FactCheck: artigo na Folha usa pesquisa sobre mulheres e bets para defender a proibição, mas distorce e extrapola os dados

Apostas I 08.10.26

Por: Magno José

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Texto das coordenadoras do estudo “Mulheres & Bets” acerta os números centrais, mas omite contexto, altera um indicador de violência e atribui à proibição efeitos que a pesquisa não mediu

A Folha de S.Paulo publicou nesta segunda-feira (28), na seção Tendências/Debates, o artigo “O que as mulheres ganham com o fim das bets“. Assinam o texto Beatriz Della Costa e Mariana Ribeiro, codiretoras da Clarice, e Sylvia Siqueira, gerente de Democracia para América Latina da Open Society Foundations. O artigo defende a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa no país, com base na pesquisa “Mulheres & Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias”. A pesquisa foi produzida pela própria Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto Ideia e divulgada em 17 de agosto.

O BNLData checou as principais afirmações do artigo com os dados divulgados da pesquisa e com o texto da MP.

A MP “proíbe as apostas online” — IMPRECISO

A MP 1.394 proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de apostas de quota fixa, em meio físico ou virtual. As demais modalidades lotéricas autorizadas por lei ficam fora da medida, inclusive as vendidas pela internet. O que foi proibido é uma modalidade específica, não “as apostas online”.

“54% das brasileiras lidam com as bets” — CORRETO, MAS INCOMPLETO

O número existe na pesquisa, mas soma grupos diferentes. Segundo o levantamento, 42% das mulheres já apostaram ou apostam online. Desse total, apenas 20% apostam atualmente, e 22% já deixaram de apostar. Outras 12% nunca jogaram, mas dizem ser afetadas por parentes ou amigos. Ao afirmar que essas mulheres “lidam” com as bets, o artigo trata ex-apostadoras como parte de um problema presente.

“62% das brasileiras apoiam a proibição, e metade dos homens também” — CORRETO, MAS SEM CONTEXTO

Os percentuais conferem: 62% entre mulheres e 50% entre homens. O artigo, porém, omite quatro informações relevantes:

⇒ No conjunto da população, o apoio à proibição é de 56%.

⇒ A enquete foi feita em 8 e 9 de julho, antes da edição da MP.

⇒ 41% das mulheres defendem que as plataformas continuem funcionando, mas sem publicidade.

⇒ A própria pesquisa não recomendou a proibição total. Entre suas propostas estava restringir gradualmente as modalidades de apostas, começando pelos cassinos online.

As autoras celebram agora uma medida mais radical do que a sugerida pelo estudo que elas mesmas coordenaram.

“O dinheiro volta para casa: mais da metade das brasileiras está endividada” — ENGANOSO

O dado de endividamento vem da própria pesquisa e é autodeclarado: 56% das mulheres se consideram endividadas. O problema está na relação que o artigo sugere. Os motivos que as apostadoras citaram para apostar incluem pagar despesas básicas (16%) e quitar dívidas (11,5%). Ou seja, a pesquisa indica que o endividamento antecede a aposta, e o fim das bets não elimina essas dívidas.

A afirmação de que “o dinheiro volta para casa” também ignora que o mercado ilegal ainda responde por mais de 40% das apostas no país, mesmo após quase dois anos de regulação. Nada garante que o dinheiro retirado das plataformas licenciadas não migre para os sites ilegais, que não pagam impostos, não protegem o apostador e não se submetem a regras de jogo responsável.

“23% dos brasileiros já presenciaram cenas de agressividade na família” — DISTORCIDO

O indicador original é mais amplo e mais fraco. Segundo a pesquisa, 23% dos brasileiros presenciaram ou conhecem alguma situação em que as apostas contribuíram para casos de violência dentro das famílias. Ao suprimir o “ou conhecem”, o artigo transforma relatos de terceiros em testemunho direto.

O artigo também afirma que esse número dobra entre apostadores frequentes. O BNLData não localizou esse dado em nenhum dos materiais divulgados da pesquisa.

“A saúde mental é restaurada, e a violência diminui” — SEM EVIDÊNCIA

A pesquisa “Mulheres & Bets” retrata percepções em um momento específico. Ela não mede efeitos de uma proibição, e o artigo não apresenta nenhum outro dado que sustente essa relação de causa. Trata-se de uma projeção apresentada como resultado.

Menores apostando com CPF de adulto, “sem barreira nas plataformas” — GENERALIZAÇÃO

O relato vem da etapa qualitativa da pesquisa, que ouviu 60 pessoas. Segundo o estudo, menores burlam a regra dos 18 anos quase sempre usando o CPF de um adulto da casa, com ou sem consentimento. A pesquisa não distingue plataformas autorizadas de ilegais. No mercado regulado, a verificação de identidade inclui reconhecimento facial, o que torna a afirmação de ausência de barreira, no mínimo, genérica.

A própria pesquisa aponta outro problema: 74% das mulheres nunca ouviram falar do Sistema de Autoexclusão do governo. O dado indica uma falha de divulgação e de fiscalização das ferramentas de proteção que já existiam, e não um argumento a favor da proibição.

Autoria e interesse

Duas das três signatárias coordenaram a pesquisa usada como base do artigo, que funciona, portanto, como defesa dos próprios dados. Na imprensa, o estudo foi atribuído ao “estúdio Clarice”, mas o artigo é assinado em nome do “Instituto Clarice”. Não há informação pública sobre o financiamento da pesquisa.

Conclusão

O artigo parte de uma pesquisa com dados relevantes sobre o impacto das apostas na vida das mulheres. Mas usa esses dados para sustentar conclusões que eles não autorizam: que a proibição devolverá dinheiro às famílias, reduzirá a violência e restaurará a saúde mental. O texto também omite que o próprio estudo propunha restrições graduais, e não o banimento total. E não enfrenta a principal consequência previsível da MP, que é a migração dos apostadores para um mercado ilegal que já é grande e que fica sem concorrência regulada.

 

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