Lula ataca bets na ONU, mas MP poderá limitar apenas publicidade

Apostas I 22.09.26

Por: Magno José

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Lula ataca bets na ONU com discurso mais duro do mandato, mas MP em preparação limitar apenas publicidade
Discurso na ONU classifica bets como “doença” e promete intolerância ao setor, mas medida provisória em preparação restringe poderá restringir a publicidade das casas de apostas, sem banir a atividade  (Foto: Ricardo Stuckert)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o palco da 81ª Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22), em Nova York, para fazer o ataque mais duro já dirigido ao setor de apostas esportivas em um fórum internacional:

“A indústria bilionária das BETs transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio. Aprovamos uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.”

No mesmo discurso e logo após criticar as bets para líderes mundiais que regulamentam este setor, Lula também prometeu “assegurar a justa remuneração de artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual” — frase lida como aceno direto a Paula Lavigne, do coletivo 342 Artes, autora da campanha “Block no Tigrinho”, que pressiona artistas e patrocinadores a romperem com as bets. A menção une as duas pontas da ofensiva: de um lado, o discurso humanitário-eleitoral contra o vício e o endividamento das famílias; de outro, o aceno à ala cultural que faz campanha ativa contra o setor.

O que está sendo desenhado

A retórica na ONU, porém, destoa do que o governo prepara na prática. De acordo com reportagem do site Platô desta terça-feira (22), Lula pretende editar ainda esta semana — assim que retornar dos Estados Unidos — uma medida provisória restringindo as bets, mas o núcleo do governo entende que não haverá proibição total da atividade. A tendência apontada por aliados do presidente é que a MP restrinja a publicidade das casas de apostas, com possível veto aos cassinos online.

A reportagem detalha o cálculo por trás da escolha por uma saída mais branda:

Jurídico: o governo quer evitar uma enxurrada de ações judiciais de empresas já autorizadas a operar — hoje são 188 bets regulares no país.

Eleitoral: mesmo restrita à publicidade, a medida deve render dividendos eleitorais a Lula, em campanha por um quarto mandato, já que há sentimento geral contra as apostas eletrônicas entre mulheres e evangélicos, por causa do endividamento das famílias.

Reação organizada: a campanha de Lula já antecipa forte reação de clubes de futebol e de organizações da área cultural que recebem patrocínio das bets — mesmo setor ao qual Lula acena com a promessa de “justa remuneração” a artistas e criadores.

O Platô também resgata a escalada retórica do presidente na semana anterior à viagem: ao lado do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, na sexta-feira (18), Lula chamou as apostas pela internet de “uma doença” e afirmou: “Se depender de minha vontade, eu vou acabar com essas bets.”

O descompasso

Entre a fala e a MP em gestação há uma distância considerável. Na ONU, o discurso é de intolerância ao “modelo de negócio”. Na prática, a medida que o Planalto estuda preserva o modelo de negócio das 188 bets regulares e ataca apenas sua vitrine publicitária. É o desenho de uma política pensada para render manchete e capital eleitoral sem provocar o contencioso jurídico e o custo político de um banimento — o que expõe o caráter eleitoreiro do tom usado no discurso internacional.

 

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