas torres que reuniam quase 1.500 habitações. Mas nas últimas décadas não conseguiu acompanhar o ritmo de mudanças pelas quais a cidade tem passado, com a chegada de resorts ainda maiores e mais modernos, e novas opções de entretenimento. Após mudar de donos mais algumas vezes, o terreno do Tropicana foi finalmente vendido ao Oakland Athletics em 2023. (Globo Online – Boa Viagem)


