Entre o potencial e a maturidade: o que realmente forma um profissional no iGaming

Opinião I 31.01.26

Por: Magno José

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Entre o potencial e a maturidade: o que realmente forma um profissional no iGaming
Eliane Nunes*

Por muito tempo, acreditou-se que experiência era sinônimo de tempo. Hoje, parece que vivemos o extremo oposto: a ideia de que alguns meses em um cargo já são suficientes para formar especialistas, líderes e referências de mercado.

Nos últimos meses, essa percepção tem se tornado cada vez mais evidente — especialmente no setor de iGaming. Durante a ICE, em uma conversa longa e bastante rica com uma especialista de longa trajetória no setor, comentávamos justamente sobre isso: como impressiona a quantidade de profissionais que se apresentam como especialistas após uma ou duas experiências curtas, muitas vezes de poucos meses cada.

E não, o problema não é a pouca idade ou o pouco tempo de mercado. Eu mesma já apostei em jovens talentos e não tenho nada além de orgulho da trajetória que construíram. Tempo, por si só, realmente não forma ninguém. Mas a ausência de vivência, reflexão e autocrítica cobra seu preço, quase sempre silenciosamente, e quase sempre impactando equipes inteiras.

Existe uma diferença fundamental entre potencial e maturidade: o primeiro é promessa e o segundo, construção.

E essa construção passa por algo que anda em falta: escuta, observação, humildade e disposição para aprender continuamente. Não apenas aprender tecnicamente, mas aprender sobre pessoas, processos, cultura, limites e consequências.

Durante a abertura da Casa Brasil na ICE, uma fala do Magnho José, do BNLData e do Instituto Jogo Legal, me marcou especialmente. Ele lembrou que era, sim, um momento de comemorar o primeiro ano da regulamentação do mercado brasileiro, mas sem esquecer de todos que vieram antes.

Porque, por mais óbvio que pareça, o mercado de iGaming no Brasil não começou em janeiro de 2025!

Houve muita gente “amassando o barro”, abrindo caminho, enfrentando resistência, falta de informação, e ainda mais insegurança jurídica e descrédito. Profissionais que trabalharam quando o tema ainda era ainda mais tabu, quando não havia palco, nem holofotes, nem likes. Gente como o próprio jornalista, que segue incansável, estudando, se atualizando, acompanhando cada movimento do setor com seriedade e profundidade.

São esses precursores que deveriam servir de espelho.
Não pelo cargo que ocupam, mas pela constância, pela curiosidade intelectual e pela disposição genuína de aprender — sempre.

Ao longo da minha carreira (primeiro em comunicação, depois em eventos e finalmente em iGaming), tive o privilégio de conviver com líderes que marcaram profundamente minha forma de atuar. Alguns gestores de fato, que conduziam pelo exemplo, pela escuta e pela responsabilidade, mas também convivi com líderes “de crachá”, que, mesmo ocupando posições de destaque, deixaram lições valiosas justamente sobre o que não fazer. Ambos ensinam. Mas só um constrói.

Nos últimos anos, especialmente, tenho observado um fenômeno curioso: uma valorização quase automática do discurso motivacional, do “acredite no seu potencial”, como se isso, por si só, fosse suficiente para sustentar decisões, liderar pessoas ou conduzir negócios complexos.

Potencial é importante, sem dúvida, mas ele não se sustenta sozinho.

Sem repertório, sem vivência real, sem capacidade de escuta e sem autocrítica, o potencial vira apenas discurso. Um discurso bonito, bem ensaiado – muitas vezes turbinado por pitches impecáveis e currículos bem formatados, mas que não se sustenta no dia a dia.

Porque é no cotidiano que o profissional se revela: na forma como lida com pressão, na maneira como toma decisões difíceis, no respeito às equipes, clientes e parceiros, no fit cultural com a empresa, e na consciência do impacto que suas escolhas geram.

Tenho visto, de perto, movimentos muito distintos. Pessoas que mudaram de posição porque estavam, de fato, prontas, maduras, consistentes, preparadas. E outras que avançaram rápido demais, apostando em um potencial que ainda não estava pronto para sustentar o peso da responsabilidade.

Errar faz parte. Arriscar também. Crescer exige coragem. Mas existe uma diferença clara entre coragem e precipitação.

Sempre digo às pessoas com quem trabalho: é fundamental manter o filtro da autocrítica ligado. Não aquela que paralisa, mas a que protege da soberba. Porque, no fim, a soberba costuma ser tão prejudicial quanto o medo e, muitas vezes, mais silenciosa.

Talvez estejamos vivendo um momento geracional em que a troca constante parece mais sedutora do que a permanência. Em que mudar de janela parece mais interessante do que observar a paisagem com atenção.

E é importante deixar isso claro: não estou falando aqui de janelas tóxicas: empresas desestruturadas, ambientes e gestores que drenam energia, bloqueiam o crescimento e se tornam verdadeiros “serial killers” de motivação. Esses lugares, sim, precisam ser deixados para trás.

Mas, feita essa ressalva, fica a provocação: será que, às vezes, não estamos deixando passar algo essencial? Será que nem toda mudança rápida está, de fato, conectada a um processo real de amadurecimento? Será que a busca constante pelo novo não está, em alguns casos, nos impedindo de aprofundar, aprender e construir com mais consistência?

Essa reflexão sempre me leva ao livro e à peça “Pare de Falar Mal da Rotina”, de Elisa Lucinda. Já assisti e li diversas vezes, e nunca foi igual. O texto é o mesmo. A artista é a mesma. Mas o espetáculo muda, porque a plateia muda. Porque o olhar se renova.

Quando se está no palco sem olhar para a plateia, tudo se torna repetitivo.

Quando há troca, presença e escuta, até o mesmo texto ganha novos sentidos.

Talvez seja isso que falte em parte do mercado hoje: menos pressa em parecer pronto e mais disposição para realmente se tornar.

Porque, no fim, experiência não é sobre quanto tempo se passou, mas o quanto se aprendeu no caminho.

(*) Eliane Nunes (Comunicóloga com mais de 30 anos de carreira, atua – sempre aprendendo – no mercado de iGaming desde 2017. Teve passagens pela Clarion Events, onde esteve à frente da organização da programação de conteúdo do Brazilian Gaming Congress (BgC) e do Online Gaming Summit (OGS Brazil), e pela Salsa Technology.

 

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