IBIA: proibição das bets desliga o radar contra a manipulação no esporte brasileiro

A Associação Internacional de Integridade de Apostas (IBIA) dedicou ao Brasil o principal destaque do seu Relatório de Integridade do 3º trimestre de 2026. Sob o título “Brasil: o custo da proibição”, a entidade resume o caso em duas frases: em 21 meses, o país construiu um dos marcos regulatórios de apostas mais completos do mundo e, em 25 de setembro de 2026, desligou esse marco.
A análise se baseia no estudo Brazil: The Cost of Prohibition, publicado pela IBIA em outubro, com dados de mercado da consultoria H2 Gambling Capital.
Nota 77, acima de Portugal
A IBIA avaliou o modelo brasileiro anterior à proibição com os mesmos 27 critérios que aplica a todas as jurisdições. O Brasil recebeu 77 pontos em 100, acima de Portugal (68) e abaixo da Grã-Bretanha (86). A nota se divide assim:
⇒ Regulação: 22/30
⇒ Tributação: 12/20
⇒ Produto: 19/20
⇒ Publicidade: 16/20
⇒ Integridade: 8/10

Entre 1º de janeiro de 2025 e 25 de setembro de 2026, o mercado regulado reuniu mais de 80 operadores licenciados, que atendiam cerca de 25 milhões de apostadores. O mercado tinha tamanho anualizado de R$ 40 bilhões e canalizava para o ambiente legal 70% da receita bruta (GGR) de apostas e jogos. No mesmo período, foram bloqueados 13 mil sites ilegais, além de bloqueios de pagamentos e de publicidade.
Alertas mais que dobraram com a regulação
O relatório mostra o efeito da regulação sobre o monitoramento. A partir de 1º de janeiro de 2025, todo operador com licença federal passou a ser obrigado a monitorar apostas suspeitas, comunicá-las ao regulador e aderir a um órgão independente de integridade. A manipulação de resultados passou a ser crime, com pena de 2 a 6 anos.
O resultado aparece nos números da própria IBIA. Entre 2021 e 2024, a entidade registrou em média 11 alertas por ano sobre o Brasil (11, 14, 11 e 7). Em 2025, primeiro ano do mercado regulado, foram 25 alertas.
“A regulação tornou visíveis as apostas suspeitas. A proibição desliga isso”, diz a IBIA. A entidade lembra que um alerta indica aposta suspeita, não manipulação comprovada. Ou seja, o aumento reflete mais vigilância, não necessariamente mais fraude.
Para onde vai o dinheiro
O ponto central do estudo é que a proibição elimina a oferta licenciada, mas não a demanda. Pelas estimativas da H2 Gambling Capital, de 29 de setembro:
⇒ O mercado regulado, de R$ 40 bilhões anuais, cai a zero. As licenças caducaram em 25 de outubro.
⇒ O mercado offshore salta de R$ 17 bilhões para R$ 42 bilhões.
⇒ Com isso, R$ 25 bilhões que antes eram apostados em casas reguladas passarão a ir para operadores no exterior. Isso equivale a quase dois terços do mercado legal.
O que a integridade esportiva perde
A IBIA lista três perdas diretas:
⇒ Fim do dever de comunicar. Ninguém mais é obrigado a reportar apostas suspeitas sobre o esporte brasileiro.
⇒ Fim do rastro de provas. Regulador e polícia perdem acesso aos dados de apostas e de contas.
⇒ Sanções em risco. O monitoramento feito pelos operadores sustentava punições esportivas e condenações criminais.
Recomendação
A entidade recomenda que o Brasil reconsidere a proibição pelo processo legislativo ordinário, com uma avaliação de impacto publicada. Pede também que o país mantenha o arcabouço de integridade e concentre a fiscalização nos operadores offshore. A proibição foi feita por medida provisória, a MP 1.394.
Os números do trimestre
No quadro global, a IBIA comunicou 67 alertas de apostas suspeitas às autoridades competentes no 3º trimestre de 2026, ante 76 no trimestre anterior. Os alertas envolveram oito esportes:
⇒ Tênis de mesa: 20 (30%), todos em eventos fora das competições da ITTF
⇒ Futebol: 15 (22%)
⇒ Tênis: 11 (16%)
⇒ Críquete: 9 (13%)
⇒ eSports: 8 (12%)
⇒ Corridas de galgos: 2
⇒ Basquete: 1
⇒ Badminton: 1
A Europa concentrou 64% dos casos, com destaque para a Polônia (12 alertas) e a República Tcheca (7). Em seguida vieram os alertas globais (12%), a África (10%), a América do Sul (9%), a América do Norte (3%) e a Ásia (2%), esta última com um único caso, em Israel.
Os seis alertas sul-americanos foram todos no futebol: três no Equador, dois no Brasil e um na Argentina.
A IBIA reúne mais de 90 empresas, com mais de 200 marcas de apostas. Seus membros monitoram mais de 1,5 milhão de eventos esportivos por ano e analisam mais de US$ 300 bilhões em volume global de apostas.


