Mercados preditivos avançam no Brasil e operam na fronteira entre derivativos financeiros e apostas

Apostas I 30.01.26

Por: Magno José

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Mercados preditivos avançam no Brasil e operam na fronteira entre derivativos financeiros e apostas
Iniciativas como Prévias e Palpitada já funcionam no país, enquanto reguladores debatem se supervisão deve ser da CVM, Banco Central ou Ministério da Fazenda. Empresas dos setores de criptomoedas e apostas online desenvolvem alternativas que funcionam com pagamentos via Pix, mas enfrentam indefinição regulatória

Empresas dos setores de criptomoedas e apostas online estão desenvolvendo plataformas de mercados preditivos no Brasil, permitindo aos usuários negociar contratos baseados em probabilidades de eventos futuros. A proposta deste novo mercado de previsão é essencialmente criar uma plataforma onde as pessoas apostam no que acham que vai acontecer, e o preço da aposta torna-se uma previsão. Estas iniciativas, que operam na fronteira entre derivativos financeiros e apostas, enfrentam desafios regulatórios significativos no país, pois não existe enquadramento legal específico para esse tipo de operação.

Os mercados de previsão são plataformas em que os participantes compram e vendem “contratos” cujo valor reflete a probabilidade de um evento ocorrer. Essas ocasiões podem incluir decisões econômicas, indicadores macroeconômicos, resultados de eleições, decisões regulatórias, entre outras.

A indefinição regulatória brasileira concentra-se em qual órgão seria responsável pela supervisão: a CVM, o Banco Central ou o Ministério da Fazenda. Executivos do setor têm buscado diálogo com reguladores, mas consideram arriscado lançar plataformas sem definições claras.

Internacionalmente, a Kalshi conseguiu avançar nos EUA após aprovação regulatória, operando sob supervisão da CFTC, enquanto iniciativas baseadas em blockchain como a Polymarket se desenvolveram fora do sistema financeiro tradicional. Nenhuma dessas plataformas está disponível para brasileiros.

A explosão das bets no Brasil tornou familiar a ideia de prever resultados e lucrar com isso. No primeiro semestre de 2025, em torno de 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas esportivas, segundo o Ministério da Fazenda. Enquanto por aqui as apostas esportivas dominam telas e patrocínios, nos Estados Unidos ganham força os mercados de previsão — plataformas reguladas que transformam eventos econômicos e políticos em contratos negociados como ativos financeiros.

Duas plataformas já existem no Brasil: a Prévias e a Palpitada. A Prévias opera em fase beta privada, com acesso restrito a convidados, e está em processo de adequação regulatória. Na plataforma, os vencedores recebem mais de 90% do valor arrecadado nas previsões, enquanto uma parcela menor vai como comissão para quem criou a previsão. Do total arrecadado, 91% é distribuído proporcionalmente entre os vencedores, enquanto 9% vai como comissão para quem criou a previsão. A plataforma cobra 3% do criador no momento da criação.

A empresa cobra uma pequena taxa percentual do criador no momento da criação da previsão. Todas as transações são realizadas via Pix, permitindo depósitos por QR Code ou código Pix, e saques rápidos.

A Palpitada apresenta-se como a primeira plataforma descentralizada deste tipo no Brasil, utilizando blockchain. Um diferencial da Palpitada é a integração com o Pix. Os usuários podem realizar depósitos via QR Code ou código Pix, e para saques, basta configurar a chave no perfil e solicitar a transferência.

A questão regulatória continua em desenvolvimento no Brasil. A Lei 14.790/2023 estabeleceu regras para apostas esportivas, enquanto o Marco Legal das Criptomoedas (Lei 14.478/2022) forneceu diretrizes para ativos virtuais no país.

A Palpitada oferece interface em português brasileiro, suporte ao Pix para transações, e um sistema gamificado com missões e distribuição de tokens. A plataforma foca em eventos brasileiros, incluindo categorias como esportes, política, criptomoedas, entretenimento, economia e cultura pop.

Um mercado preditivo funciona como uma plataforma onde participantes negociam “contratos” representando probabilidades de eventos futuros. O preço de cada contrato reflete a probabilidade calculada pelos participantes. Na prática, os participantes compram e vendem contratos que pagam um valor fixo se o evento ocorrer. A partir daí, o preço dos contratos oscila conforme a percepção do mercado sobre a probabilidade da ocasião.

Apesar de, à primeira vista, parecer que os mercados de previsão e as Bets jogam no mesmo campo por lidarem com “previsão”, os dois segmentos têm muitas diferenças entre si. Um opera como entretenimento e jogo — regido por regras específicas de apostas esportivas. O outro, os prediction markets funcionam como um “mercado financeiro regulado”, supervisionado por autoridades federais e usado para medir probabilidades que influenciam empresas e investidores.

Roger Amarante publicou uma análise sobre o setor: “Prediction markets não são “bets melhoradas”. São infraestrutura de informação. E é exatamente por isso que tendem a se misturar — rapidamente — com o mercado financeiro tradicional.”

Em sua publicação, ele explica que estes mercados negociam contratos binários (“SIM/NÃO”) sobre eventos reais, onde o preço equivale à probabilidade em tempo real. Funcionam como agregadores de informação distribuída, com incentivo financeiro para informações precisas.

As métricas-chave incluem volume, open interest, spread, profundidade de book, volatilidade da probabilidade e tempo de resolução. Os modelos predominantes são order book (estilo bolsa), AMM algorítmico ou híbridos.

A integração com o sistema financeiro ocorre quando a probabilidade se transforma em ativo informacional. O mercado financeiro tradicional precifica riscos usando curvas de juros, CDS, volatilidade implícita e research proprietário. Os mercados preditivos complementam estas ferramentas com dados sobre probabilidades de eventos discretos.

Estas informações são valiosas para gestores macro, desks de trading, tesourarias e hedge funds. Os contratos de eventos funcionam como derivativos simplificados, reduzindo barreiras de entrada e facilitando operações de hedge.

O valor destes mercados reside nos dados gerados: probabilidades históricas, reações a eventos inesperados e dispersão de expectativas. Estas informações podem se tornar insumos para modelos quantitativos e trading algorítmico.

Especialistas alertam que enxergar os prediction markets apenas como “bet com skin de finanças” representa um erro estratégico. O diferencial competitivo envolve microestrutura, compliance e distribuição.

Thiago Iusim, fundador e CEO da Betshield Responsible Gaming, declarou: “Entendo esse mercado da mesma forma, mas quero trazer um outro ponto de vista para discussão. A linha entre uma coisa e outra é muito tênue e justamente por isso gera tanto debate. Há, inclusive, indícios de migração de volume do mercado de apostas para o de predição nos Estados Unidos.”

Nos EUA, tribunais debatem a classificação legal das plataformas de predição. Iusim afirmou: “Em muitos casos, importa menos a realidade em si e mais como é visto e percebido pela sociedade e pelo governo. Nos Estados Unidos há um debate em andamento nos tribunais para reavaliar onde as plataformas de predição devem se encaixar do ponto de vista legal. De toda forma, a pergunta que fica para mim é: e no Brasil, será que vinga?”

É nesse segmento que atua a Kalshi, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, 29 anos, e Tarek Mansour, também de 29 anos. Os dois entraram para o clube dos bilionários depois que a empresa de mercado de previsões levantou US$ 1 bilhão (R$ 5,33 bilhões), atingindo uma avaliação de US$ 11 bilhões (R$ 58,63 bilhões). A avaliação da Kalshi, que permite aos usuários apostar no resultado de eventos futuros, como eleições, jogos esportivos e acontecimentos da cultura pop, aumentou mais de cinco vezes em menos de seis meses. Isso elevou o patrimônio líquido dos cofundadores, que detêm cada um cerca de 12% da empresa, para US$ 1,3 bilhão (R$ 6,93 bilhões) cada um. Luana assim se tornou a bilionária que construiu sua própria fortuna mais jovem do mundo.

Nos mercados de previsão regulados, como a Kalshi, a companhia ganha dinheiro cobrando taxas em cada contrato comprado ou vendido. O preço de cada acordo está ligado à probabilidade percebida de um evento, variando de US$ 0,01 (R$ 0,05) a US$ 0,99 (R$ 5,27). Ou seja, comprar um contrato de US$ 0,10 (R$ 0,53), gera uma taxa de US$ 0,01 ou 10%. Pagar US$ 50,00 (R$ 266,00) por cem contratos de “sim”, gera uma taxa de US$ 1,75 (R$ 9,30), ou 3,5%.

 

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