IBJR contesta ABRAS e nega relação entre proibição de apostas e alta no consumo

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) contestou nesta quinta-feira (29/10) os dados divulgados pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), afirmando que as informações não comprovam relação entre a proibição das apostas esportivas e o aumento das compras de alimentos registrado em outubro.
Na nota divulgada pela entidade, o IBJR argumenta que, para estabelecer esse vínculo, seria necessário isolar variáveis como renda, emprego, preços e recursos disponíveis das famílias brasileiras, fatores que influenciam o consumo de forma independente à medida provisória que restringiu as bets.
O crescimento que antecede a proibição
O ponto central da contestação está nos próprios números da ABRAS. O monitoramento semanal realizado em parceria com a NIQ mostra que as vendas nominais do varejo alimentar já avançavam em ritmo acelerado antes da entrada em vigor da medida; crescimento de 7,9% na semana de 14 a 20 de setembro, quando a proibição ainda não vigorava, e de 7,4% entre 5 e 11 de outubro, em comparação com as mesmas semanas de 2025.
Em análise anterior, referente a agosto, a própria ABRAS havia atribuído a expansão do consumo a outros três fatores: melhora do emprego, elevação da renda e queda dos preços dos alimentos, com alta real de 2,71% nos lares no acumulado do ano. Para o IBJR, esses elementos são anteriores à proibição e precisam ser separados dos efeitos que se queira atribuir à medida.
A queda no volume de transações via PIX também não sustenta, segundo o IBJR, a tese de que os recursos saíram das apostas e migraram para os supermercados. O número bruto de transferências não permite identificar quanto as famílias deixaram de apostar, qual o destino do dinheiro que circulava nas plataformas nem em que proporção as apostas continuaram a ocorrer em sites clandestinos.
Números que circulam sem base técnica clara
A nota questiona ainda a origem de dois valores que ganharam espaço no debate público; os R$ 143 bilhões que as bets teriam retirado do comércio e os R$ 62,5 bilhões extraídos da renda das famílias.
O IBJR apresenta um contraponto com dados do Ministério da Fazenda e do IBGE. O mercado regulado de apostas registrou cerca de R$ 37 bilhões em GGR (receita bruta dos operadores, calculada como total apostado menos prêmios pagos) em 2025. No mesmo período, o consumo das famílias brasileiras somou aproximadamente R$ 8,1 trilhões, segundo o IBGE. O GGR corresponde, portanto, a cerca de 0,46% desse consumo total.
Os R$ 62,5 bilhões, por sua vez, derivam de estimativa construída a partir de transferências via PIX, sem que a metodologia distinga operadores autorizados de plataformas ilegais. Já os R$ 143 bilhões representam uma projeção de vendas que o comércio teria deixado de capturar por causa das apostas, não o gasto efetivo dos apostadores no mercado regulado.
O IBJR conclui que nenhum dos dois valores equivale ao desembolso real dos apostadores em plataformas licenciadas e pede que, antes de qualquer conclusão sobre o setor, sejam esclarecidos os métodos, os períodos e os segmentos de mercado considerados em cada estimativa. A ausência dessas informações, avalia a entidade, impede que os números sirvam como evidência da relação causal que a ABRAS sugere.
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IBJR contesta ABRAS e afirma que alta de 7,9% no consumo de supermercados começou antes da proibição de bets. Instituto aponta que R$ 37 bi em apostas representa 0,46% do consumo das famílias. Saiba mais.
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Nota IBJR sobre os dados divulgados pela ABRAS
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) vê com preocupação os dados divulgados pela ABRAS, que não comprovam que a proibição das apostas tenha provocado o aumento das compras de alimentos. Para estabelecer essa relação, é preciso avaliar quanto o consumo teria crescido de qualquer forma, considerando renda, emprego, preços e recursos das famílias.
Os próprios levantamentos da entidade mostram que o varejo alimentar já crescia de forma expressiva antes da proibição. No monitoramento semanal ABRAS/NIQ, as vendas nominais avançaram 7,9% entre 14 e 20 de setembro, antes da medida provisória, e 7,4% entre 5 e 11 de outubro, na comparação com as mesmas semanas de 2025. Esse histórico precisa ser considerado antes de atribuir o desempenho de outubro à proibição. Na análise sobre agosto, a própria ABRAS relacionou o aumento do consumo à melhora do emprego e da renda e à redução dos preços dos alimentos, com alta real de 2,71% nos lares no ano. Esses fatores são anteriores à proibição e precisam ser separados dos atribuídos à medida.
A queda nas transações via PIX também não permite concluir que os recursos foram para os supermercados. O número de transferências não revela quanto as famílias deixaram de gastar com apostas, para onde foi o dinheiro nem em que medida as apostas seguiram em plataformas clandestinas.
Pelo mesmo motivo, é necessário esclarecer a base técnica de números que circulam no debate, como os R$ 143 bilhões que as bets teriam retirado do comércio e os R$ 62,5 bilhões da renda das famílias. Segundo o Ministério da Fazenda, o mercado regulado registrou cerca de R$ 37 bilhões em GGR em 2025. O GGR é o total apostado menos os prêmios pagos, ou seja, o gasto líquido dos apostadores nas empresas autorizadas. No mesmo ano, o consumo das famílias foi de cerca de R$ 8,1 trilhões, segundo o IBGE. O GGR equivale, assim, a cerca de 0,46% desse consumo.
Já os R$ 62,5 bilhões decorrem de uma estimativa baseada em transferências via PIX, sem distinção entre operadores autorizados e plataformas clandestinas, e os R$ 143 bilhões, de uma estimativa de vendas que o comércio teria deixado de realizar. Nenhum dos dois equivale ao gasto efetivo dos apostadores no mercado regulado. Antes de usá-los em conclusões sobre o setor, é preciso esclarecer métodos, períodos e mercados considerados.


