FINANCIAL TIMES: Lula perde batalha na guerra contra os bingos
Esta foi uma boa semana no Brasil para os que praticam jogos de azar, os mal remunerados e os políticos oportunistas. Mas para Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente de esquerda, os últimos dias foram marcados por derrotas embaraçosas que ameaçam desorganizar a sua agenda de governo. Na última quarta-feira, uma votação no Senado impediu a ratificação de um decreto presidencial proibindo o funcionamento dos bingos.
Lula baixou o decreto após a revelação, em fevereiro, de que um assessor graduado do seu chefe de gabinete pediu propinas e contribuições de campanhas para o Partido dos Trabalhadores (PT) – o partido do presidente – a indivíduos que administram jogos ilegais e de bingos. A votação da quarta-feira deveria ter resultado em uma vitória fácil para o governo. Mas, em um misto de incompetência e traição, o Senado rejeitou o decreto por um voto.
Vários senadores do PT deixaram de comparecer à votação, assim como parlamentares do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que supostamente é aliado do governo. Outra derrota se seguiu quando a oposição conseguiu criar uma comissão parlamentar para analisar um outro decreto baixado na semana passada, que aumenta o salário mínimo brasileiro de R$ 240 para R$ 260. Lula – que prometeu, durante a sua campanha, dobrar o valor do salário mínimo – ficou nitidamente abalado pelo aumento diminuto de apenas um pouco mais de 1% em valores reais.
Devido ao fato de o salário mínimo ser utilizado para determinar os pagamentos das aposentadorias, cada acréscimo de R$ 10 no seu valor gera um déficit anual de R$ 2,15 bilhões no já sobrecarregado sistema da previdência social. Não obstante, políticos de oposição e membros insatisfeitos do PT propuseram que o salário mínimo fosse aumentado para até R$ 303. Nenhuma das derrotas, por si só, seria desastrosa. Ontem o governo estava preparando novas medidas para fechar os bingos, e vai reverter facilmente qualquer decisão adversa tomada pela comissão parlamentar sobre o salário mínimo.
As derrotas demonstram que os radicais do PT e a oposição estão preparados para embaraçar o governo, cujo suporte público tem sido minado pelo aumento do desemprego e pela recusa da economia em voltar a crescer.
E elas evidenciam que o PMDB, que vinha dando um apoio crucial ao programa de reformas do governo, está preparado para jogar pesado se, conforme aconteceu, o governo for lento em conceder cargos políticos para os membros do partido. "A liderança foi extremamente incompetente ao deixar que isso acontecesse", critica David Fleischer, um cientista político de Brasília. "Eles estão em sérios apuros no Senado". FINANCIAL TIMES – Jonathan Wheatley


