Lula promete proteger as famílias evangélicas, mas a MP das bets deixou o apostador sem proteção

O presidente Lula escolheu um versículo bíblico para abrir a carta que dirige às famílias evangélicas brasileiras, a ser divulgada nesta quarta-feira (14) pela Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, movimento que apoia sua reeleição. Ele diz que os cristãos com quem tem dialogado o ensinaram a “seguir a verdade em amor”. O texto, revelado pela coluna de Bela Megale, em O Globo, lista entre as ações do governo que “abençoam” as famílias o combate às apostas online, que, segundo o presidente, estão destruindo tantos lares.
Se o compromisso é com a verdade, convém começar pela palavra escolhida. O que o governo fez não foi “combater” as bets. Foi proibi-las, por meio da Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, a menos de duas semanas do primeiro turno. E não por acaso o tema reaparece agora numa carta a evangélicos: levantamentos internos do PT às vésperas da edição da MP, indicavam que a proibição era bem recebida justamente por esse eleitorado, majoritariamente favorável ao adversário. A carta não é política para a família. É o capítulo seguinte de uma estratégia eleitoral.
O que a regulamentação garantia — e a MP retirou
A Lei nº 14.790/2023, sancionada pelo próprio Lula em dezembro de 2023, e as portarias da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF) construíram, ao longo de 2024, um conjunto de proteções ao apostador que passou a valer com o mercado regulado, em janeiro de 2025. Entre elas:
⇒ verificação de identidade por CPF e reconhecimento facial, com bloqueio efetivo de menores de 18 anos;
⇒ proibição de apostas com cartão de crédito, criptoativos e dinheiro de terceiros, com pagamentos apenas a partir de conta bancária em nome do próprio apostador;
⇒ vedação à concessão de crédito, adiantamentos ou empréstimos para apostar;
⇒ ferramentas de jogo responsável, como limites de depósito, de perdas e de tempo, pausas e autoexclusão;
⇒ bloqueio de apostas por beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família e o BPC;
⇒ regras de publicidade, com advertências obrigatórias e vedação de mensagens dirigidas a crianças e adolescentes;
⇒ SAC, ouvidoria e responsabilidade jurídica de empresas sediadas no Brasil, sujeitas à fiscalização e a sanções.
Nenhuma dessas salvaguardas existe no mercado ilegal. E é para lá que a proibição empurrou o apostador. Mesmo após 22 meses de regulação, as casas clandestinas ainda detinham mais de 40% do mercado. Com o fechamento das operadoras autorizadas, quem continua apostando, e são milhões de brasileiros, passou a fazê-lo em sites sem verificação de idade, que aceitam cartão de crédito, não oferecem autoexclusão, não recolhem impostos e não respondem a nenhuma autoridade brasileira.
As contradições da própria carta
O texto promete proteger crianças e adolescentes. Mas a regulamentação era o único instrumento que impunha às empresas a obrigação de impedir o acesso de menores, e o mercado ilegal não tem qualquer barreira. A carta promete combater o crime organizado “com inteligência”. Mas foi justamente a arrecadação do setor regulado que passou a financiar beneficiários legais como o Fundo Nacional de Segurança Pública e o fundo da Polícia Federal, recursos que a MP cortou. E as casas clandestinas, que agora absorvem a demanda, são reconhecidamente um canal de lavagem de dinheiro para facções.
A carta também fala em saúde pública. A lei destinava parte da arrecadação das bets ao Ministério da Saúde, para ações de prevenção e tratamento do jogo problemático. Com a proibição, essa fonte também desaparece, exatamente quando quem apostava fica entregue a operadores que não têm qualquer interesse em identificar ou limitar o comportamento compulsivo.
Há ainda as famílias que a carta não menciona: as de milhares de trabalhadores do setor, das áreas de tecnologia, atendimento, marketing e compliance, que perderam ou estão perdendo o emprego. Muitas delas certamente evangélicas.
A verdade que falta
A preocupação com o endividamento e o vício é legítima e nunca foi negada pelo setor regulado. Mas quem se preocupa de fato com as famílias fortalece a fiscalização, aperta as regras de publicidade, amplia a autoexclusão e asfixia o mercado ilegal. Não destrói, por decreto e em plena campanha, o único ambiente em que o Estado conseguia enxergar e proteger o apostador.
A carta pede às famílias evangélicas que decidam o voto em oração e com discernimento. É um bom conselho. Discernir, neste caso, é perceber que a proibição não acabou com as apostas. Acabou apenas com as proteções. Seguir a verdade em amor exigiria reconhecer isso.
Leia a carta na íntegra:
Carta de Luiz Inácio Lula da Silva para as Famílias Evangélicas Brasileiras
Queridas famílias evangélicas do Brasil,
Resolvi escrever a vocês com o coração aberto, cheio de verdade, pois os cristãos com quem tenho dialogado estão me ensinando que a Bíblia nos orienta a “seguir a verdade em amor.” Não sou evangélico, mas tenho total respeito por quem é, assim como tenho por todas as religiões e profissões de fé. Temos uma coisa em comum: o compromisso de cuidar das famílias brasileiras, pois somente lares fortes podem produzir uma nação forte!
Aprendi dentro de casa o valor do trabalho, resistindo bravamente com minha mãe, Dona Lindu, para criar uma família com sete irmãos. Com essa base familiar sólida, aprendi a amar e a lutar para transformar a realidade. É nesse chão que a minha história se encontra com a história de vida e de fé da sua família. Entrei para a política com esse compromisso em meu coração: ajudar a mudar as condições de vida das famílias pobres e batalhadoras.
Numa longa e difícil jornada, me tornei Presidente do Brasil por três vezes. Agora, disputo o quarto mandato. Cheguei até aqui com a proteção divina, orientado por um propósito e missão. Tenho absoluta certeza de que, se não fosse a boa mão de Deus, eu nem teria saído vivo das várias batalhas que enfrentei. Guiado por Ele estou aqui, mais uma vez, fazendo a defesa das famílias brasileiras com ações concretas, como tenho feito ao longo de toda a minha jornada política, e não com discursos vazios, como muitos outros fazem. As famílias são a base do Brasil que queremos.
Dentre as várias ações do meu governo que abençoam suas famílias, relembro a vocês, por exemplo, o combate às apostas online, as Bets, que estão destruindo tantos lares, e meu empenho para que todos tenham dois dias de descanso semanal, pois a vida não se resume ao trabalho.
As pessoas precisam de mais tempo para descansar, ter lazer e estar em casa com os seus, fortalecendo os vínculos familiares. Para o povo evangélico, isso garante, inclusive, mais tempo para estar na igreja em comunhão com os irmãos e em adoração. Sigo também empenhado em proteger as mulheres, combater todos os tipos de violência e o crime organizado com inteligência: prender os bandidos, proteger as nossas crianças e adolescentes e poupar as vidas inocentes.
Jamais poderão nos acusar de estarmos comprometidos com políticas que destroem vidas, que fecham templos ou que não demonstrem respeito, como Jesus nos ensinou, que devemos amar a todas as pessoas. Precisamos avançar mais, precisamos amar mais! Até aqui, ajudei a arrumar a nossa casa, o Brasil. Mas sei que ainda há muito a ser feito. Estou escutando o clamor legítimo e urgente de vocês por mudanças, por segurança, por futuro e prosperidade. Estou comprometido com a melhoria da saúde pública, para que sua família fique bem cuidada; com o aumento real da renda, com poder de compra; e com a preservação da natureza criada por Deus. O Brasil é nosso! Eu vou escutar e atender aos anseios de vocês.
Sei que, nas famílias evangélicas, tudo se decide em oração. Por isso, conclamo vocês a pedirem discernimento a Deus para fazer a escolha nesta eleição. Vá às urnas com a consciência livre e com a aliança renovada com o nosso amado Brasil.
Com gratidão por sua atenção e generosa leitura, conto com suas orações e sigo olhando firmemente para a esperança da vitória e de um Brasil mais justo, respeitoso e com oportunidades para todos.
ÀS FAMÍLIAS EVANGÉLICAS BRASILEIRAS
“Precisamos avançar mais!”


