Mercado preditivo chega ao Brasil com autorização da CVM para apostas em eventos

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) deu sinal verde para os primeiros produtos do mercado preditivo brasileiro, que serão lançados pela B3 nos próximos meses. A divulgação ocorreu nesta quarta-feira (18/02) em reportagem do VALOR e permitirá apostas sobre resultados de eventos futuros, inicialmente restritas a investidores profissionais com patrimônio superior a R$ 10 milhões em investimentos financeiros.
A B3 planeja disponibilizar os primeiros derivativos do mercado preditivo ainda no primeiro trimestre de 2026. Os produtos iniciais incluirão opções binárias de dólar, Ibovespa e bitcoin, com escolhas limitadas a “sim” ou “não” para determinados cenários.
“Cada vez mais o mundo de derivativos está se aproximando dessa fronteira do mercado preditivo”, afirmou Gilson Finkelsztain, presidente da B3, em entrevista ao Valor. Apesar da reportagem do Valor destacar que o Brasil se prepara para entrar no mercado de previsões, os brasileiros já contam com iniciativas como Prévias e Palpitada que já funcionam no país, enquanto reguladores debatem se a supervisão deve ser da CVM, Banco Central ou Ministério da Fazenda.
Os investidores poderão apostar, por exemplo, se o dólar ficará abaixo de R$ 5 em determinada data ou se o Ibovespa ultrapassará os 200 mil pontos em maio. A expectativa é que o lançamento ocorra, no máximo, até o início do segundo trimestre deste ano.
O funcionamento dos contratos do mercado preditivo envolve apostadores que assumem posições opostas sobre um mesmo evento. Por exemplo, se um investidor aposta R$ 40 que o Ibovespa atingirá 200 mil pontos em março, e outro aposta R$ 60 que isso não acontecerá, quem acertar leva o valor total de R$ 100.
Luiz Masagão, vice-presidente de produtos e clientes da B3, explica que a bolsa já opera com produtos semelhantes. “Há um público buscando essa simplicidade. Se trata de uma porta de entrada, para depois [o público-alvo] evoluir nos investimentos. Esse é um dos grandes valores do produto”, afirma Masagão.
Ele lembra que a B3 já atua com um mercado próximo desses produtos, como a opção de Copom, na qual o investidor “aposta” na queda, manutenção ou alta da Selic. Atualmente, os principais investidores desse produto são institucionais, mas pessoas físicas já começam a experimentá-lo.
Empresas dos setores de criptomoedas e apostas online estão desenvolvendo plataformas de mercados preditivos no Brasil, permitindo aos usuários negociar contratos baseados em probabilidades de eventos futuros. Estas iniciativas, que operam na fronteira entre derivativos financeiros e apostas, enfrentam desafios regulatórios significativos no país, pois não existe enquadramento legal específico para esse tipo de operação.
Segundo estimativas da firma de pesquisa Eilers & Krejcik, o mercado preditivo pode alcançar um volume anual de US$ 1 trilhão globalmente. Nos Estados Unidos, plataformas como Polymarket e Kalshi lideram o segmento, que registrou grande crescimento durante a recente eleição presidencial que elegeu Donald Trump.
A ICE, controladora da Nyse, já investiu na Polymarket, demonstrando o interesse global nesse tipo de mercado. No Brasil, além dos produtos iniciais focados em ativos financeiros e indicadores macroeconômicos, a B3 também prepara lançamentos relacionados a eventos macroeconômicos, como PIB e IPCA.
O mercado brasileiro acaba de ganhar um novo player nos mercados de previsão: o Futuriza, que está prevista para começar a operação em março. A plataforma conta também com sócios institucionais estratégicos: a Play55, líder em soluções personalizadas para produtos lotéricos, capitalização e sorteios; e o Grupo Loyalty, referência em marketing digital, vendas pela internet e produção de tecnologia para o setor de entretenimento, eleito por três vezes como o maior afiliado do mundo no evento Sigma, uma das maiores feira de negócios do setor de Igaming.
Em nota oficial, a CVM afirmou que “acompanha, no âmbito de suas competências legais, a evolução de iniciativas no mercado de capitais e está permanentemente modernizando a regulamentação e a supervisão, em função de fatores diversos, como inovação, experiência da supervisão e demandas de agentes de mercado”. A autarquia destacou ainda que os “novos contratos de opções aprovados pela autarquia foram analisados com base na regulamentação vigente”.
Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV EAESP, observa que a chegada de novos produtos ao mercado sempre exige reflexão sobre regulação, como ocorreu com criptomoedas e apostas esportivas. A principal dúvida é se o mercado preditivo se caracteriza como apostas (bets), reguladas pelo Ministério da Fazenda através da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).
A indefinição regulatória brasileira concentra-se em qual órgão seria responsável pela supervisão: a CVM, o Banco Central ou o Ministério da Fazenda. Executivos do setor têm buscado diálogo com reguladores, mas consideram arriscado lançar plataformas sem definições claras.
Lissa Workman, sócia do escritório Mattos Filho na área de tecnologia e entretenimento, alerta que o mercado preditivo chega em uma zona cinzenta no Brasil. “E lembrando que estamos em um ano de Copa e eleições no Brasil”, aponta Workman, destacando como estes eventos podem impulsionar o crescimento do setor.
Paulo Brancher, sócio do Mattos Filho nas áreas de tecnologia e bancário, enfatiza que a inovação não deve comprometer as garantias necessárias. “Uma inovação por si só não pode afastar as garantias que esse tipo de atividade envolve”, destaca. Ele menciona que nos Estados Unidos, cada contrato passa por aprovação prévia, evitando ofertas de contratos “autorrealizáveis”.
Enquanto nos EUA a Polymarket e a Kalshi dominam esse mercado, no Brasil empresas locais e estrangeiras aguardam definições regulatórias. Na Kalshi, já é possível apostar se haverá impeachment de um ministro do Supremo Tribunal Federal em 2026, demonstrando interesse no mercado brasileiro.
Internacionalmente, a Kalshi conseguiu avançar nos EUA após aprovação regulatória, operando sob supervisão da CFTC, enquanto iniciativas baseadas em blockchain como a Polymarket se desenvolveram fora do sistema financeiro tradicional. Nenhuma dessas plataformas está disponível para brasileiros.
André Santa Ritta, sócio do escritório Pinheiro Neto na área de inovação e tecnologia, indica que tanto empresas locais quanto estrangeiras estão atentas às futuras definições regulatórias. Eduardo Carvalhaes, sócio de direito público e regulação do escritório Lefosse, alerta: “Se houver um vácuo regulatório, o serviço ainda vai ser prestado, e será à margem da regulação.”
Segundo Carvalhaes, não deve haver uma regulação única para o mercado preditivo, mas sim o envolvimento de diversos reguladores que precisarão dialogar entre si. Ele acredita que os reguladores exigirão requisitos mínimos para atuação no Brasil, como presença no país e solvência.
A explosão das bets no Brasil tornou familiar a ideia de prever resultados e lucrar com isso. No primeiro semestre de 2025, em torno de 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas esportivas, segundo o Ministério da Fazenda.
Brasil já tem Prévias e Palpitada e em março o Futuriza começa a operar
Apesar da reportagem do VALOR destacar que o Brasil se prepara para entrar no mercado de previsões, os brasileiros já contam com Iniciativas como Prévias e Palpitada já funcionam no país, enquanto reguladores debatem se supervisão deve ser da CVM, Banco Central ou Ministério da Fazenda. Empresas dos setores de criptomoedas e apostas online desenvolvem alternativas que funcionam com pagamentos via Pix, mas enfrentam indefinição regulatória.
O mercado brasileiro acaba de ganhar um novo player nos mercados de previsão: o Futuriza, que está prevista para começar a operação em março. O Futuriza vai atuar em duas frentes complementares: no modelo B2C, usuários brasileiros podem participar de mercados sobre política, economia, esportes, entretenimento e cultura; e no modelo B2B, trabalha com empresas, veículos de mídia e instituições que buscam capturar inteligência coletiva para decisões estratégicas.

