Janja chora ao admitir que fim das bets não rendeu votos, e proibição vira a conta mais cara da campanha de Lula

A proibição das apostas online no Brasil, vendida dentro do governo como um trunfo eleitoral, transformou-se no principal passivo político da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). E a admissão partiu de quem mais trabalhou pela medida: a primeira-dama Janja da Silva.
Segundo a coluna de Túlio Amâncio, no SBT News, Janja lamentou que o fim das bets não tenha provocado o impacto eleitoral esperado e chorou ao comentar o resultado do primeiro turno, em que Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro (PL). O relato é de participantes de uma reunião virtual com cerca de 60 atores, cantores, influenciadores e profissionais de comunicação, mobilizados pela ministra da Cultura, Margareth Menezes.
De acordo com a coluna, a primeira-dama abriu o encontro dizendo que o governo esperava uma reação mais positiva do eleitorado e que foi doloroso perceber que a medida não sensibilizou a população. Ao final da fala, emocionou-se ao afirmar que havia sido surpreendida pelo resultado das urnas.
A fiadora da proibição
O desabafo tem peso porque Janja não foi coadjuvante nessa história. Integrantes da campanha a apontam como uma das principais defensoras do banimento total do setor. Meses antes da Medida Provisória, ela lançou nas redes a campanha “Block no Tigrinho”. Depois, levou o tema aos palanques.
No comício do PT em Belém, em 28 de setembro, afirmou que a regulamentação implementada em 2024 “não deu certo” e atribuiu a adversários a origem do mercado: “Quem permitiu as bets foi o Temer e quem liberou geral foi o Bolsonaro”.
A fatura política chegou depois do primeiro turno. Reportagem da Folha de S.Paulo mostrou que setores petistas debitam na conta da primeira-dama a influência sobre a decisão de Lula. Segundo o jornal, o presidente agiu imaginando que a medida seria popular e ampliaria sua votação. Passada a eleição, lulistas passaram a avaliar que ela afetou negativamente sua popularidade.
No Band Eleições de segunda-feira (5), o diretor do Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, classificou a medida como “tiro no pé”. Para ele, o brasileiro continuará apostando, em sites clandestinos ou hospedados no exterior, enquanto o governo perde arrecadação e controle e cria um problema político desnecessário, além de se indispor com os clubes de futebol.
Planalto não recua
O desconforto já é discutido abertamente na base. No Pulso Político, do Canal UOL, a apresentadora Daniela Lima informou que governistas dizem que proibir as bets mais prejudicou do que ajudou o presidente. O debate chegou a Lula, que não mudou de ideia nem se arrependeu de ter editado a MP. Segundo ela, o Palácio do Planalto “não recuou um centímetro” e mantém o argumento de saúde pública e combate ao endividamento, apesar da pressão de clubes de futebol e de setores econômicos.
Mas, desde o resultado do primeiro turno, o presidente Lula não falou mais em bets. O silêncio do candidato à reeleição pode ser interpretado como um reconhecimento de que a estratégia não funcionou.
O resultado é um governo que mantém, por convicção, uma medida que os próprios aliados consideram eleitoralmente tóxica. Essa influência da primeira-dama sobre a decisão poderá custar a reeleição do presidente.
Críticas vão continuar
O BNLData apurou que as críticas às consequências da proibição não vão arrefecer até o segundo turno. Quatro frentes alimentam o desgaste:
⇒ Clubes de futebol: perda de receitas de patrocínio que sustentavam boa parte dos orçamentos.
⇒ Mercado ilegal: avanço dos sites clandestinos, que ocupam o espaço deixado pelas empresas autorizadas.
⇒ Apostadores desprotegidos: fim das salvaguardas da regulamentação para quem continua jogando, agora em plataformas sem controle.
⇒ Demissões: cortes de postos de trabalho no setor de apostas e jogos online.
São justamente os efeitos que a regulamentação de 2024 pretendia evitar.
A Dona Santinha das Bets
A história brasileira já viu esse enredo. Em 30 de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra fechou os cassinos do país por decreto-lei, decisão que a crônica política sempre atribuiu à influência de sua mulher, a católica fervorosa Carmela Dutra, a Dona Santinha. Milhares de empregos desapareceram da noite para o dia, e o jogo seguiu existindo na clandestinidade.
Oitenta anos depois, o roteiro se repete com outros personagens. Definitivamente, Janja da Silva entra para a história do país como a Dona Santinha das Bets.


