Lula se reúne com presidente do Uruguai e fala em conhecer experiência do país na regulação de bets

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se encontrou com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, na manhã desta segunda-feira, 21, na residência oficial do embaixador do Brasil na ONU, Sérgio Danese.
O encontro durou pouco menos de uma hora. Em sua conta no X, Lula disse ter interesse em conhecer a regulação uruguaia sobre as apostas esportivas. O governo prepara uma medida provisória para proibir cassinos virtuais, deixando bets esportivas e patrocínios a clubes e campeonatos esportivos de fora.
“Tratamos de temas da agenda bilateral, em especial infraestrutura e comércio agrícola. Agradeci a autorização concedida ao Brasil para uso do excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China”, escreveu o brasileiro. “Também manifestei interesse em conhecer a experiência uruguaia de regulamentação das apostas online (bets).”
Os dois presidentes conversaram ainda sobre a integração latino-americana e caribenha e sobre ameaças do extremismo político e da desinformação na região e no mundo.
Mas o “modelo uruguaio” citado por Lula não existe como sistema de regulação de mercado aberto — e menos ainda como referência comparável ao Brasil.
Um monopólio, não um mercado regulado
Ao contrário do Brasil, o Uruguai não tem um mercado de apostas online com operadores privados: a única plataforma autorizada nacionalmente é a Supermatch, que funciona sob supervisão estatal e opera somente com apostas esportivas. Segundo o senador uruguaio Felipe Carballo, autor de um projeto de lei apresentado em novembro de 2025 para tentar mudar esse cenário, o arranjo atual configura na prática um “monopólio privado de fato”, no qual o Estado não participa diretamente da maioria dos lucros gerados — já que a Supermatch é administrada sob concessão pela empresa La Banca.
O fechamento do mercado uruguaio não se limita à operação: casas de apostas licenciadas no exterior estão proibidas de patrocinar clubes e eventos esportivos no país. O Estado uruguaio chega a multar clubes de futebol locais quando emissoras estrangeiras exibem, durante transmissões internacionais, publicidade de bets patrocinadoras dos times adversários — situação que o próprio Orsi classificou como um “absurdo” dias antes de se reunir com Lula.
Tentativas de abrir esse modelo emperram há anos no sistema político uruguaio: em setembro de 2024, a Câmara dos Deputados nem chegou a colocar em pauta um projeto de regulamentação, barrado pelo Partido Colorado; um projeto aprovado pelo Senado desde agosto de 2022 segue parado na Câmara; e uma nova proposta apresentada por entidades do setor de cassinos, em agosto de 2026, ainda tramita sem previsão de avanço.
Em 2026, o diretor da Dirección Nacional de Loterías y Quinielas – DNLQ afirmou que o mercado ilegal de jogos no Uruguai gera aproximadamente US$ 700 milhões por ano. Ele comparou com o mercado regulado de apostas esportivas, cuja movimentação diária na Supermatch fica em torno de US$ 30-35 mil em dias normais, podendo chegar a US$ 75-80 mil em grandes eventos.
Uma escala incompatível
Mais do que a arquitetura regulatória, o que torna a comparação inadequada é a escala. A população do Uruguai é estimada em cerca de 3,4 a 3,5 milhões de habitantes — um contingente equivalente a quase 10% do total de apostadores do Brasil. Somente em 2025, cerca de 25,5 milhões de pessoas usaram plataformas autorizadas no Brasil, um número quase sete vezes maior que toda a população uruguaia.
Um sistema desenhado para uma população pequena, concentrada em um único operador estatal-concessionário, não oferece elementos de infraestrutura de fiscalização, tecnologia de rastreamento ou modelo tributário que sejam transponíveis para um mercado do tamanho e da complexidade do brasileiro — hoje com mercado ilegal estimado entre 38% e 44% do total apostado no país.
O que fica da fala de Lula
Se a intenção declarada é reforçar o combate a plataformas não autorizadas, o Uruguai de fato tem histórico nesse ponto — bloqueando dezenas de sites offshore desde pelo menos 2017-2018. Mas isso está mais relacionado a fiscalização e repressão à ilegalidade do que a um desenho de regulamentação de mercado aberto, que é o que o Brasil já adotou desde 2018 (Lei 13.756) e regulamentou entre 2023 e 2024. Tratar o Uruguai como parâmetro de “regulação” — quando o próprio país sequer conseguiu aprovar uma lei para abrir o setor à iniciativa privada internamente — soa mais como gesto diplomático do que como sinalização de política pública consistente.
Há ainda uma leitura alternativa: a de que o interesse declarado por Lula tem menos a ver com buscar um modelo técnico a ser importado e mais com manter o tema das bets em evidência na mídia. O presidente já fez das apostas esportivas alvo recorrente de críticas públicas, num momento em que o governo articula a MP dos cassinos virtuais e disputa espaço na pauta com a queda de popularidade nas pesquisas. Citar o Uruguai — mesmo sem que o país tenha, de fato, uma experiência regulatória replicável — cumpre a função política de reforçar a narrativa de que o Executivo está “atento” ao setor, independentemente da consistência técnica da comparação.
Tive nesta segunda-feira (21) um encontro bilateral com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, em Nova York, no contexto da semana de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU.
Conversamos sobre a integração latino-americana e caribenha, bem como sobre as ameaças do extremismo… pic.twitter.com/rp0492YcI5
— Lula (@LulaOficial) September 21, 2026


