No palanque dos bingos.

Bingo I 11.03.04

Por: sync

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O fechamento dos bingos deu ao sindicalista Paulo Pereira da Silva um palanque inesperado a sete meses das eleições municipais. Provável candidato do PDT à sucessão da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), Paulinho passou a semana à frente das manifestações patrocinadas pelos donos dos bingos em defesa da reabertura das casas – a pretexto de evitar ademissão coletiva de 120 mil trabalhadores. Foi um casamento perfeito. Para os empresários do setor, cuja imagem quase sempre é associada a lavagem de dinheiro proveniente da corrupção e do narcotráfico, o discurso pró-emprego do presidente da Força Sindical transformou uma questão política num drama de milhares de famílias que sobrevivem dos bingos. O sindicalista, um dos poucos a tirar proveito da crise, ganha a gratidão dos bingueiros, de seus funcionários e a
visibilidade que as manifestações tiveram no noticiário. Foi Paulinho o primeiro a farejar a oportunidade. Reunidos às pressas em São Paulo na Quarta-Feira de Cinzas, cinco dias depois do fechamento dos bingos por decisão do presidente LuizInácio Lula da Silva, os líderes do setor decidiram demitir simultaneamente todos os seus funcionários no dia 1o de março. “Queríamos provocar uma comoção”, reconhece Olavo Sales da Silveira, presidente da Associação Brasileira de Bingos (Abrabin). Mas no dia 27 de fevereiro foram surpreendidos pela sugestão de Paulinho de deflagrar o movimento pela manutenção dos empregos – indiretamente, pela reabertura das casas de jogos.O presidente da Força Sindical já tinha um plano pronto, incluindoo cronograma das passeatas ocorridas em São Paulo, Brasília e no Rio de Janeiro. Em troca, segundo Silveira, o sindicalista pediu apoio logístico e a manutenção dos empregos por um mês. Era preciso assegurar o mote das manifestações. A estratégia, segundo Paulinho e Silveira, foi um sucesso.
“As pesquisas encomendadas pela Abrabin mostram que conseguimos reverter a opinião da maioria da população, antes favorável ao fechamento dos bingos”, afirma o presidente da entidade. Se os bingos não forem reabertos, a demissão coletiva está marcada para 1o de abril.
Nesta segunda-feira, Dia Internacional da Mulher, uma passeata só de mulheres sairá da igreja matriz deSão Bernardo do Campo até o apartamento do presidente Lula. “Queremos ganhar o apoio da dona Marisa (primeira-dama) para a causa”,
explica Paulinho. Também estão previstas pequenas passeatas em Belo Horizonte, Porto Alegre e Salvador caso sejam atendidos os pedidos de audiência que serão feitos aos governadores Aécio Neves (PSDB-MG) e Germano Rigotto (PMDB-RS) e ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). “Se não tivermos sucesso, Lula entrará para a História como o presidente que demitiu mais gente de uma canetada só”, afirma Paulinho.Empresários negam uso de bingos para lavar dinheiroJogador eventual nos caça-níqueis de bares, o presidente da Força Sindical não se expunha tanto desde 2002, quando foi candidato à Vice-Presidência da República, na chapa do hoje ministro Ciro Gomes. Um ano antes, foi o garoto-propaganda da campanha do governo Fernando Henrique Cardoso pela flexibilização das leis trabalhistas. Uma das alterações previstas naquele projeto era a redução do período de aviso prévio e do porcentual pago aos trabalhadoresque dão expediente à noite, benefício que incide diretamente no salário da maioria dos funcionários de bingos.Paulinho não teme a eventual associação de seu nome à má fama das casas de jogos. “Estou lutando por milhares de empregos. Se algum bingo se presta a atividade criminosa, éum problema da polícia e da Justiça”, diz. Ciente dos dividendos políticos proporcionados pela campanha de reabertura dos bingos, o sindicalista diz que estaria à frente desse movimento mesmo que não fosse candidato a prefeito. “Convidamos a Central Única dos Trabalhadores (CUT) para tomar parte das
manifestações, mas eles não toparam“, provoca. Até a sexta-feira, a maior central trabalhista do país, fundada por Lula, mantinha silêncio diante da possibilidade de demissão dos 120 mil funcionários dos bingos. A seu favor, somente o fato de a maioria dos funcionários de bingos ser filiada a sindicatos ligados à Força Sindical.LAVAGEM NA MESABingos podem servir à lavagem de dinheiro porque lidam com dinheiro vivo, impossível de ser rastreado1- Cartelas: como não são numeradas, podem ser registradas em número menor do que a quantidade realmente vendida2- Falsa perda: é possível simular a perda de milhares de reais em máquinas de caça-níqueis, pois não existe comprovação
do jogo3- Anonimato: os jogadores não são identificados4- Laranjas: é possível dirigir resultados para que laranjas ganhem e justifiquem fortunas5- Receita: é possível superestimar o faturamento para justificar a entrada de dinheiro sujo6- Fiscalização: não existe fiscalização sistemática da atividade por falta de regulamentaçãoFontes: Risk Solutions/Group e KrollRevista – Época – RONALD FREITAS

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